Ressalga é o romance de estreia da escritora Bethânia Pires Amaro, que acompanha a vida de três mulheres atravessadas por diferentes tentativas de fuga de um destino penoso, mas sempre reconduzidas a estruturas sociais que se repetem ao longo das gerações.
No livro, seguimos Flora como narradora principal, que por meio de suas memórias conta a trajetória de vida de sua avó, Janaína, nascida no interior do sertão baiano, e depois de sua mãe, Graça, revisitando a cidade onde a mesma viveu a maior parte da vida.
Durante a primeira parte do livro, Bethânia Pires Amaro constrói Janaína sem concessões, a autora evita romantizar a pobreza e apresenta uma personagem moldada pela violência, pela escassez e pelos julgamentos de uma sociedade que parece já ter decidido quem ela seria antes mesmo de sua infância terminar. Para fugir do destino que haviam fincado para ela em um cenário de pobreza, miséria e violência, Janaína foge e passa a viver como lavandeira, perambulando até chegar às margens do rio Paraguaçu, maior rio do estado da Bahia. A partir daí, ela, que traz em seu nome o significado de “mãe das águas”, recomeça sua vida frente a um novo horizonte, porém ainda carregando o peso de ser uma mulher, negra, pobre empurrada para as margens da sociedade.
Um dos aspectos mais marcantes dessa primeira parte de Ressalga, para mim, está na relação entre Janaína e o rio Paraguaçu. Mais do que cenário, o rio assume uma dimensão simbólica que atravessa a narrativa. Ao chegar às suas margens, a personagem encontra a possibilidade de uma nova existência, mas também um espaço de confronto com as próprias marcas do passado. O misticismo presente na obra surge de maneira sutil, entrelaçado à força das águas e à própria construção da protagonista. Há algo de enigmático em Janaína, uma personagem que nunca se deixa revelar completamente ao leitor. Como alguém que cresceu em contato constante com rios, reconheci nessa representação hermética uma sensação difícil de traduzir em palavras. Bethânia consegue evocar o fascínio e o respeito que as águas despertam, transformando o Paraguaçu em uma presença viva dentro desta parte da narrativa.
Na segunda parte do livro, Bethânia nos apresenta Graça, filha de Janaína, que fugindo do mesmo destino da mãe, também ainda adolescente encontra em um casamento de fachada com um rapaz que parecia o menos ruim dos que lhe apareciam, uma fuga da casa dos pais que queriam “vender” sua virgindade com a promessa de que esse dote lhes salvaria a vida. Mesmo com o casamento não dando certo (por um motivo que, pra mim, sem dúvidas é a reviravolta mais divertida de todo o livro), destemida e gananciosa, ela enxerga no trabalho como empregada doméstica em uma mansão de uma família rica de Salvador (BA) nos anos 50, a oportunidade de melhoria através da labuta. No entanto, apesar dos esforços para escapar das limitações impostas por sua origem, as trajetórias de Janaína e Graça revelam como certos mecanismos de exploração continuam se impondo às mulheres, ainda que sob novas formas, em diferentes momentos da vida as personagens se veem confrontadas pelas estruturas sociais que insistem em empurrá-las para as margens.
Embora pertençam a gerações distintas e busquem caminhos próprios de autonomia, ambas acabam encontrando na prostituição uma possibilidade de sobrevivência e ascensão econômica. A autora, no entanto, não apresenta essa escolha apenas como resultado da vulnerabilidade social. Em diferentes momentos, as personagens parecem enxergar no próprio corpo uma ferramenta de negociação e poder dentro de um mundo que lhes oferece poucas alternativas, realidade que Bethânia descreve na obra como “empreendimento”.
Assim como Janaína, a autora também constrói em Graça uma figura marcada por certo caráter místico. No entanto, enquanto a avó parece associada à força simbólica do rio e à relação com a natureza e o deslocamento, a filha se apresenta de forma distinta, vinculada a uma forma de poder que se exerce por meio da própria beleza, sensualidade e da capacidade de mobilizar os homens ao seu redor.
Algo que também chamou minha atenção foi a forma como Bethânia constrói, ao longo do romance, personagens masculinos que parecem operar como mediadores da violência (nem sempre física) que atravessa a vida das protagonistas. Em diferentes momentos da narrativa, esses homens não apenas participam das trajetórias de Janaína e Graça, mas também se beneficiam diretamente das condições de vulnerabilidade em que elas se encontram. Dessa forma, o sofrimento das personagens femininas não surge como um acaso individual, mas como parte de uma engrenagem social mais ampla, que sugere o funcionamento de estruturas patriarcais que organizam, limitam e exploram esses corpos femininos ao longo da narrativa.
Ao acompanhar as trajetórias de Janaína e Graça, Bethânia Pires Amaro constrói um romance atravessado por deslocamentos, tentativas de ruptura e retornos forçados a estruturas sociais que se impõem com persistência. Mais do que histórias individuais, o que se desenha em Ressalga é a permanência de ciclos de vulnerabilidade que atravessam gerações de mulheres marcadas pela pobreza, pela violência e pela falta de oportunidades reais de autonomia. A autora, ao criar essas personagens, não oferece respostas fáceis nem caminhos de redenção simples, em determinados momentos da leitura até mesmo me peguei julgando as escolhas das protagonistas.
O que fica é a inquietação diante de estruturas que se repetem, mesmo quando suas personagens tentam, de diferentes maneiras, escapar delas. É nesse movimento entre tentativa e limite que o romance encontra sua força.
