A ONDA

27 de julho de 2020
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Em 1971, na universidade de Stanford, umas das mais conceituadas dos EUA e do mundo, aconteceu um experimento social que é muito famoso e controverso até os dias de hoje. Um professor de psicologia recrutou alguns de seus alunos para imaginarem que estavam em uma prisão. Divide a turma ao meio: metade seriam os detentos; a outra metade seria os guardas. O objetivo do professor era provar que qualquer pessoa “boa”, se devidamente motivada pelo local onde vive, poderia se tornar sádica e cometer atos violentos. E isso realmente aconteceu com os alunos guardas, que começaram a abusar de forma violenta e sádica de seus colegas “detentos”.

O experimento de Stanford se baseou em outro conhecido como a Experiência de Milgram, devido a ter sido conduzido pelo psicólogo Yeale Stanley Milgram, e aconteceu em 1961, uma década antes. Milgran tinha o objetivo de provar que uma pessoa, por melhor que fosse, poderia cometer atos violentos e criminosos por uma questão de obediência. Sua ideia veio devido aos julgamentos de nazistas acusados de crimes no Tribunal de Nuremberg. Eles alegavam inocência porque estavam apenas cumprindo ordens.

No experimento, 40 voluntários divididos em dois grupos que seriam professores e alunos. Os alunos ficaram em uma sala fechada amarrados a uma cadeira com eletrodos, que variava de 15 volts (um choque leve) a 450 volts (um choque considerado grave), enquanto os professores, em outra sala, faziam testes de memória aos alunos. Quando o aluno errava, o professor aplicava um choque de 15 volts. Junto ao professor ficava um experimentador, que era um ator pago, que repetia frases de estímulo para garantir que o professor e o aluno continuassem. Mais de 60% dos participantes cumpriram as ordens e foram até o nível mais alto de 450 volts. Só depois de concluída a experiência, descobriram que na sala dos alunos não havia ninguém, apenas gravações de gritos.

Entre esses dois experimentos, em 1967, o professor de história Ron Jones, de uma escola secundária dos EUA, se deparou com a incredulidade da maioria de seus alunos sobre a população alemã alegar não saber sobre o extermínio dos judeus nos campos de concentração. Os alunos também não entendiam como uma parcela tão pequena de alemães, principalmente de jovens, que apoiavam Hitler, conseguia ter força sobre a esmagadora maioria da população, que poderia ter se rebelado facilmente e contido os nazistas. Então Jones resolve criar um experimento social que chamou de A Terceira Onda. É com base nesse experimento, que só ficou conhecido vários anos depois, que se baseia o livro A ONDA.

A história modificou alguns nomes e acrescentou alguns detalhes das vidas dos alunos para estabelecer uma prosa que foge do documentário. Nela, o professor se chama Ben Ross. Para demonstrar aos alunos que sociedades democráticas não estão imunes à atração do fascismo, Ross inventa um movimento que chama de A Onda, focado em um discurso de disciplina e comunidade, bastante semelhante às premissas que inspiraram os jovens nazistas.

Atraídos pela ideia de igualdade, os alunos começam a ver A Onda uma solução para problemas como bullying, desatenção e até mesmo o mau rendimento nas aulas. Mas alguns alunos se recusam a se juntar ao movimento, a pressão aumenta, e eles se tornam vítimas da intolerância dos colegas. Logo, muitos mudam de ideia e também se juntam à Onda, com medo de sofrerem represálias caso não o façam. E também começam a cometer atos de intimidação e violência para conseguirem os objetivos perpetuados pelo movimento.

Laurie, uma menina que é editora do jornal estudantil, reconhece a ameaça que o movimento se tornou e começa a lutar contra. Ela é ameaçada pelo colegas que fazem parte da Onda, mas não se deixa intimidar. Ao mesmo tempo, os atos chamam a atenção da diretoria, que até então fechava os olhos para ao experimento de Ross, e exige que ele termine com A Onda. O problema é se ele ainda tem forças para conseguir fazer isso. Por acreditar que não, Laurie busca apoio para ela mesma conseguir para o movimento.

O livro A ONDA segue quase fielmente os acontecimentos reais. O experimento durou cinco dias, uma semana, e foi suficiente para comprovar o que acontece quando um líder carismático, dono de um discurso inflamado, consegue mobilizar pessoas suscetíveis dispostas a fazer qualquer coisa pelo poder. Esse experimento explica muito do que aconteceu atualmente no Brasil, quando um grupo menor de pessoas segue de forma cega um líder notadamente insano. A narrativa não se limita a descrever os acontecimentos, mas dá profundidade a vários personagens, principalmente Rosse e Laurie, além de levantar outros questionamentos comuns nas escolas.

O eventos do experimento de Jones acabaram por se tornar mais conhecidos do que os dois outros do início deste texto, principalmente por sua simplicidade e do resultado assustador. A Terceira Onda foi estudada extensivamente em temor da organização juvenil em gangues e da pressão dos pares. Também existe um filme alemão, de 2008, um musical, de 2010, um documentário do mesmo ano, e, finalmente, uma séria mais atual produzida pela Netflix, NÓS SOMOS A ONDA. Entretanto, a série é apenas levemente baseada no livro A ONDA, e quase tudo é bastante diferente e levado a um patamar superior de dramaticidade e consequências. De qualquer forma é muito bem feita e vale a conferida.


