DIÁRIOS DE UMA APOTECÁRIA — OS PERIGOS DE SER COMPETENTE NO AMBIENTE DE TRABALHO

24 de outubro de 2026
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Avaliação

ENREDO
10/10
PERSONAGENS
10/10
ESCRITA
10/10
RITMO
10/10
ORIGINALIDADE
10/10
ARTE
10/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
10/10
Geral
10.0/10
AUTORA: Hyuganatsu • ILUSTRADOR: Touko Shino • TRADUÇÃO: Jéssica Maki Kimura • EDITORA: Alt • 2026 • PÁGINAS: 288

É hoje; hoje eu escrevo. Com minha primeira xícara de café do dia (e isso é importante), me sinto absolutamente pronta. Não que eu já não tenha escrito essa resenha (na minha cabeça) algumas dezenas de vezes. Desde que recebi “Diários de uma Apotecária” (volume 1) em agosto e que, como usual e com muita vergonha, admito que posterguei esse momento por mais de um mês. Mesmo após ter finalizado a leitura. 

Pra vocês terem uma ideia, quando terminei o livro (ou light novel, como preferirem), a terceira temporada do anime NEM tinha começado na Crunchyroll. Sabendo que a temporada de outono é um grande marco na vida de muitos otakus (eu mesma), imaginei que seria interessante publicar a resenha no mesmo dia em que o Twitter estaria em polvorosa após a estreia do primeiro episódio. Afinal, que ideia maravilhosa seria publicar minhas considerações neste belo outono primaveril [voz da Bebel (Camila Pitanga) em Paraíso Tropical]! Finalmente, FINALMENTE, estaria com um bom timing.

Mas não assisti ao episódio no dia da estreia e tampouco comecei a escrever a resenha antes da primeira sexta-feira de outubro. É a vida. Bem, a minha, né. 

E, estando eu falhando com o Carlos frequentemente, não podia deixar minha procrastinação se prolongar por mais alguns dias. Principalmente porque, quando abri o pacote que chegou lá em casa essa semana, encontrei dois belos bottons que me lembraram do meu fracasso em cumprir a minha própria palavra. Cheia de autocomiseração (amo essa palavra) pelo atraso em enviar a resenha e também muito grata pelo mimo, me vi numa situação particularmente constrangedora, visto que não fazia sentido eu ter declarado meu amor por “Diários de uma Apotecária“ com tanta veemência no grupo do blog e estar demorando tanto em resenhar meu afeto.

declaração em prova

fonte: meu próprio zap

Uma situação vexatória. Declarar amor é fácil. Difícil é entregar uma resenha dentro do prazo. Inclusive, acho muito bonito como o Carlos continua acreditando na minha capacidade de cumprir combinados. Eu mesma já teria desistido de mim há algumas semanas. Mas seguimos. 

Aproveito, inclusive (amo abrir parênteses e dizer INCLUSIVE), para abrir um parêntese (veja) e fazer uma reclamação: MEIO-DIA lá é horário de lançar episódio de anime, senhora Crunchyroll??? Pensando que o mundo gira ao meu redor, é justamente o horário em que meu expediente começa. Ou seja, como vou assistir e agir como uma fã de carteirinha assim? Acredito que o maior problema da sociedade (psicose política) é que as pessoas se esquecem de que adultos também são gente e precisam encontrar maneiras de conciliar suas responsabilidades com seus gostos juvenis. Porque o maior segredo de ser adulto é descobrir que, ao mesmo tempo que tudo muda, inclusive você, algumas coisas permanecem exatamente como eram. E que, por mais que a vida adulta exige/exija uma postura minimamente funcional dentro da sociedade, aquela criança ou adolescente que você foi continua existindo em algum lugar aí dentro. Só que agora ela precisa bater ponto no mesmo horário em que o episódio do seu anime conforto é lançado. E eu não estou pedindo muito, né? Apenas que uma empresa internacional de entretenimento reorganize sua programação para atender às necessidades de uma brasileira que trabalha nesse horário.

Em oposição à minha reclamação à Crunchyroll, que não é o foco deste texto, faço um belo elogio à Editora Alt, responsável pela publicação brasileira da light novel, escrita por Natsu Hyuuga e ilustrada por Touko Shino. Lançada em julho deste ano, a edição possui 280 páginas, acompanhadas de mais oito páginas coloridas, capa com orelhas e as ilustrações originais japonesas. E que edição bonita, minha gente!

imagem que peguei no google pois fiquei com preguiça de tirar foto do meu exemplar

A tradução foi realizada diretamente do japonês, preservando também os nomes utilizados no anime. Para quem já conhece a adaptação, a novel é uma oportunidade de conferir a história com outros olhos, especialmente porque a narrativa permite acompanhar com mais profundidade os raciocínios, as observações e os pensamentos de nossa protagonista.

