FORTALEZA DIGITAL — A NSA QUE LUTE, PAREI NA PÁGINA 150

3 de maio de 2026
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4 min de leitura

Avaliação

SEM AVALIAÇÃO
1/10
Geral
1.0/10
AUTORA: Dan Brown • TRADUÇÃO: Carlos Irineu da Costa • EDITORA: Arqueiro • 2026 • PÁGINAS: 336

Fortaleza Digital“, de Dan Brown, foi originalmente publicado em 1998 e é o primeiro romance do autor, antes de ele explodir mundialmente com a série de Robert Langdon. No Brasil, o livro ganhou uma nova edição pela Arqueiro, com capa repaginada e uma identidade visual que conversa com esse universo de suspense, códigos e grandes conspirações pelo qual Dan Brown ficou conhecido.

A própria editora apresenta a história como um thriller ambientado na NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, envolvendo tecnologia, inteligência americana, segredos e um código aparentemente indecifrável.

A sinopse me encantou bastante. Talvez por isso a decepção tenha sido maior.

A história acompanha Susan Fletcher, uma matemática e criptógrafa brilhante que trabalha na NSA. Quando o TRANSLTR, um supercomputador criado para decodificar mensagens virtuais, se depara com um código que não consegue quebrar, Susan é chamada para investigar o que pode se tornar um dos maiores desastres da inteligência americana. Presa em uma rede de segredos e mentiras, ela precisa encontrar a chave do código para salvar a própria vida, a vida do homem que ama e evitar uma crise dentro da agência. No centro da trama está Ensei Tankado, ex-funcionário da NSA e criador do Fortaleza Digital, um código que ameaça colocar em xeque o controle da agência sobre as comunicações.

Em teoria, tinha tudo para funcionar comigo: tecnologia, criptografia, segurança nacional, conspiração, uma protagonista extremamente inteligente e uma disputa moral envolvendo privacidade e poder. Na prática, eu li cerca de 150 páginas esperando o momento em que a história finalmente me puxaria para dentro, mas ele não veio.

E nem acho que todo abandono de leitura precise vir acompanhado de um grande manifesto. Às vezes, o livro só não acontece para a gente. Só que, nesse caso, eu consigo identificar alguns pontos que foram me afastando aos poucos.

Logo nas primeiras páginas, o livro já me tirou um pouco da leitura com um parágrafo que, para mim, pareceu completamente desnecessário: um guarda observando as pernas de Susan Fletcher e pensando que era “difícil imaginar que elas sustentam um QI de 170”.

Não foi exatamente um escândalo literário, mas foi o tipo de escolha que me fez suspirar e pensar: lá vamos nós.

Susan é apresentada como uma mulher extremamente inteligente, mas, logo de cara, a narrativa ainda encontra um jeito de filtrá-la pelo olhar masculino. E talvez isso tenha criado minha primeira distância com o livro. Não porque toda personagem feminina precise ser blindada de qualquer comentário sobre aparência, mas porque existe uma diferença entre construir uma mulher interessante e apresentá-la primeiro como objeto de observação. Para mim, esse começo já deixou um ruído.

Depois veio a questão da própria trama.

Quanto mais o livro tentava me convencer de quem eram os mocinhos e os vilões, menos eu comprava essa divisão. Porque, sinceramente, a ideia de uma agência dos Estados Unidos tendo acesso a uma máquina superpoderosa, capaz de quebrar qualquer código, sem uma regulação clara, não me pareceu exatamente algo a ser defendido com entusiasmo.

Quando descobri que Ensei Tankado, o suposto vilão que não é vilão, havia se afastado da criação do TRANSLTR justamente porque prometeram limites e depois mudaram as regras, minha simpatia foi embora para o lado errado da história.

Ou talvez para o lado certo, dependendo do ponto de vista.

Acho que esse foi um dos meus maiores problemas com a leitura: eu deveria sentir medo desse código, mas senti desconfiança da instituição que queria pará-lo. Quanto mais o livro falava sobre terrorismo digital e segurança, mais eu pensava em privacidade, vigilância e poder sem fiscalização. E, nesse ponto, a história começou a perder força para mim.

Também existe algo de datado na leitura. E talvez isso nem seja exatamente culpa do livro, mas do tempo. “Fortaleza Digital” é de 1998, e depende muito do impacto da informática, da criptografia e do medo tecnológico de sua época. Lido hoje, depois de tantas discussões sobre vazamento de dados, vigilância em massa, privacidade digital, big techs e poder institucional, algumas escolhas parecem menos geniais e mais ingênuas.

Conversando sobre a leitura, ouvi um comentário que fez bastante sentido: talvez esse seja um livro para ler sem pensar demais. Uma narrativa simples, de entretenimento rápido, feita para mergulhar na conspiração e comprar o jogo. Só que talvez esse também tenha sido o problema.

Eu pensei.

E, pensando, algumas engrenagens começaram a ranger.

Um monte de gente me viu com o livro e disse: “esse é ótimo”. Eu queria estar nessa mesma empolgação. Queria entender o encanto, acompanhar a tensão, entrar na lógica da história. Mas, até a página 150, o que eu sentia era mais distância do que curiosidade.

No fim, eu não abandonei “Fortaleza Digital” porque nada acontecia. Abandonei porque nada me segurava. A trama seguia, os códigos apareciam, a conspiração tentava crescer, mas eu continuava do lado de fora.

Talvez, para quem busca um thriller tecnológico rápido e não se incomoda com algumas ingenuidades da época, o livro ainda funcione. Para mim, pelo menos nessas 150 páginas, ele ficou preso entre uma premissa mais interessante do que sua execução, personagens que não me fisgaram e uma disputa moral em que eu não consegui torcer pelo lado que o livro parecia querer que eu torcesse.

E tudo bem.

Nem todo livro precisa ser terminado para dizer alguma coisa sobre a nossa experiência com ele. Às vezes, abandonar também é uma forma de leitura.

Isabella Santa Rosa

Sou a Isabella Santa Rosa, jornalista e leitora voraz. Leio para entender, para sentir, para respirar um pouco melhor. Entre um projeto e outro, estou sempre com um livro na mão, físico ou digital. Histórias são meu jeito favorito de viver no mundo.

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