AUTOR: Todd STRASSER
TRADUÇÃO: Paula Di CARVALHO
EDITORA: Galera
PUBLICAÇÃO: 2020
PÁGINAS: 160


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

21 Comments Deixe um comentário

  1. Eu admito que não conhecia o livro e nem fazia ideia da série. Aí fui dar uma pesquisada e realmente o filme parece ser apenas uma pontinha do iceberg que o livro, apesar de pequeno, é.
    Eu sou fã demais daquele ditado que diz que se você quer conhecer o valor de uma pessoa,dê poder a ela. Já vi tanta gente ser corrompida por pouco, “status em igreja”, status em lojas, mercados.
    Acho que o experimento prova muito isso.
    Juro que fiquei muito entusiasmada para ver e ler sobre isso!!!
    Beijo

  2. Você para pra pensar e chega a conclusão que realmente o ser humano é capaz de coisas que não saberíamos nem por onde começar a explicar. Esses dois experimentos no leva a refletir sobre isso e dá até uma aversão aos resultados, né?
    Já assisti o filme, acho incrível tudo que ele vem demonstrar pra gente, o quanto achamos que não se corromper é fácil, mas não bem assim que funciona. Não sabia que tinha uma série, vou procurar saber mais.
    Achei esse post excelente e fez a gente questionar muita coisa!
    Abraços

  3. Oii
    Eu á tinha ouvido falar do filme e do primeiro experimento, mas não fazia ideia que tinha um livro sobre. É assustador ver o que o ser humano é capaz quando se sente protegido por um grupo e o que ele faz por “seguir ordens”, por isso é importantíssimo livros e debates saudáveis, as pessoas precisam desenvolver mais o pensamento crítico e sair do automático.
    Beijos!!

  4. Carl!
    Já sabia dos casos por ter estudado os dois primeiro na faculdade e depois o outro que foi mais recente.
    Explica como as pessoas ficam ‘cegas’ e apenas atendem aos comandos do líder.
    Infelizmente nossa mente é suscetível a fatos do tipo.
    Gostaria de ler esse livro.
    cheirinhos
    Rudy

  5. Olha o naipe desse tipo de pesquisa, e depois ainda dizem que universidade não é importante.
    Eu vi o filme faz anos, mas ainda lembro das cenas, de como tudo foi articulando até o ápice da história. Quando soube que tinha livro precisei priorizar por motivos de importância ¯\_(ツ)_/¯.
    Um outro livro muito bom e que casa perfeitamente é o Psicologia das Massas, basicamente diz que esse comportamento coletivo é resultado da absorção da identidade individual e pela identificação entre os membros e o líder, então fica mais fácil responsabilizar o grupo (e não a si próprio) pelas decisões e discursos feitos (inclusive as reações agressivas).
    A gnt vê que no filme/livro alguns alunos não conseguiam dissociar o aprendizado de seus desejos pessoais, e aí gerou a cagada que deu.
    E o bom é que esse livro se lê rapidinho, já que é curto, mas se torna um verdadeiro exercício de reflexão a respeito da influência do outro no comportamento humano.

      • Tem alguns experimentos que valem a pena pesquisar, por exemplo além de as que vc falou tem:
        Experimento no Pequeno Albert, O Estudo Monstro, O caso de David Reimer (essa é de indignar a pessoa), Desamparo aprendido, O Poço do Desespero, Projeto Aversão, Experimento de expressões faciais de Landi etc.

  6. Que experimentos interessantes, apesar de meio doentios. As vezes sou um pouco lerda e custei entender o motivo de serem só gravações de gritos, mas menos mal ne? haha Não acredito que isso tudo foi real, meu Deus. Tudo muito intenso, mas o terceiro.. realmente doentio. O nome do filme não me é estranho, mas acho que eu me lembraria se tivesse assistido.
    Beijos

  7. Olá! Um livro para lá de interessante hein, já assisti ao filme, por isso, fiquei bem curiosa em relação ao livro, e esses relatos que sempre me deixam impressionada com a capacidade do ser humano, além claro, de comparar um pouco do que vem acontecendo aqui no nosso país.

  8. Li recenmente o livro e cheguei até a assistir a série inspirada “Nós somos a Onda” . Confesso que esperava algo maior sabe? Mesmo a premissa sendo interessante, através do poder da palavra e até referenciando grandes totalitarios.

  9. Oi, Carl
    Não vi a série porque quero ler o livro primeiro.
    Mas lendo sua resenha me lembrei do filme O Poço, que por pressão ou necessidade de sobrevivência a pessoa comete atos bárbaros.
    Essa pesquisa com alunos e professores com choques foi terrível, ainda bem que não tinha alunos. Mas como devem ter ficado esses professores depois dessa experiência.
    E se tratando do Brasil, aqui na minha cidade mês passado fizeram até uma carreata apoiando o B…….. e as pessoas que se manifestaram contra esse movimento foram variadas, criticadas. Enfim cada louco com sua loucura, fica difícil muitas pessoas não enxergam o que essas “pessoas” fazem com a nação e ainda apoia.
    Beijos

  10. Oi, Carl
    Gostei da sua resenha.
    Não tinha lido nenhuma resenha desse livro, só conhecia de nome.
    Eu assisti o filme alemão e gostei muito. É bem chocante o quanto líderes mesmo que a partir de um grupo pequeno, pode inflamar tanto as pessoas que vem a causar uma grande destruição.
    Eu não inocento os nazistas, porque não tem como fazer crueldade sem pensar. Mas imagino que no princípio Hitler se fingia de bom para engana-los. Diferente do Brasil, que o povo caiu e seguiu um louco que só prega discurso de ódio e ignorância.
    Assim que der comprarei!
    Bjs

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