“Les Normaux” conquista pelo cuidado com os personagens. A série começa com “Garoto encontra vampiro”, em que Sébastien se muda para uma Paris mágica para estudar feitiçaria. Ele está tentando recomeçar a vida, mas ainda se sente deslocado. Então conhece Elia, um vampiro bonito e misterioso, em uma noite que parecia casual. O problema é que, no dia seguinte, ele descobre que Elia mora no mesmo prédio.
A partir daí, a história constrói um romance leve, queer e cheio de magia, mas sem pressa. Sébastien e Elia têm química desde o começo, só que a HQ não trata isso como algo resolvido. Os dois se aproximam aos poucos, erram, fogem, sentem medo e contam com um grupo de amigos que deixa tudo mais vivo. O primeiro volume tem muito esse charme de começo: o encontro estranho, a atração difícil de ignorar, a descoberta de um mundo novo e a sensação de que existe algo maior nascendo.
No segundo volume, “Juntos dá magia”, a relação amadurece. Sébastien e Elia já não estão apenas lidando com a surpresa do encontro. Eles precisam entender o que sentem de verdade e se estão prontos para transformar essa conexão em algo mais concreto. Sébastien continua inseguro, tentando compreender seus sentimentos e seu lugar naquele mundo. Elia também ganha mais camadas, principalmente quando precisa lidar com uma campanha importante e com as expectativas dos pais.
O que mais gosto nos dois volumes é que a magia nunca apaga a parte humana da história. Vampiros, feiticeiros, mortos-vivos e outras criaturas fazem parte da rotina, mas os conflitos são muito reconhecíveis. A HQ fala sobre solidão, desejo, amizade, medo de rejeição, pressão familiar e descoberta de identidade. Tudo isso aparece de um jeito leve, sem perder a emoção.
Também funciona muito bem como romance. Sébastien e Elia são fofos juntos porque a relação não nasce perfeita. Existe atração, mas também existe dúvida. Existe carinho, mas também existe insegurança. A demissexualidade de Sébastien acrescenta uma camada importante ao modo como ele entende desejo e afeto, e a história trata isso com delicadeza.
A arte combina com o tom da série. Os personagens são expressivos, os cenários têm uma atmosfera aconchegante e a Paris sobrenatural parece um lugar cheio de possibilidades. É uma HQ colorida, charmosa e com bastante personalidade visual. O humor também ajuda. Os amigos, os encontros desajeitados e os detalhes mais absurdos do universo mágico deixam a leitura divertida sem tirar o peso dos momentos mais íntimos.
Lendo os dois volumes juntos, fica claro que “Les Normaux” é menos sobre grandes reviravoltas e mais sobre autoconhecimento. É uma história sobre encontrar pessoas que fazem o mundo parecer menos assustador. O primeiro volume apresenta o encanto desse encontro. O segundo mostra que a faísca era só o começo.
Fiquei com a sensação de uma leitura muito acolhedora. “Les Normaux” é uma HQ doce, divertida e sensível, ideal para quem gosta de histórias queer com clima mágico e coração grande.
