ILHAS SUSPENSAS — SUSTENTAÇÃO DA VIDA

30 de junho de 2026
6.3K views
5 min de leitura

Avaliação

ENREDO
7/10
PERSONAGENS
7/10
ESCRITA
8/10
RITMO
6/10
ORIGINALIDADE
6/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
7/10
Geral
6.8/10
AUTORA: Fabiane Secches • EDITORA: Cia das Letras • 2026 • PÁGINAS: 160

Ilhas suspensas” acompanha Mariana, uma pesquisadora brasileira que se muda com o marido para um país europeu depois de uma sequência de perdas e frustrações. A morte da mãe, a morte da sobrinha, as tentativas mal sucedidas de fertilização in vitro e o afastamento da própria língua formam a base do enredo. 

O livro trata de luto, infertilidade, migração, depressão, pertencimento, amizade e maternidade, mas faz isso por um caminho mais interior do que externo. O centro da narrativa não está em grandes acontecimentos, e sim na forma como Mariana percebe o mundo e a si mesma enquanto tenta seguir adiante.

A trama é construída a partir dessa experiência subjetiva. Mariana chega ao novo país já fragilizada, tenta manter sua pesquisa de doutorado sobre a presença de animais na literatura e convive com um corpo marcado pelos efeitos dos tratamentos hormonais e por um esgotamento que não se resume ao plano físico. 

O marido está presente, mas a adaptação desigual entre os dois reforça a sensação de isolamento. Nesse contexto, Quincas, o cachorro que a acompanha, deixa de ser apenas um animal de estimação e passa a funcionar como um dos poucos vínculos concretos de continuidade, afeto e reconhecimento.

Os personagens ao redor de Mariana não são trabalhados como peças de um enredo amplo, mas como presenças que ajudam a definir o estado da protagonista. O marido representa uma convivência que não basta para interromper a solidão. As mulheres imigrantes que entram em sua vida cumprem papel mais decisivo porque introduzem uma possibilidade de identificação e de apoio que até então parecia ausente. O livro usa essas relações menos para criar conflito dramático tradicional e mais para mostrar como a protagonista começa, ainda que de modo parcial, a sair de um estado de fechamento.

A escrita de Fabiane Secches se organiza em uma forma híbrida, próxima ao ensaio, em que a reflexão tem tanto peso quanto a narração. Mariana pensa por meio de leituras, associações e referências intelectuais, e isso define o estilo do romance. Não se trata de um livro guiado por cenas sucessivas, diálogos constantes ou reviravoltas. A estrutura avança por blocos de experiência, memória e pensamento. Essa escolha formal é coerente com a matéria narrada, porque a protagonista vive em estado de dispersão, dúvida e esgotamento, e o texto acompanha esse movimento sem tentar convertê-lo em uma narrativa de progressão linear.

Essa opção tem consequências diretas para o ritmo, para a lógica interna e para o modo como o romance produz tensão. O livro não organiza seu interesse em torno de um enredo convencional, com etapas muito marcadas de conflito, virada e resolução. O que sustenta a leitura é a repetição e o aprofundamento de certos núcleos: o luto, a infertilidade, o deslocamento linguístico, a experiência migratória, a dificuldade de habitar o próprio corpo e a tentativa de se religar ao mundo. A coerência do romance está justamente nessa insistência. Não há dispersão aleatória. Há um padrão de recorrências que constrói o retrato de uma consciência em crise.

A maternidade é um dos temas mais relevantes do livro porque não aparece apenas como desejo ou impossibilidade biológica. Ela surge ligada à perda da mãe, à relação com a língua materna e à própria pergunta sobre aptidão subjetiva para gerar e sustentar outra vida. 

Em minha leitura, essa é uma das questões mais fortes do romance. Mariana transmite de forma intensa uma sensação de solidão e deslocamento no mundo, como alguém sem um propósito claro e sem apoio suficiente para percorrer o próprio caminho ou encontrar um lugar minimamente estável. Ela parece menos uma personagem em busca de solução do que uma pessoa que precisa de ajuda para se compreender, para reconhecer o que há de desnivelado dentro de si, para entender o que ainda não se organiza em sua vida interior. 

A partir daí, a maternidade deixa de ser apenas um projeto interrompido e passa a carregar uma pergunta mais profunda: como uma pessoa com sentimentos e pensamentos tão desconexos e solitários poderia se tornar mãe e dar início à vida de outro ser vivo.

Esse ponto se conecta ao tema do deslocamento, que opera em mais de uma camada. Há o deslocamento objetivo, ligado à mudança de país, à condição de estrangeira, à barreira da língua e à perda dos referenciais cotidianos. Mas há também um deslocamento mais amplo, anterior à viagem, que envolve luto, depressão e uma relação instável com o próprio desejo. 

O romance sugere que Mariana já estava fora do lugar antes de emigrar. A mudança apenas torna mais visível uma fratura que já existia. Isso dá espessura ao livro, porque impede que a crise da personagem seja reduzida a uma narrativa simples de adaptação cultural.

A proximidade entre narração e consciência da protagonista também é um elemento importante do livro. Mesmo quando a narrativa preserva alguma distância formal, a sensação dominante é de imersão no campo mental de Mariana. Isso reforça o caráter introspectivo do romance e ajuda a explicar por que o livro produz mais densidade por observação e pensamento do que por ação. A linguagem acompanha um estado de instabilidade, sem transformar essa instabilidade em puro descontrole narrativo. Há direção formal, ainda que a experiência retratada seja de fragmentação.

O clímax do romance não funciona como uma explosão dramática. Ele aparece mais como inflexão gradual. O ponto decisivo não está em uma revelação final, mas na abertura que surge quando Mariana encontra, na convivência com outras mulheres imigrantes, alguma possibilidade de reconhecimento e de recomposição. 

A conclusão, pelo que o livro indica, não resolve integralmente os impasses nem apaga as perdas que estruturam a narrativa. O que ela oferece é uma saída limitada, porém concreta, para um estado anterior de quase completo fechamento. O romance não busca uma solução plena. Ele prefere encerrar sua trajetória em uma zona de reorganização parcial.

No conjunto, “Ilhas suspensas” é um romance de interioridade, luto e exílio emocional. Sua força está menos na amplitude da trama do que na consistência com que articula forma e conteúdo. A escrita ensaística, a baixa exterioridade do enredo, a centralidade da reflexão e a construção de uma protagonista atravessada por perda, infertilidade, deslocamento e dificuldade de pertencimento formam um todo coerente. 

Em minha leitura, o livro se sustenta principalmente por essa capacidade de transformar desorganização subjetiva em estrutura narrativa. Mariana não surge apenas como uma mulher em crise, mas como alguém que ainda não encontrou base suficiente para existir com estabilidade. É isso que torna o tema da maternidade particularmente tenso no romance. Antes de pensar em iniciar a vida de outro ser, ela ainda tenta descobrir como sustentar a própria.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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ENREDO
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ESCRITA
8/10
RITMO
6/10
ORIGINALIDADE
6/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
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AUTORA: Fabiane Secches • EDITORA: Cia das Letras • 2026 • PÁGINAS: 160

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