RIVALIDADE ARDENTE — É TUDO O QUE DIZEM!

26 de abril de 2026
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7 min de leitura

A estrela do hóquei profissional Shane Hollander não é apenas absurdamente talentoso: ele também tem uma reputação impecável. O hóquei é sua vida. Agora que é o capitão do time Montreal Voyageurs, ele não deixará que nada coloque seu trabalho em risco ― muito menos o cara russo sexy cujo corpo atlético tira seu sono.

O capitão do Boston Bears, Ilya Rozanov, é tudo o que Shane não é. Autoproclamado rei do gelo, é tão arrogante quanto talentoso. Ninguém consegue vencê-lo ― exceto Shane. Os dois construíram suas carreiras em cima dessa rivalidade lendária, mas quando saem da pista de gelo, o calor entre eles é inegável.

Quando Ilya percebe que quer mais do que alguns encontros secretos, ele sabe que precisa se afastar ― o risco é grande demais. Mas conforme a atração entre eles se intensifica, os dois lutam para manter o relacionamento longe dos holofotes. Se a verdade vier à tona, a carreira de ambos será arruinada. Só que, quando o desejo que sentem um pelo outro passa a rivalizar com a ambição no rinque, manter o segredo deixa de ser uma opção.

Sempre com um timing extremamente questionável, venho dizer que, sim, finalizei a leitura de “Rivalidade Ardente“. Atrasada, como de costume, mas ainda em tempo de registrar que Rachel Reid escreveu um bom livro. E, talvez, uma pequena obra-prima contemporânea para quem gosta de romance, provocação, desejo reprimido e personagens emocionalmente desorganizados tentando fingir que está tudo sob controle. 

Mesmo visivelmente atrasada, também devo acrescentar que li o livro em paralelo com a série, experiência que, contra certa expectativa pessimista, não empobreceu a leitura. Pelo contrário. Que experiência sublime, minhas amigas! A adaptação/direção pareceu compreender o livro com uma precisão pouco comum. Connor Storrie e Hudson Williams não apenas dão rosto a Shane e Ilya; eles oferecem ao leitor uma segunda forma de perceber aquilo que a narrativa já sugeria, mas nem sempre consegue passar. E acrescento também, poucas vezes, em minha vida de leitora, me encontrei nessa situação confortável de ler um livro enquanto assistia a uma versão audiovisual tão cativante e tão leal ao espírito do texto.

A escolha do Connor e do Hudson funcionou como um estímulo associativo quase indecente de tão eficiente. Não substituiu a leitura, claro, mas ampliou a experiência. A série, nesse sentido, potencializa o livro. Não porque ele precise dela para existir, mas porque entregou aquilo que uma história como essa pede. E o Connor e o Hudson conseguiram captar EXATAMENTE as nuances e os pormenores das personalidades que a Rachel construiu em pouco mais de 350 páginas. E talvez esse seja um dos poucos elogios justos que se pode fazer a uma adaptação como essa.

Além de já estar tardiamente entrando no hype deste popular romance, devo confessar que levei mais de um mês para concluir a leitura. E isso não tem absolutamente nada a ver com falta de interesse ou com a qualidade do livro. Pelo contrário. Eu gostei tanto que fui lendo aos poucos. Tem sido difícil encontrar bons boys love, principalmente aqueles que me fazem querer continuar, não por obrigação de leitora insistente, mas por apego genuíno. Com Shane e Ilya (ou melhor, Hollander e Rozanov) eu quis ficar mais tempo. Não que o enredo tenha entregado exatamente novidade, mas foi uma boa utilização do conhecido.

E aí vey, o resumo da obra (vamos fingir que todo mundo já não sabe!) é que eles são dois jogadores de hóquei que passaram anos tentando convencer o mundo, e talvez principalmente a si próprios, de que eram apenas rivais.

Não é difícil entender o sucesso do livro. Há romance, desejo, implicância, medo, vulnerabilidade e uma quantidade considerável de homens bonitos, competitivos e emocionalmente desorganizados tentando agir como se nada estivesse acontecendo. Obviamente, a comunidade literária não teria mesmo como permanecer serena diante disso. Ninguém é de ferro, muito menos diante de dois atletas competitivos usando a rivalidade como disfarce para sentimentos que eles não têm maturidade emocional suficiente para nomear. O que prende é a contradição. O sujeito que nega o que sente. O gesto que contradiz a fala. O rival que observa demais o outro. 

As cenas sexuais também cumprem melhor função do que se costuma encontrar em romances semelhantes. E o que também é mais motivador do que uma história homoafetiva sendo explorada com cenas sexuais… adequadas? Não. “Adequadas” não é a palavra. Talvez suficientes? Também não. Suficientes parece burocrático demais. Gente, e as cenas são várias, intensas e narrativamente justificadas. 

A Rachel compreende que, entre Shane e Ilya, o desejo não é um intervalo da história, mas uma de suas formas de linguagem. Eles não sabem dizer tudo, então o corpo diz primeiro. E, convenhamos, se eu ficasse meses sem encontrar a paixão arrebatadora que me consome, CLARINHO QUE SIM que todo reencontro seria um disco na rede. Depois de tanto tempo de contenção, fingimento e distância cuidadosamente administrada, seria quase ofensivo esperar reencontros puritanos.

