DO INFERNO AO PLANALTO

13 de agosto de 2019
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3 min de leitura

O que aconteceria se fosse dada a Hitler uma segunda chance, permitindo-lhe reencarnar no Brasil da década de 70? E se ele se tornasse um político influente, concorrendo em 2018 ao cargo máximo do Executivo, Presidente da República?

A narrativa de DO INFERNO AO PLANALTO se assemelha a alguém contando para os netos algo que aconteceu muito tempo atrás, tem aquela sensação de história de ficção que pode ser verdade, deixa uma dúvida em que lê ou em quem ouve. É uma forma mais pessoal de descrever as situações, pouco descritiva, como uma conversa informal, e isso acaba por conseguir aproximar mais o leitor daquilo que está sendo narrado. E isso é um acerto, por causa do tom fantástico e, por vezes, absurdo do que acontece.

Hitler morre, chega ao inferno e consegue receber um julgamento, onde sua defesa utiliza de algumas passagens da Bíblia para favorecê-lo. Isso porque ele não quer passar a eternidade ao lado de demônios, ele deseja retornar, e o inferno vê nesse desejo uma chance de conquista, uma vez que é proibido ao Diabo sair de onde está. A tal abertura que sua defesa utiliza, é sobre a vinda de um falso profeta que seria o seu representante na Terra. E assim, Hitler reencarna, trinta e três anos depois de sua morte, no corpo de um recém nascido que recebe o nome de Marcus.

Acontece um pulo no tempo e estamos em 2015, quando Marcus é Deputado Federal do Rio de Janeiro. Ele tem um discurso de ódio, é a favor das armas, acha que todo bandido deve ser morto e que a população tem o direito de se proteger. Em uma sessão, ele discute com uma rival política e a ofende. Priscila, sua assessora e amante, o alerta que tal posição pode levá-lo a perder eleitores. Mas Marcus acha exatamente o contrário. E após algumas situações que envolvem ataques a traficantes, sequestros, chantagens, armações políticas, Marcus ganha popularidade e consegue ter apoio para se candidatar a Presidente da República.

Como proposta de campanha, ele consegue mascarar seus planos de que quem deseja segurança, que compre uma arma; quem deseja educação, que pague uma mensalidade em um colégio particular; quem deseja saúde, que pague por um plano de saúde, convencendo a maior parte dos eleitores, de que isso é o que eles desejam, que isso é a saída para o país e o mais certo a ser realizado. E assim, Marcus, com a assessoria de Priscila, e o apoio da esposa, Aline, consegue ser eleito. Mas por pouco tempo…

Obviamente, DO INFERNO AO PLANALTO é uma alegoria ao atual momento da política brasileira. Embora várias passagens lembrem muito do que se viveu no país nos últimos meses, elas são usadas de uma forma que as distanciam na mesma proporção. Há um excesso de violência sexual, bem como fetiches sadomasoquistas, que envolvem os personagens. Uma determinada passagem onde Priscila é sequestrada por um General e submetida a uma tortura sexual é particularmente difícil de ler.

Apesar de Marcus ser o personagem principal, a reencarnação de Hitler, não é ele que move a história e nem é ele quem elabora os planos para suas conquistas, mas, sim, Priscila. E essa abordagem é interessante, esse domínio que Priscila tem sobre ele, de forma discreta, e o domínio que ela exerce sobre todos os outros, inclusive com Aline. Ela não tem limite para seus planos, e a forma como ela se vinga do tal General que a sequestrou, tem descrições tão pesadas e explícitas quanto a tortura que sofreu.

Claro que existe uma explicação do motivo de Priscila ser como é e da influência que ela exerce sobre todos. Entretanto, achei a representação de Marcus bem distante de quem Hitler foi. Hoje em dia, há um exagero e uma insistência na comparação de pessoas que utilizam um discurso de ódio com Hitler. O genocida austríaco que guiou a Alemanha contra o mundo, não está representando em Marcus ou em qualquer pessoa da nossa realidade, felizmente. E embora Hitler não fosse um primor de inteligência, era um excelente estrategista, coisa que não acontece com Marcus. Nem sequer sua maldade é semelhante.

De qualquer forma, é uma alegoria sobre como a população é facilmente manipulada, principalmente aquela parcela que já detém dentro uma grande parcela de ódio, pronta para explodir contra quem não concorda com seus ideais, ou falta deles. Mesmo assim, considero que a mensagem que o livro tenta passar, não fica muito clara, porque se mistura com uma violência excessiva e com um exagero de situações que se misturam com partes religiosas de forma pouco harmoniosa.

DO INFERNO AO PLANALTO é uma leitura que incomoda pela violência, por ligações religiosas e políticas, mas principalmente por uma semelhança muito próxima daquilo que vivenciamos nos dias de hoje. Embora a narrativa seja exagerada e se perca em algumas partes, é curiosa exatamente pela mensagem de como se manipula a opinião pública e de como ideias perigosas são facilmente inseridas em mentes fracas.


