TODAS AS PEQUENAS COISAS — O AFETO DIANTE DO FIM DO MUNDO

11 de julho de 2026
6.1K views
3 min de leitura

Avaliação

ENREDO
4/10
PERSONAGENS
4/10
ESCRITA
5/10
RITMO
8/10
ORIGINALIDADE
5/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
4/10
Geral
5.0/10
AUTOR: Vinícius Fernandes • EDITORA: Astral Cultural • 2025 • PÁGINAS: 256

Em “Todas as pequenas coisas”, de Vinícius Fernandes, somos apresentados à história de amor de Lorenzo Mendes e Conrado Dias. A paixão aqui surge de uma forma mais incomum: Lorenzo se encanta com a voz de Conrado ao escutar, por acaso, uma das apresentações do cantor num metrô de São Paulo.

A narrativa se desenrola a partir disso: a voz ganha um lindo rosto, um corpo atraente, uma vida interessante e uma jornada cativante de alguém que se torna um pop star. 

Os capítulos do livro são marcados pelo fim de um relacionamento e também pelo anunciado fim do mundo. É interessante a escolha do autor de entregar já nas primeiras páginas como o relacionamento acaba, sem antes abordar como tudo começou. O leitor aqui é desafiado a uma dicotomia entre criar um desgosto e se apaixonar por um dos protagonistas. Enquanto um capítulo evoca a antipatia ao personagem, o seguinte te apresenta uma das razões para aquele amor surgir. 

Apesar de a trama do juízo final — com um inevitável e grandioso meteoro atingindo o planeta Terra — ser apresentada ao leitor desde o início e datar a divisão dos capítulos, ela só se torna verdadeiramente relevante a partir de um momento da história, nos momentos finais do enredo. O texto transparece a sensação de que essa parte do enredo catastrófico foi adicionada após um determinado caminhar da história do casal, mas que, a princípio, não fazia parte do projeto. 

A narrativa poderia explorar a dualidade de lembranças de um amor que chegou ao fim. A amargura e os sentimentos confusos que marcam o fim de um amor com a doçura das lembranças de momentos felizes. Seria interessante, mas não é a proposta do enredo aqui. O foco é a fugacidade da vida e a resiliência de um amor. 

A reflexão principal fica no que realmente importa diante do fim do mundo, ou no que de fato dá sentido à vida, apontando mais precisamente como os vínculos humanos e o amor são importantes. Tudo isso é claramente identificável, no entanto, não há profundidade a tais reflexões. Apesar dessa centralidade, há espaço também para o drama dos sentimentos intensos de um primeiro amor e do luto em lidar com um término de relacionamento. A escrita transmite essa jornada do ponto de vista de uma vivência pessoal.

Contudo, desde o início, senti uma dificuldade de me cativar com o personagem principal dessa história, o Lorenzo. A personalidade do protagonista é muito cercada por um complexo de autodepreciação, que  é propriamente reconhecido pelo personagem em sentimentos de ansiedade e insegurança. Isso fica mais exposto justamente ao retratar o relacionamento com Conrado. Pode ser muito difícil sair da esfera do coitado numa retratação do pós-término. Mas Lorenzo habita essa atmosfera tanto antes — habitando os pensamentos de inferioridade em relação a quem está se relacionando — quanto após o término — a partir das reflexões que justifiquem sua inferioridade. 

Por Lorenzo orbitar em torno de Conrado, viver à sombra dele torna-se difícil se cativar com o personagem. No enredo do livro, até mesmo um arco exclusivamente seu, que aborda a complexa relação com os pais, ocupa um espaço reduzido diante da totalidade da obra.

No balanço final, as resoluções do enredo caminham para desfechos previsíveis. Todos os conflitos se resolvem e encontram justificativas com extrema facilidade, indicando escolhas narrativas que evitam correr riscos. O epílogo é o maior exemplo dessa postura. A história, inclusive, alcançaria um impacto estético superior se terminasse antes dele.

Todas as pequenas coisas” parece beber abertamente de referências nacionais e internacionais da música e do cinema. Há citações de letras de músicas do duo Anavitória e do Silva, ou a menção a filmes como “Não olhe para cima” do cineasta Adam McKay. Certos aspectos da trama também ecoam a estética do cantor e compositor Jão.

Quase todas essas referências se relacionam de forma harmônica com o contexto da história. Outras, porém, soam deslocadas, como a referência a um meme no trecho “dois reais ou uma carona misteriosa?”. Mesmo que utilizada de forma muitíssimo pontual, ficou o questionamento de como uma piada datada da internet pode ser compreendida na posteridade (não que isso seja uma obrigação de qualquer obra literária).  

Apesar disso, a leitura do livro deve ser certeira para quem aprecia um romance LGBTQIAPN+ e para um público jovem adulto. A existência de uma história protagonizada por homens gays, inserida no cenário da literatura nacional contemporânea, continua sendo um passo extremamente positivo e necessário.

Uendel Souza

Sou Uendel Souza, baiano, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade, assessor de comunicação, produtor e ainda um tanto sonhador, dentre outras coisas. Amo ler desde que li, pela primeira vez, Atrás da Porta, de Ruth Rocha, lá no início do ensino fundamental na biblioteca da minha escola. Não ironicamente, aquele livro me abriu uma porta que nunca mais fechei.

Avaliação

ENREDO
4/10
PERSONAGENS
4/10
ESCRITA
5/10
RITMO
8/10
ORIGINALIDADE
5/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
4/10
Geral
5.0/10
AUTOR: Vinícius Fernandes • EDITORA: Astral Cultural • 2025 • PÁGINAS: 256

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