E, por falar em nossa querida, antes de chegar nela, preciso fazer uma pequena contextualização. Pequena mesmo. Estou me comprometendo publicamente com a brevidade, uma qualidade que, como vocês já perceberam, não possuo. 

Poucas coisas me interessam tanto quanto a literatura japonesa ambientada em cortes imperiais. Confesso, sem ressalvas ou receios para com vocês, leitores, que eu AMO histórias malucas e absurdas com um pingo de teor histórico, mas que não perdem seu poder ficcional. E “Diários de uma Apotecária“ possui justamente essa combinação.

Como eu, dentro da minha bolhucha, julgo que “Diários de uma Apotecária“ é MUITO famoso (viva as protagonistas femininas!), pensei em ir direto ao assunto e dispensar apresentações. Entretanto, levei uma catracada esses dias por supor, erroneamente, o que as outras pessoas sabem ou deixam de saber. Por isso, tentarei ser menos arrogante.

É uma iniciativa de humildade pessoal. Espero que valorizem.

JUSTIFICANDO MEU INTERESSE POR MEIO DA HISTÓRIA

Apesar de ser uma obra japonesa, “Diários de uma Apotecária“ se passa em um império fictício inspirado principalmente na China imperial, com características que remetem, entre outros períodos, à dinastia Ming (1368 a 1644). A ambientação não corresponde exatamente a esse período histórico, pois se trata de uma REALIDADE ALTERNATIVA que combina costumes, estruturas políticas, conhecimentos e elementos culturais de diferentes épocas. O que, para mim, é uma das grandes vantagens desse gênero de ficção: poder reunir séculos de referências históricas em um universo próprio, sem a obrigação de reproduzir fielmente uma sociedade que existiu.

E por que escolhi “começar” falando disso? Bem, quando falamos da China imperial, estamos falando de mais de dois mil anos de história em que o território chinês foi governado por diferentes dinastias, cada uma com suas particularidades, disputas e transformações. E que, tentando jogar um pouco de cancelamento no eurocentrismo, não podem ser resumidas em poucas frases como estou fazendo agora.

Uma contradição? Sim. Mas estou tentando.

E, embora seja muito fácil associar essa época aos palácios imponentes, à não monogamia dos imperadores, aos haréns E às roupas belíssimas, a realidade era um pouquinho mais complicada. E quando não é?! 

Afinal, estamos falando de sociedades profundamente hierarquizadas, nas quais a posição social, a origem familiar e até mesmo o gênero de uma pessoa determinavam boa parte das oportunidades que ela teria ao longo da vida. OLD, né, gente.

Com a queda da dinastia Yuan, em 1368, e a ascensão da dinastia Ming, os anos seguintes foram marcados pelo fortalecimento do poder imperial, pela valorização de tradições chinesas e por um desenvolvimento significativo da economia, das artes e da produção cultural. É desse período, inclusive, a construção da famosa Cidade Proibida, em Pequim, que se tornou um dos maiores símbolos do poder dos imperadores chineses. E é usada como inspiração para parte da ambientação.

veja! outra imagem que peguei no google

E aqui gostaria de fazer uma observação: eu adoro o conceito da Cidade Proibida. Não pelo que ela representa historicamente, evidentemente, mas pela audácia de construir um complexo palaciano gigantesco e estabelecer que a entrada de boa parte da população está proibida. E nem estou falando das restrições administrativas normais de um governo. Estou falando de todo um universo arquitetônico destinado a pessoas cuja principal ocupação, em alguns casos, era estar suficientemente próximas do imperador. Que vida difícil a dos nobres. Na verdade, era difícil mesmo. Mas vamos chegar lá. 

A corte imperial possuía suas próprias regras, funções e hierarquias, reunindo desde os membros da família do imperador e suas consortes até funcionários, criadas e eunucos (homens castrados que desempenhavam diferentes atividades na administração). Tudo era organizado de acordo com a posição que cada pessoa ocupava, e essa proximidade com o imperador podia representar tanto uma oportunidade de ascensão quanto um risco. Afinal, em um ambiente onde o prestígio e a influência estavam diretamente relacionados ao poder, não faltavam disputas, interesses e, claro, intrigas. Fora dos muros do palácio, a sociedade também era influenciada pelos princípios do confucionismo, que valorizavam a ordem social, o respeito às hierarquias e as obrigações familiares. 