AVALIAÇAO:


AUTOR: Andre L. BRAGA
EDITORA: Chiado
PUBLICAÇAO: 2018
PÁGINAS: 372


COMPRAR: Amazon


Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

19 Comments Deixe um comentário

  1. Realmente deve ser uma leitura forte e difícil porém serve como um alerta. Claro que as atitudes de Marcus tem um tom exagerado mas é impossível não comparar com as atitudes daquele que, supostamente, comanda o nosso país.

  2. E lá vai eu dizer que Hitler já encarnou naquele demônio que temos como chefe da nação. Mas…deixa pra lá.
    Quanto ao livro confesso que não conhecia,mas realmente é quase que um retrato da nossa política, exceto pela violência (será??) Ou do lance do exagero nas situações. Fiquei curiosa em relação a Priscila ser o foco de tudo. Até do mal????
    Com certeza vai para a lista dos desejados!!!!
    Beijo

  3. Olá Carl!
    Embora a trama seja totalmente válida para reflexão considerando o cenário político contemporâneo, é notório que o autor usa de muitos recursos apelativos para chocar o leitor, de modo que a proposta de “reencarnação” dificilmente soa convincente. E vejo todo esse retrato violento como um crítica ao desejo de alguns para o retorno da ditatura, sendo que neste aspecto Braga acertou.
    Beijos.

      • Olá Carl!
        O livro seria cômico se não fosse trágico, por se assemelhar tanto com a nossa realidade. Porém não curto tanto esse tom odioso da história, para até que q obra em si é um ato de violência contra quem o lê. Acho que o intuito de satirizar a figura política foi muito agressivo, apelando para a religiosidade, o que pode desagradar muitos leitores. Mas é interessante como a personagem Priscila manipula as pessoas ao seu redor, como deixa Marcus pensar que é o idealizador de tudo e como conquista a todos com a sua “inocência”, fotos que põem em cheque a face mais cruel da mente humana.
        Beijos

  4. Quando você começou a contar sobre do que se trata o livro, fiquei curiosa e interessada na história. Eu também percebi que essa alegoria lembra em partes o nosso alegoria tia momento político, que infelizmente não é nada bom.
    Não gostei dos pontos que você citou e destacou não ter gostado também, como: a cena do sequestro/tortura sexual, e algumas outras citadas.
    Mas gostei da mensagem que a história passa de que o ser humano é de fato manipulável e quando plantada a semente da discórdia, é difícil de tirar.
    Não é um livro que despertou meu interesse por completo, mas a resenha ficou muito boa.

    Bjos

    • O livro parece que o autor pegou tudo o que está acontecendo nos momentos atuais e colocou um misto de tragédia, violência excessiva, religiosidade e Hitler para impactar o leitor, confesso que fiquei curiosa, mas também fiquei com a impressão que é só eu continuar lendo os jornais e assistindo os noticiários que terei uma parte do livro ali. O que salva é poder mostrar as pessoas o quanto é fácil se deixar manipular por chefes de Estado.

  5. Olá! A história a principio parece ser até um pouco sem pé nem cabeça, mas que se parece e muito com nossa realidade que chega a assustar. A única coisa negativa, pelo menos, para mim, é esse tom mais violento que o autor escolheu, me deixou um tanto quanto receosa para fazer a leitura, mas sem dúvida, fica aquela curiosidade para saber o final e comparar com o nosso dia-a-dia.

  6. Olá 😉
    A história toda parece ser um grande déjà vu.
    Gostei desse envolvimento da história do Hitler no livro, mas pelos seus comentários isso parece ter ficado esquecido quando o autor começou a abordar o cenário atual de nosso país.
    Legal essa mensagem que o autor quis passar, mas é uma pena que isso se perca no exagero dessas cenas mencionadas.

  7. Quando comecei a ler a resenha achei interessante a questão da influência de Priscila e como ela consegue mas pelo apelo do autor (do sequestro que você mencionou e da tortura sexual) perdi o interesse em lê mas pareceu ser uma leitura boa.

  8. Sinceramente em alguns pontos da resenha tive que parar e rir. Muito cômico, nada a ver com a realidade atual. kkkkkk
    O autor foi bem criativo.

  9. Eita, que livro hein!
    Parece bastante com a situação horrível atual do Brasil.
    Vou querer ler , com certeza, acho bem necessário.
    Apesar de que agora, não acho que haja muito o que possamos fazer, só Jesus mesmo kkkk
    bjs

  10. Oi, Carl
    Nossa é uma leitura que assusta muito com tanta semelhança com a realidade em que vivemos.
    Não deve ser uma leitura fácil por conta dos detalhes de cunho sexual, a personagem Priscila é tão perversa assim e que domínio ela tem nas pessoas. Estou muito curiosa para saber porque ela exerce esse efeito nas pessoas.
    Beijos

  11. Oi, Carl!!
    Só lendo essa resenha dar para ver que Do Inferno ao Planalto é um livro que tem muito a ver com a nossa realidade e como um discurso de ódio e manipulação pode influenciar um país.
    Bjs

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