TRÊS DIAS EM JUNHO — SOMOS MAIS DO QUE NOSSOS ERROS

23 de abril de 2026
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3 min de leitura

Toda a trama de “Três dias em junho”, da romancista norte-americana Anne Tyler, se passa literalmente em três dias, que delimitam, inclusive, a divisão do livro em exatas três partes. Os três dias da história são movimentados pela celebração de um casamento. É o casamento da filha de Gail Baines, personagem que narra toda a história. 

Não obstante as tensões pré-matrimoniais vividas com sua única filha, Debbie, um cenário caótico vai se instalando na vida de Gail no dia que antecede a celebração. Ela está em uma situação profissional incerta, sem saber ao certo se pediu demissão ou se foi demitida, quando é surpreendida por Max, seu ex-marido, que chega em sua porta para uma hospedagem não programada com a companhia de uma gata a tiracolo.

Só isso já poderia render pano pra manga, mas toda a história começa a se movimentar quando, na véspera de seu casamento com Kenneth, Debbie conta aos pais que acabou de descobrir uma possível traição do seu futuro marido. Esse segredo, além de colocar em risco o acontecimento do casamento, traz à tona o passado de Gail e Max, mais precisamente como o status de relacionamento anterior dos dois chegou ao fim. Isso é orquestrado com recordações do passado em meio aos acontecimentos do presente nos três dias em que a história se passa.

Com a introdução desse aspecto da trama, os leitores brasileiros talvez sejam acometidos pela memória de um clássico brasileiro: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Não que eu acredite que Tyler escreveu essa parte da trama com tal objetivo, mas até o fim do livro me questionei à la “Capitu traiu ou não Bentinho?”, um “Kenneth traiu ou não a Debbie?”. Bom, no final das contas a resposta disso não importa muito, apenas catapulta os acontecimentos que desenham a complexidade da dinâmica dessa família. 

E essa família é marcada por um costume que eu diria ser muito comum: ignorar o grande elefante na sala. Gail, Max e Debbie parecem ter um certo acordo não declarado, mas consolidado, de evitar ou postergar discussões na esperança de que os problemas irão desaparecer. Essa energia talvez possa instigar ainda mais os leitores ávidos pelo ápice de intensidade da história. Mesmo que talvez esse ápice não seja entregue da forma que se espera, pois a escritora constrói as tensões da história sem recorrer a acontecimentos espetaculosos.

Os personagens do livro são bem originais, e mesmo que o livro tenha apenas 207 páginas, há um bom desenvolvimento de todos eles. O livro já me despertou o interesse a partir do momento em que percebi que ele é protagonizado por uma mulher de 61 anos. Afinal, reconheço que não tive a oportunidade de ler muitas histórias protagonizadas por mulheres nessa faixa etária. 

E me despertou ainda mais atenção quando Gail é retratada com uma vida que talvez não seja muito esperada para uma personagem nos seus 61 anos. Fugindo do estereótipo da mulher madura e resolvida, ela não está com a vida nada resolvida: uma relação complicada com sua filha, insegurança no trabalho, falta de habilidades interpessoais e assim por diante. A história brinca com as inevitáveis expectativas que criamos sobre nós mesmos e sobre os outros. Por isso, acredito que essa leitura possa ser um reforço positivo da nossa individualidade diante da universalidade presente nos compromissos estabelecidos socialmente pelas instituições que nos cercam.

Acredito também que Tyler brinca com a expectativa que temos de alguém infiel numa relação, de como essa pessoa é ou deve ser retratada. Nos momentos certos da história, após o exercício da nossa moralidade sobre os personagens, a romancista faz com que os grandes elefantes que estão na sala, seus erros, venham à tona e sejam encarados de frente. 

Afinal, nós não somos a soma de um único erro. E, com risco de dar grande spoiler do livro, diria que Gail é uma personagem que pode ser lida como controversa justamente por saber disso. Ela aprendeu a conviver com suas falhas sem deixar que elas se tornassem uma sentença de que não poderia ser amada da mesma forma, como era antes.

Sobretudo, “Três dias em junho”, pra mim, é um lembrete de que as pessoas vão errar, de que nós vamos errar. E talvez um lembrete de que, às vezes, esses erros possam ser, de certa forma, um acerto, em algum dia futuro. Diria que Anne Tyler conduz a jornada de Gail em direção ao conceito filosófico de amor fati, numa certa aceitação de tudo o que aconteceu na sua vida, as coisas boas e ruins, os seus acertos e os seus erros.  É a vida agridoce do jeito que ela é.

Uendel Souza

Sou Uendel Souza, baiano, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade, assessor de comunicação, produtor e ainda um tanto sonhador, dentre outras coisas. Amo ler desde que li, pela primeira vez, Atrás da Porta, de Ruth Rocha, lá no início do ensino fundamental na biblioteca da minha escola. Não ironicamente, aquele livro me abriu uma porta que nunca mais fechei.

Avaliação

ENREDO
9/10
PERSONAGENS
8/10
ESCRITA
8/10
RITMO
10/10
ORIGINALIDADE
9/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
10/10
Geral
9.0/10
AUTORA: Anne Tyler • TRADUÇÃO: Fernanda Lizardo • EDITORA: Astral Cultural • 2026 • PÁGINAS: 208

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