E é interessante perceber como esse cenário, aparentemente tão distante da nossa realidade, permite discutir questões que continuam bastante reconhecíveis.

Aí, de novo, isso. Sim, gente. Isso mesmo.

Ambiente marcado por hierarquias sociais? Check. Disputas políticas? Check. Relações de dependência econômica? Check. Limitações impostas às mulheres? CHECK. 

Muda a panela, mas não muda a guarnição. Eu sei, péssimo exemplo.

O que quero dizer é que as mulheres, tanto naquela época quanto em diferentes contextos do Brasil, mesmo aquelas que ocupam posições privilegiadas, não estão necessariamente livres das expectativas e obrigações que lhes são atribuídas. E olha que nem comecei a falar sobre como as mulheres eram tratadas dentro dos sistemas de concubinato. Uma maravilha. 

A pessoa nasce, cresce, aprende a andar, desenvolve interesses próprios e, quando percebe, seu futuro está sendo negociado por homens que não conseguem sequer resolver os próprios problemas. 

E, por TIAN, que militância é essa que estou fazendo agora? 

Na verdade, quero apenas justificar meu apreço pela história. Porque, para mim, “Diários de uma Apotecária“ é uma história para garotas.

Calma, rapazes. Vocês também podem ler, gostar, se identificar e tudo mais. Não ousaria parecer que estou distribuindo carteirinhas de autorização para consumir literatura. 

Mas, assim como dizem as vozes da minha cabeça, “Diários de uma Apotecária“, assim como Sōsō no Frieren, possui um tipo muito particular de construção de personagens, diálogos e cenas que considero especialmente atraente para o público feminino. E não digo isso apenas pela presença de protagonistas mulheres, mas pela maneira como essas histórias tratam suas experiências, seus desejos e as relações que estabelecem com o mundo. 

E aqui chegamos à nossa querida Maomao.

É MUITO (IN)CONVENIENTE SER INTELIGENTE

Para a Maomao, é claro. 

De início, ela parece um bom estereótipo para identificação. Uma jovem cheia de sardas, que não se considera especialmente bonita, prefere passar despercebida e não demonstra grande interesse pelas atenções masculinas. Parece até uma descrição que encontraríamos em fanfics da Bella, de Crepúsculo.

A diferença é que Maomao possui um raciocínio lógico extraordinário, uma fascinação questionável por venenos e uma capacidade impressionante de não se importar com aquilo que as pessoas esperam dela (ou pelo menos é isso que temos como fato e constatação nesse primeiro volume).

A Bella também tinha suas particularidades, claro. Gostava de vampiros, por exemplo. Uma escolha que, pensando bem, não é muito diferente de se interessar por substâncias capazes de matar uma pessoa em poucos minutos. Cada uma com seu gosto.

Além disso, Maomao foi sequestrada, vendida como serva para o palácio imperial e, antes disso, cresceu nas proximidades de um distrito de cortesãs. Depois do sequestro, e inteligente como é, Maomao rapidamente compreende a realidade em que se encontra e a aceita com uma estabilidade emocional que chega a ser digna de uma pessoa com alto grau de dessensibilização. 

Isso mesmo. É um pouco apático. 

Mas é nesse início que percebemos que ela não é uma protagonista comum. Em vez de se desesperar, chorar ou tentar fugir imediatamente, nossa apotecária é prática e resolutiva. Tudo o que ela deseja (ou pensa que deseja) é cumprir o período estabelecido de “serviço”, sem chamar atenção, e ir embora do palácio. O que, convenhamos, é uma reação surpreendentemente tranquila para alguém que acabou de ser sequestrada. 

Bem, tudo poderia correr bem, tirando o fato de que ela é uma intrometida.

Sinto muito, gente. Maomao é, sim, uma entrona. Eu a amo, mas precisamos admitir. Ela se mete em TUDO. E ainda bem que se mete, pois somente assim temos, em uma única edição, uma sucessão de histórias misteriosas sendo desvendadas pela Sherlock Holmes dos venenos.

Eu sei… péssimo comentário e associação nada feminista. Só percebi depois de escrevê-lo. Mas não conheço outro personagem tão facilmente reconhecível no imaginário popular por suas habilidades investigativas e dedutivas, então vocês vão precisar me perdoar. 

