O CONSENTIMENTO – AQUELE QUE SE COLOCA ACIMA DA LEI

13 de dezembro de 2025
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Há trinta anos, Vanessa Springora foi a musa adolescente de um dos escritores mais célebres da França, uma nota de rodapé na narrativa de um homem influente no mundo literário francês. No fim de 2019, quando mulheres do mundo todo começaram a se manifestar, a autora, agora na casa dos quarenta anos, decidiu resgatar a própria história.

Vanessa Springora conta de maneira lúcida e fulgurante essa história de amor e perversão, em que descreve um processo implacável de manipulação psíquica e a ambiguidade em que é colocada a vítima consentida.

Para além de sua história individual, a autora também faz uma denúncia contundente de um mundo literário que por muito tempo aceitou e ajudou a perpetuar a desigualdade de gêneros e a exploração e o abuso sexual de crianças.

“O consentimento” é antes de tudo um gesto de reposicionamento: uma mulher adulta que decide voltar à adolescência para recontar, com outras palavras, uma história que por décadas foi narrada pelo agressor e pelo meio literário como um romance extraordinário. Ao deslocar o foco da figura carismática de Gabriel Matzneff para a experiência subjetiva da menina de 13–14 anos envolvida com um homem de cerca de 50, o livro mexe na hierarquia de quem tem direito de nomear o que aconteceu: não mais o “gênio transgressor”, mas a jovem que viveu o trauma.

Um dos eixos centrais do livro é a exposição da assimetria radical entre as partes: idade, poder simbólico, capital cultural, rede de apoio. Springora mostra como, para uma adolescente fascinada pelo mundo dos livros, a atenção de um escritor consagrado opera como promessa de ascensão e pertencimento, ao mesmo tempo que cria uma dependência afetiva e simbólica. É justamente nessa assimetria que a ideia de “consentimento” começa a ruir: a escolha da menina não ocorre num vazio neutro, mas num campo saturado de poder.

O livro desmonta a leitura liberal do consentimento como mera expressão de vontade individual. Springora evidencia que seu “sim” à relação era atravessado por um conjunto de pressões: o medo de perder o afeto de Matzneff, o receio de decepcionar alguém admirado por todo um meio, a sensação de que dizer não seria uma forma de fracasso. O ensaio que emerge da narrativa é claro: há contextos em que o “sim” de uma adolescente não pode ser lido como autorização plena, mas como resultado de um processo em que um agressor constrói, aos poucos, uma relação de confiança e dependência com uma pessoa vulnerável para depois explorá‑la, sobretudo de forma sexual e manipulação emocional.

Outra dimensão essencial do livro é a radiografia da conivência coletiva. O que Springora narra não é um segredo escondido, mas uma história comentada, lida, elogiada em jantares, resenhas e premiações. Os adultos – editores, críticos, intelectuais – sabiam que Matzneff se relacionava com menores e escrevia sobre isso, e em vez de nomearem a situação como abuso, transformaram-na em anedota de bastidor ou prova de “audácia” artística. O “consentimento”, nesse plano, deixa de ser apenas o da vítima e passa a ser o de toda uma classe que aceitou e normalizou a violência.

O livro também é um estudo sobre linguagem. Matzneff recobre a relação com vocabulário de paixão, mito romântico, distinção estética; é a retórica do “amor excepcional” que mascara a brutal simplicidade do abuso. Springora, ao reescrever essa história, vai retirando essas camadas de verniz e mostrando como expressões, cartas e discursos foram usados para prender a menina em uma narrativa em que ela seria privilegiada, escolhida, cúmplice, quando na verdade era vulnerável.

Escrever, para Springora, não é apenas relatar; é reconfigurar a posição no tabuleiro. Durante anos, Matzneff deteve a palavra, publicou diários, construiu uma persona pública que incluía suas “aventuras” com menores. Ao publicar “O consentimento”, ela toma de volta o poder de narrar, corrige o enquadramento anterior e inscreve sua versão na esfera pública. Essa operação tem um aspecto de reparação íntima – reorganizar a própria memória – e um aspecto de revanche simbólica – abalar o pedestal de um escritor protegido por décadas.

O impacto do livro mostra como um relato individual pode tornar-se catalisador de mudanças políticas. A partir da narrativa de Springora, a França reabriu debates sobre idade de consentimento, prescrição de crimes sexuais contra menores e limites entre liberdade artística e apologia de violência. O ensaio que se pode ler em filigrana é que, sem a voz da vítima, o direito e a política tendem a organizar-se em torno da visão dos mesmos sujeitos historicamente autorizados a falar: homens brancos, cultos, consagrados.

Outro ponto interessante é o modo como o livro trabalha a memória à luz de novas categorias. A adolescente de então nomeou a relação como amor; a mulher adulta, olhando para trás, nomeia como abuso. Entre essas duas leituras, está o aprendizado de uma linguagem feminista e jurídica que permite redescrever experiências antigas com palavras novas – estupro, pedofilia, violência simbólica. “O consentimento” mostra que o conceito não é estático; é reavaliado conforme a sociedade aprende a enxergar o que antes estava naturalizado.

Ao expor a impunidade de Matzneff, Springora também ataca um mito antigo: o de que certos artistas, por sua suposta grandeza, poderiam viver “além da moral comum”. O livro sugere que essa indulgência não é neutra; ela custa caro às meninas e meninos usados como matéria-prima da transgressão alheia. O “gênio” que se imagina acima das leis depende, para se manter, de uma rede de silêncio, elogios e desculpas, e o ensaio de Springora é uma tentativa de romper esse pacto.

Por fim, “O consentimento” é um texto que oscila entre a intimidade – corpo, desejo, vergonha, culpa – e o estrutural – leis, instituições, mídia, mercado editorial. Essa oscilação impede que o livro seja lido apenas como confissão psicológica; ele é também uma acusação contra dispositivos sociais que permitiram que o caso não fosse uma exceção, mas um sintoma de algo maior. O mérito do livro está justamente em costurar essas escalas: ao contar uma história singular, ilumina o modo como sociedades inteiras podem errar ao chamar de “consentimento” aquilo que, para quem viveu, foi violência.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Vanessa Springora
TRADUÇÃO: Maria Alice Araripe de Sampaio Doria
EDITORA: Verus
PUBLICAÇÃO: 2021
PÁGINAS: 288
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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