Foi de um fascínio muito específico, para mim, perceber como Shane é um dos personagens masculinos mais adoráveis dos últimos anos dentro dos romances do gênero. Ele é um bom garoto. Um garoto disciplinado. O atleta exemplar. O rosto limpo de uma carreira impecável. Shane é aquele tipo de personagem que parece ter sido treinado (pensado) para fazer tudo certo.

Ilya, por outro lado, entra em cena com toda a força do estereótipo de um homem russo debochado, provocador, insuportável e, infelizmente para todos os envolvidos, muito carismático. Ele tem aquele tipo de presença que irrita e atrai quase na mesma medida, o que, no caso dele, é praticamente uma estratégia de sobrevivência. O fato de ser bissexual aparece quase como uma ampliação natural dessa presença, como se o personagem tivesse sido escrito para não caber em uma única categoria de desejo. Ilya é um clichê, sem dúvida. Mas há clichês que fracassam por preguiça e clichês que funcionam porque são manejados com inteligência. Ele pertence ao segundo grupo.

O Ilya ser bissexual foi como um presente, embrulhado em papel colorido diretamente para mim, leitora. Viva o clichê clássico! 

É provável que exista alguma explicação para o apreço coletivo por personagens contraditórios. Talvez porque todos sejamos, em algum grau, criaturas que dizem uma coisa, sentem outra e depois fingem surpresa diante das consequências. 

O hóquei, nesse cenário, funciona melhor do que eu esperava. O livro não exige que a gente tenha interesse real pelo esporte (o que, no meu caso, foi uma gentileza), mas também não o transforma em enfeite sem função. Os jogos, festas, premiações e deslocamentos organizam a vida dos personagens e criam as circunstâncias para que os encontros aconteçam. A rivalidade nasce nesse ambiente, mas não fica limitada a ele.

E, cara, a rivalidade extremamente honesta deles dois é um recheio delicioso. 

Shane e Ilya se provocam porque é assim que conseguem se aproximar. Competem porque competir parece mais seguro do que admitir carinho. E a rivalidade dos dois não desaparece simplesmente porque existe desejo. Ela vira parte da linguagem do relacionamento. É o código que eles dominaram antes de aprenderem qualquer outra forma de intimidade.

Gostei de acompanhar a evolução dos pensamentos e sentimentos de ambos, embora tenha desejado, em alguns momentos, que os capítulos alternados entre Shane e Ilya fossem mais extensos. Não porque a estrutura falhe, mas porque os dois são interessantes demais para que a saída da perspectiva de um deles não pareça ligeiramente prematura. Ainda assim, a alternância funciona. Um mesmo acontecimento, quando atravessado por duas consciências diferentes, revela menos sobre o fato em si e mais sobre a incapacidade dos personagens de compreenderem o que sentem.

Acho que, pra mim, o que ficou é que o Shane e o Ilya são, cada um à sua maneira, dois adultos emocionalmente analfabetos tentando ler um sentimento escrito em uma língua que nenhum dos dois aprendeu direito. Eles sabem competir. Sabem vencer. Sabem provocar. Sabem fingir. Mas amar exige uma coragem mais estranha. E amar, para eles, não é apenas desejar. É admitir que existe uma parte de si que não cabe na imagem construída para o mundo. 

O livro poderia se sustentar apenas nisso, porque essa dinâmica já seria suficientemente atrativa. Mas a Rachel não deixa a relação presa à forminha do tímido e do extrovertido, do correto e do caótico, do bom garoto e do provocador irresistível. Esses rótulos existem, e certamente ajudam o setor de vendas, mas não esgotam os personagens. A relação deles dois cresce com paciência (e bota paciência nisso, UMA DÉCADA, gente!!) e gradualmente, com cuidado (muito cuidado), e ganha uma dimensão que impede que personagens tão bons sejam resumidos apenas a dois polos opostos. 

Acho que o mais divertido da história é que a gente fica ali, acompanhando os dois fingirem normalidade com a competência emocional de uma pessoa tentando apagar incêndio com um copo. E talvez seja por isso que a minha experiência com o livro tenha funcionado tão bem. Porque, por trás da provocação, do desejo e das cenas que justificam bastante o entusiasmo coletivo, existe uma história sobre orgulho, medo e vulnerabilidade. Sobre como dois homens podem esconder a verdade durante anos, desde que encontrem uma palavra suficientemente aceitável para encobri-la. Rivalidade foi esse nome. 

Amor teria sido honesto demais. E, se tivessem sido honestos desde o início, teriam poupado páginas, sofrimento e, principalmente, a nossa diversão.

Francielly Oliveira

Sou Francielly Oliveira, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade (UFT). Amo narrativas (de todos os formatos) e histórias aleatórias: da romantasia às distopias, das HQs aos clássicos.

Avaliação

ENREDO
10/10
PERSONAGENS
10/10
ESCRITA
9.5/10
RITMO
9/10
ORIGINALIDADE
8/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
10/10
Geral
9.4/10
AUTORA: Rachel Reid • TRADUÇÃO: Carlos César da Silva • EDITORA: Alt • 2026 • PÁGINAS: 400

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