De qualquer forma, considero importante esclarecer que pelo que me lembro Sherlock Holmes provavelmente não colocaria substâncias tóxicas na própria boca apenas para descobrir seus efeitos. Ou colocaria? Não sei. 

O fato é que, por ser extremamente curiosa, Maomao não consegue passar despercebida por muito tempo. Ao descobrir que os filhos do imperador estão adoecendo e que rumores sobre uma maldição começam a circular pelo palácio, ela decide investigar a situação por conta própria.

Afinal, nossa protagonista não acredita muito em superstições (é claro) e, diante de um problema aparentemente inexplicável, prefere procurar causas que possam ser identificadas, testadas e compreendidas.

POIS, ela não é apenas uma apotecária, meus amores. Maomao é filha adotiva de um médico e, por natureza, ela também é uma cientista. Mesmo que o termo não seja tão usado.

E não digo isso apenas porque ela gosta de fazer experiências. Maomao observa, compara, formula hipóteses, procura evidências e tenta compreender os mecanismos por trás dos acontecimentos. Existe uma preocupação com a demonstração das causas.

Em resumo, uma jovem comprometida com a investigação empírica. 

E que problemão, né?

É claro que, se você ocupa uma das posições mais baixas da hierarquia do palácio, faz muito sentido se envolver em acontecimentos que dizem respeito diretamente à família imperial. Ou talvez não faça sentido algum. 

Acho que a graça está justamente nessa contradição. Maomao compreende muito bem os riscos de chamar atenção, mas sua curiosidade costuma ser maior do que o próprio instinto de autopreservação. Ela deseja permanecer invisível, mas é incapaz de ignorar um mistério quando acredita que pode solucioná-lo se tiver as provas necessárias. E acredite, ela só abre a BOCONA quando tem as “provas” necessárias. Suposições, mesmo quando corretas, não costumam ser apresentadas antes de ela se inteirar suficientemente do assunto. 

O que considero uma qualidade admirável. Até porque, além de intrometida, Maomao também é apreciadora de fofocas. Ela não admite, é claro. Na cabeça dela, trata-se de estar a par das informações, por menores que sejam, porque nunca se sabe quando um comentário aparentemente insignificante estará diretamente relacionado a algum segredo da família imperial. 

É uma justificativa excelente. Se meter onde não é chamada também é uma forma de produzir conhecimento.

Inclusive, vou começar a utilizar. Não sou fofoqueira, estou reunindo elementos para uma possível investigação futura. Se a informação não servir para nada, paciência. Mas, se amanhã descobrirem uma conspiração, quero que fique registrado que eu já vinha acompanhando os acontecimentos.

O interessante é que, se pensarmos com um pouco mais de atenção, por mais divertido que seja acompanhar a coragem comedida de nossa protagonista, também percebemos o quanto aquele ambiente é perigoso e traiçoeiro. Afinal, como contextualizei no começo, estamos falando de uma sociedade na qual a posição social de uma pessoa pode determinar não apenas suas oportunidades, mas também o valor atribuído à sua vida. 

Uma criada pode ser castigada por um pequeno “erro” ou até mesmo por um erro que sequer cometeu. Uma cortesã pode ter sua liberdade condicionada a um contrato. Uma concubina pode conquistar prestígio e, ainda assim, permanecer vulnerável às disputas políticas e aos interesses da família imperial.

De repente, aquilo que poderia parecer apenas uma história boba e divertida sobre uma garota inteligente resolvendo mistérios ganha contornos muito mais perversos. E está aí, nessa percepção, uma das minhas principais justificativas para gostar tanto da light novel e do anime. Porque a história não ignora a crueldade do mundo em que Maomao vive. Pelo contrário, ela está presente nos detalhes, nas relações entre os personagens e, muitas vezes, nas coisas que nossa protagonista considera absolutamente normais. O que, por si só, já diz muita coisa sobre o ambiente em que ela cresceu.

Agora, se por um lado temos uma garota cuja inteligência frequentemente a coloca em situações perigosas, por outro temos um personagem ACLAMADÍSSIMO NO FANDOM e LINDO DE MORRER: Jinshi. Coloquei até em negrito pra exemplificar como ele é lindo, pois acreditem, se tem uma coisa que podemos falar sobre ele, é que ele é lindo.

