A ARANHA – UM THRILLER COMPETENTE

23 de agosto de 2025
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3 min de leitura

Três anos depois de receber um cartão-postal anônimo anunciando “nove balas brancas” destinadas a policiais — uma delas reservada para Joona Linna — a ameaça volta à tona.

Um corpo quase decomposto aparece dentro de um saco, próximo a uma árvore em Kapellskär, e uma bala branca é encontrada ali. Antes de cada crime, a polícia recebe pelo correio um boneco de estanho e um enigma que, se decifrado a tempo, poderia evitar a próxima morte. Joona e Saga Bauer entram numa corrida contra o relógio para identificar o assassino que a imprensa apelida de “A Aranha”. Conforme as pistas apertam o cerco, a teia também se fecha em torno deles — e a dúvida passa a rondar a própria equipe.

A Aranha” é o nono livro da série Joona Linna, assinada pelo duo sueco que escreve como Lars Kepler. É um thriller de ritmo alto, cheio de reviravoltas e pistas plantadas com precisão. Ao mesmo tempo, é uma história que conversa muito com acontecimentos de volumes anteriores; dá para ler isolado, mas quem está em dia percebe melhor as peças que voltam ao tabuleiro.

O gancho inicial é interessante. A ideia das nove balas brancas cria uma contagem regressiva clara e cruel. Os bonecos de estanho e os quebra-cabeças enviados antes de cada ataque dão ao caso uma camada de jogo perverso: o assassino provoca, explica o suficiente para alimentar a esperança e, quase sempre, chega primeiro. É o tipo de premissa que gruda e faz virar páginas.

Joona Linna segue como o eixo da série, obstinado, metódico, acostumado a ler pessoas como se fossem mapas. Aqui, porém, o destaque emocional é Saga Bauer. Ela volta ao centro da trama, leva a investigação no corpo e, em vários momentos, vira parte do problema e da solução. A relação entre os dois — confiança, atrito, lealdade — é um dos motores do livro. Há momentos em que a própria polícia passa a suspeitar de Saga, e Joona precisa equilibrar instinto e evidência.

O vilão que dá título ao livro é construído com frieza: paciente, calculista, capaz de imitar métodos de outros assassinos e “aperfeiçoá-los” para o seu plano. A metáfora da teia funciona bem: cada pista parece levar a outra linha que, no fim, só existe para manter a presa em movimento. A Aranha gosta de plateia, gosta de regras próprias e, principalmente, gosta de ver a polícia tropeçar.

No estilo, o livro entrega aquilo que os fãs de Kepler esperam: capítulos curtos, cenas diretas, cortes rápidos e uma narrativa que alterna pontos de vista para manter a tensão. É noir escandinavo de escola: atmosfera sombria, violência explícita quando necessária, e um uso eficiente de detalhes visuais que tornam a leitura muito “cinematográfica”. Mesmo sendo obra de duas pessoas e chegando a nós por tradução, o texto flui sem trancos.

Há bastante ação e algumas cenas são realmente duras de encarar. O assassino não apenas mata; ele encena, humilha, transforma cada passo num recado para as autoridades. Isso aumenta a urgência e deixa claro o tema central: quando o alvo são policiais, a vulnerabilidade não é só pessoal — é institucional. A equipe sente o golpe, e o leitor também.

Quem acompanha a série vai reconhecer fios antigos sendo puxados, nomes que voltam como sombra e lembranças que pesam nas decisões do presente. A sensação é de arco amplo: não é apenas mais um caso, é um capítulo que reposiciona personagens para o que vem depois. O epílogo, curto e preciso, fecha a história e, ao mesmo tempo, deixa um gosto de “quero ver o próximo”.

Nem tudo é tão bom. Em alguns trechos, o volume de crimes e viradas pode dar sensação de “overdose” e diminuir um pouco o impacto individual de certas cenas. Também há escolhas de enredo que pedem que o leitor aceite coincidências e riscos operacionais maiores do que o razoável. Nada que quebre o livro, mas vale calibrar a expectativa para um thriller que prioriza impulso e tensão.

Ainda assim, o saldo é muito alto. “A Aranha” combina um caso engenhoso, um antagonista marcante e dois protagonistas em ótimos momentos — Joona no domínio da estratégia, Saga no olho do furacão. A investigação é um labirinto que se explica, as pistas fazem sentido quando voltamos os passos, e a leitura pede fôlego.

Para quem curte suspense policial de alto octanagem, com quebra-cabeças, pressa e personagens que sangram, é uma escolha certeira. Se você é novo na série, dá para começar aqui — mas ler pelo menos os dois anteriores só torna tudo mais tenso e recompensador. Se você já é fã, “A Aranha” entrega exatamente o que prometeu.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Lars Kepler
TRADUÇÃO: Renato Marques
EDITORA: Alfaguara
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 536
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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