Jinshi, ser lindo é complicado

EU simplesmente AMO quando situações assim são invertidas. Por muitos anos, as características principais de homens e mulheres nas histórias poderiam ser divididas mais ou menos assim: ele é esperto e resolve os problemas, enquanto ela é bonita, pequena e frágil. Bem, a Maomao também é bonita (obviamente), por mais que ela tenha ali seu próprio reconhecimento (e uma percepção de si mesma atravessada pelas hierarquias sociais) de que não é TANTO quanto as mulheres que cresceram em famílias nobres. Ela também é inteligente e seu par, nosso par, o Jinshi, ele é bonito pra caramba.

Que maravilha! E confesso certo regozijo em escrever que a característica principal de um personagem masculino está relacionada à sua beleza. Claro que ele também possui inteligência, responsabilidades administrativas, habilidades políticas e uma posição extremamente importante dentro do palácio.

Mas isso é secundário (como deve ser). O homem é lindo. 

Além de linduxo, o Jinshi é HILÁRIO. Engraçado mesmo. Mesmo sendo retratado como um homem de beleza quase sobrenatural, capaz de despertar a admiração de praticamente qualquer pessoa que cruza seu caminho, o modo como ele é apresentado pela perspectiva da Maomao faz com que não apenas reconheçamos sua aparência extraordinária, mas também as situações inconvenientes que ela provoca. 

Poxa, coitadinho do homem cuja beleza é tão magnífica que ele chega a ser assediado, recebendo doces com afrodisíacos escondidos. Coitadinho mesmo, tá? A situação não foi legal e dá pra perceber que existe uma camada de problemas por trás disso. Não foi minha intenção debochar de como a beleza lhe causa problemas. 

Só um pouco.

Não muito.

Uma vida muito difícil, realmente. 

O interessante é que Jinshi está tão acostumado com a própria aparência e com o efeito que ela provoca que parece não compreender muito bem como alguém pode simplesmente não demonstrar interesse por ele.

É Jinshi quem percebe a inteligência incomum de Maomao e a coloca na função de provadora de venenos de uma das consortes favoritas do imperador. E quem é o Jinshi pra ter esse poder todo?

Bem, aí você precisa ler pra saber, porque eu não vou fingir que não sei quem ele é só porque a resenha é sobre o primeiro volume.

Descobre aí, véi. 

UM HOMEM BONITO NÃO RESOLVE TODOS OS PROBLEMAS

INFELIZMENTE

Mas enfim, a partir desse encontro, os dois passam a desenvolver uma relação que considero uma das partes mais divertidas da história.

Afinal, Jinshi está acostumado a provocar fascínio. Maomao, por outro lado, parece muito mais interessada em conseguir ingredientes do que em admirar o rosto daquele homem (ou pelo menos é assim que ela age). E existe algo particularmente engraçado em acompanhar alguém tão habituado a ser desejado tentando compreender por que uma única pessoa parece tão pouco impressionada com sua existência.

Ah, o “ela é diferente” nunca foi tão bem trabalhado!! Que PRIMOR!

Inclusive, é muito importante observar que Jinshi não se limita a reconhecer a inteligência da Maomao. Ele também percebe que pode utilizar suas habilidades para solucionar problemas que, de outra maneira, seriam muito mais difíceis de investigar. E Maomao, por sua vez, percebe que Jinshi possui recursos, influência e acesso a informações que ela dificilmente conseguiria por conta própria.

Uma troca bastante conveniente. O romance, meus amores, começa com uma relação de prestação de serviços. Mas falando sério agora, o relacionamento entre eles também nos mostra diferenças importantes de posição social, personalidade e expectativas. 

Jinshi pertence a um universo de poder e responsabilidades que Maomao procura evitar. Quanto mais próxima dele se torna, mais distante parece ficar daquela vida tranquila e independente que desejava levar. O que é curioso, porque isso também acontece com suas habilidades investigativas. 

Quanto mais Maomao demonstra sua inteligência, mais importante ela se torna dentro do palácio. E quanto mais importante se torna, menos liberdade possui para simplesmente cuidar da própria vida.

Uma tragédia para uma mulher que afirmava veementemente para si mesma que só queria cuidar do pai e mexer com seus venenos em paz. É praticamente um causo sobre os perigos de ser competente no ambiente de trabalho.

Existe um outro aspecto da construção da Maomao que eu gostaria de discutir, especialmente porque tenho acompanhado algumas conversas interessantes sobre a personagem no Twitter.

E, como vocês devem imaginar, a internet está tendo dificuldades para aceitar que uma adolescente extremamente inteligente também possa ser uma adolescente extremamente complicada.

Uma descoberta revolucionária.

A MAOMAO NÃO É SANTA E EU GOSTARIA QUE TODOS RESPEITASSEM ISSO 

Muito se tem dito sobre Maomao ser ou não uma narradora confiável.

E acho essa discussão bastante [CENSURADO].

Sabemos que a Maomao é inteligente, racional, observadora e extremamente cuidadosa quando precisa analisar alguma situação. Entretanto, ela também é uma adolescente no início da história. E não importa quanta inteligência você possua para raciocinar ou deduzir acontecimentos a partir de pequenas evidências. Se você tem 17 anos, ainda será uma adolescente e terá momentos em que não saberá lidar com os sentimentos e pensamentos que lhe aparecem. Pois o que não é a adolescência senão um período particularmente intenso de descobertas, contradições e negação do próprio ser?

Eu mesma, aos 17 anos, tinha certezas absolutas sobre assuntos dos quais hoje sequer tenho coragem de participar de uma conversa. E olhem que continuo bastante disposta a dar opiniões sobre coisas que não compreendo inteiramente.

Veja bem, li muitos comentários sobre como não deveríamos confiar na Maomao, mas não acho que o caminho precise ser exatamente esse. Estou aqui discordando e concordando ao mesmo tempo. 

Explico.

Primeiro porque, embora a narrativa não seja simplesmente um relato total em primeira pessoa, acompanhamos grande parte dos acontecimentos por meio da perspectiva da Maomao. Temos acesso ao que ela observa, às hipóteses que formula e à maneira como interpreta as situações.

Mas isso não significa que suas interpretações estejam sempre corretas, especialmente quando dizem respeito a ela mesma. E isso é particularmente interessante porque a Maomao possui uma capacidade extraordinária de perceber detalhes que escapam às outras pessoas. Ela consegue identificar alterações no comportamento alheio, observar sinais físicos aparentemente insignificantes e relacionar acontecimentos que, à primeira vista, não possuem qualquer conexão.

Mas, quando o assunto é sua própria vida emocional, parece que todas essas habilidades precisam ser temporariamente suspensas.

E, segundo, porque acho que, mesmo quando Maomao omite alguma coisa, racionaliza seus sentimentos ou mente para si mesma e, consequentemente, nos leva a interpretar os acontecimentos a partir dessa negação, ela também é muito transparente.

Mesmo quando diz que não se importa ou que não liga o suficiente com determinada situação, como quando ela começa a pensar sobre quem realmente é o Jinshi e depois desiste, é possível perceber nas entrelinhas que talvez aquilo não seja exatamente verdade. Ela já CONCLUIU algo, mas pensou que não ia concluir nada. É como se a Maomao tivesse uma investigação inteira montada na cabeça, com hipóteses, evidências e uma conclusão perfeitamente razoável, mas decidisse encerrar o procedimento antes de escrever o relatório.

Não por falta de provas. Por falta de interesse, evidentemente. E tudo bem. E me parece meio bobo repetir isso, mas nem sempre compreendemos nossos sentimentos no momento em que eles acontecem. Às vezes, precisamos de tempo para reconhecer o que já estava ali. E Maomao, com toda a sua inteligência, não ficou e nem ficará isenta disso.

Minha reflexão sobre essas discussões é que talvez não se trate simplesmente de decidir se Maomao é confiável ou não. Trata-se de compreender que, mesmo quando sua interpretação é limitada, a própria narrativa nos oferece elementos para perceber essas limitações.

Acho particularmente interessante como a novel convida as leitoras a fazerem suas próprias investigações. Não apenas sobre os mistérios que movimentam a história, mas também sobre os personagens. Você conhece Maomao o suficiente para perceber quando ela está evitando determinado assunto? Consegue identificar a diferença entre aquilo que ela afirma e o que suas atitudes sugerem? É possível perceber que determinada reação, aparentemente insignificante, revela algo que a própria personagem não consegue admitir?

Em certos momentos, sinto que a autora Natsu Hyuuga nos oferece justamente essa possibilidade. Não precisamos aceitar todas as conclusões da Maomao como verdades absolutas. Podemos observar, comparar, desconfiar e chegar às nossas próprias interpretações. Assim como ela faz quando investiga algum mistério.

E esse é outro motivo pelo qual eu adoro “Diários de uma Apotecária“: você também precisa se tornar uma investigadora razoavelmente habilidosa se quiser acompanhar nossa protagonista. A diferença é que, quando investigamos Maomao, não podemos contar com a colaboração da principal testemunha. Ela não quer falar sobre o assunto.

Agora, NÃO, e outra coisa. Mudando de pau pra cacete [levemente elevando a voz em tom de indignação]. Como esperam que a Maomao seja o epítome do bom senso se ela foi criada praticamente dentro de um bordel, minha gente? É simplesmente de cair o cu da bunda.

As mulheres que participaram da sua criação eram cortesãs que precisaram aprender a sobreviver em um ambiente no qual beleza, inteligência, sexualidade e dinheiro (e dívidas) estavam constantemente relacionados. Maomao cresceu observando essas relações e compreendeu, desde muito cedo, que nem sempre as pessoas possuem liberdade para escolher o próprio destino. Sua própria mãe é uma representação disso. 

E isso não significa que ela despreze mulheres em outras posições. Pelo contrário, considero especialmente interessante como Maomao reconhece suas habilidades, compreende suas circunstâncias e, em diferentes situações, demonstra respeito por outras mulheres.

Mas isso não muda o fato de que ela também aprendeu que sobreviver naquele mundo exige manha, desconfiança e uma boa dose de malandragem.

E, acreditem, poucos são tão malandros quanto Maomao. Talvez o [CENSURADO POR SPOILER], afinal, a fruta nunca cai muito longe do pé, né?

E acho particularmente engraçado como algumas pessoas parecem esperar que uma garota criada em meio a negociações financeiras, contratos de cortesãs, clientes inconvenientes e mulheres que precisaram desenvolver estratégias bastante elaboradas para sobreviver se comporte como uma jovem educada exclusivamente para demonstrar delicadeza MORAL.

A Maomao que eu conheço, afinal somos deveras amigas, é capaz de esconder informações, fazer cálculos sobre o comportamento alheio, reconhecer oportunidades e tomar decisões que nem sempre correspondem àquilo que esperamos de uma protagonista moralmente exemplar. 

E por que bulhufas deveriam corresponder?

O que me faz refletir, nessas discussões sobre a moral de personagens femininas, é justamente essa necessidade de torná-las exemplos irrepreensíveis de comportamento. Parece que, para admirarmos uma protagonista, precisamos acreditar que ela é boa em absolutamente tudo, inclusive em suas escolhas morais.

Mas Maomao não é uma santa. Nem eu. Nem você que está lendo (ou que ainda vai ler). E, se você for, parabéns. Espero que esteja aproveitando essa experiência inédita na história da humanidade.

Maomao é curiosa, inconveniente, às vezes insensível e, em determinadas situações, bastante egoísta. Também consegue demonstrar compaixão, reconhecer injustiças e ajudar pessoas mesmo quando pode não receber absolutamente nada em troca. Uma coisa não anula a outra.

E gosto de pensar que essa complexidade é resultado não apenas das decisões da autora. Maomao não surgiu pronta, com um conjunto de qualidades idealizadas. Suas experiências moldaram a maneira como observa as pessoas, entende o próprio valor e estabelece relações (que foram decididas pela autora, claro, claro). E é justamente essa combinação de experiências, conhecimentos e personalidade que a faz se destacar no palácio.

Há uma diferença importante entre compreender as razões de uma personagem e justificar todas as suas atitudes. E acredito que “Diários de uma Apotecária“ consegue trabalhar essa diferença sem precisar transformar seus personagens em exemplos perfeitos de virtude ou vilania.

Eu já disse que gosto muito da Maomao? Pois é. Gosto especialmente não porque ela seja uma protagonista incapaz de errar, mas porque seus defeitos também fazem parte daquilo que a torna interessante.

Além disso, existe uma ironia maravilhosa em acompanhar uma personagem tão competente para identificar problemas nos outros e, simultaneamente, tão pouco disposta a reconhecer certas questões da própria vida. Eu ADORO cegueiras emocionais propositais (Shane e Ilya correm aqui). Fala sério, o divertido é justamente acompanhar o processo.

Maomao consegue desvendar um envenenamento a partir de detalhes que ninguém percebeu, mas parece precisar de um verdadeiro comitê investigativo para compreender determinados sentimentos ou perceber que nem todo homem no palácio é um eunuco. E eu a entendo. Infelizmente.

Ser sonsa é gostoso demais. Brincadeira, brincadeira.

Na verdade, o que é gostoso mesmo é acompanhar personagens femininas ganhando cada vez mais espaço na cena dos animes e das light novels. Não que histórias protagonizadas por mulheres sejam uma novidade, evidentemente. Mas é gratificante observar uma obra como “Diários de uma Apotecária“ conquistar tamanho reconhecimento, receber adaptações cuidadosas e alcançar públicos tão diferentes sem abandonar aquilo que a torna particular.

Enquanto escrevo esta resenha (já em minha quarta xícara de café), a terceira temporada está em exibição, um longa-metragem com história original de Natsu Hyuuga está previsto para dezembro (no Japão), e a franquia continua ganhando novas publicações e adaptações. Inclusive, foi anunciado um romance baseado na história do filme.

E eu, que já estava feliz com a chegada da light novel ao Brasil, continuo encontrando motivos para sorrir. Em setembro, a Alt também havia publicado que pretendia lançar o terceiro volume da coleção ainda neste ano. Ou seja, se tudo correr conforme o planejado, teremos mais um motivo para abrir espaço na minha estante.

Você, leitor, eu não sei, mas na minha, com certeza. Inclusive, acredito que a editora poderia considerar o lançamento de novas edições em intervalos suficientemente longos para que eu consiga reorganizar minhas finanças entre uma compra e outra. É uma sugestão. Não uma exigência. Diferentemente do que acontece com a Crunchyroll, não pretendo reorganizar o funcionamento de outra empresa internacional em benefício da minha rotina pessoal.

E, no meio de tantos anúncios, não consigo deixar de pensar que o sucesso de “Diários de uma Apotecária“ também demonstra o quanto existe espaço para histórias que confiam na inteligência do público e na complexidade de suas personagens.

E antes de encerrar, eu sei que me perdi um pouco. Mas, percebendo que já me estendi demais (caramba!), também reconheço que posso ter sido arrogante novamente ao falar de tanta coisa sem dizer muita coisa.

É que, supondo eu o alto interesse nesta obra por parte do público, não quero estragar o grande prazer que é acompanhar a história e descobrir as particularidades de cada um dos outros personagens que aparecem, somem e aparecem novamente no decorrer da narrativa.

Sei que eu poderia ter falado mais sobre a estrutura do palácio e das concubinas, sobre como a Maomao chega e se torna uma das servas da Gyokuyou, uma das favoritas do imperador. Poderia também ter comentado como é engraçado que achem que a Maomao era abusada por causa dos seus cortes no braço, quando, na verdade, ela só estava tentando investigar o quão resistente era a venenos. 

É isso aí, garota, go girl! Se a resposta não existe, a solução óbvia para a pergunta é testar em você mesma. Uma metodologia absolutamente questionável. Mas respeito a dedicação à pesquisa.

Também sei que poderia ter comentado sobre como, no anime, a animação é mais infantil e nem sempre transparece a idade real da Maomao. Poderia? Poderia. Mas me ative à única crítica à Crunchyroll e sei que estamos falando de uma produção conjunta envolvendo dois grandes estúdios de animação: a TOHO animation STUDIO e a OLM (conhecida por Pokémon). E, sinceramente, escrever sobre como essas empresas de animação são [CENSURADO], [CESURADO], precisaria de outras dez páginas para isso.

E eu não quero quebrar o clima que construímos aqui, cara. Não vamos estragar o clima. Fora que também sei que, quando a produção chega até os animadores, muitas das decisões visuais e estéticas dos personagens já foram trabalhadas anteriormente. Então, percebem?

Eu comecei esta resenha reclamando do horário em que a Crunchyroll disponibiliza os episódios e agora estou perigosamente próxima de escrever uma investigação sobre a divisão de responsabilidades na indústria japonesa de animação.

É um caminho sem volta. E eu não tenho condições emocionais OU temporais de seguir por ele neste momento. O Carlos já está esperando há tempo suficiente.

Por isso, encerro agradecendo à Editora Alt e à Globo Livros pelo envio do primeiro volume da light novel de “Diários de uma Apotecária“. Foi um prazer revisitar essa história pelo olhar da própria narrativa e descobrir que ainda havia muito a observar em uma personagem que eu já adorava.

Agora, por favor, me enviem o segundo. PROMETO não demorar mais de dois meses para trazer minhas considerações. Dessa vez é sério. Ou quase.

Francielly Oliveira

Sou Francielly Oliveira, jornalista, mestre em Comunicação e Sociedade (UFT). Amo narrativas (de todos os formatos) e histórias aleatórias: da romantasia às distopias, das HQs aos clássicos.

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AUTORA: Hyuganatsu • ILUSTRADOR: Touko Shino • TRADUÇÃO: Jéssica Maki Kimura • EDITORA: Alt • 2026 • PÁGINAS: 288

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