Esse foi, para mim, um daqueles livros que não largam os meus pensamentos, mesmo depois da finalização da leitura. Já fazem alguns dias que terminei o livro, mas a sensação de que perdi algo ou de que tem algo a mais que ainda não pensei sobre me acompanha até agora.
“O cozer das pedras, o roer dos ossos” é a obra de estreia do piauiense Patrick Torres, que aqui já conseguiu imprimir uma marca pessoal, numa obra muito original e com uma escrita muito densa e poética, como já é de se perceber com o título.
A história se passa no interior da caatinga de algum lugar do Nordeste e conta a jornada de Mirto na vida, o lugar (aqui referenciando um trecho do livro) de mais difícil existência. Mirto cresceu testemunhando muito sofrimento. Como se já não bastasse a crueldade do mundo, ele presenciou o tormento vivido por sua mãe, Dona Hermina, diante da violência cometida por uma figura quase bestial, seu pai, Germão. Essa realidade é alterada em uma noite, a partir da morte do pai agressor. Ocasião em que mãe e filho são separados pela crueldade do destino, da culpa, do remorso e da vergonha. Um reencontro entre os dois cobiça, entre tantas coisas, a necessidade de liberdade.
O livro tem um potencial de ser um daqueles que constantemente são alvos de julgamentos morais, de leitores que são ávidos por expressarem o quanto as escolhas dos personagens são equivocadas e em como tomariam decisões diferentes e melhores das feitas pelos personagens. Pode ser um livro que nos lembra de que a vida não acontece de acordo com o que nós gostaríamos que acontecesse. Pelo menos não totalmente.
Os personagens principais que acompanhamos nas quatro partes do livro, narradas em terceira pessoa, são Mirto e Hermina. São personagens construídos com tanta profundidade nos seus sentimentos que fica difícil não criar empatia com eles. E isso vale não só para eles, como para os personagens que ocupam uma parcela menor da trama, como destacaria aqui: Zézão, Xeila e Genilda. Todas essas figuras possuem algo de interessante e humano em sua diversidade. Não vou tecer muito sobre, pois, como disse, eles preenchem um espaço menor na trama e quero aqui garantir o prazer de conhecê-los diretamente da fonte.
O livro contém pouco menos de 200 páginas, e considero um grande feito construir personagens assim tão profundos em poucas páginas. Os capítulos são curtos, o que permite uma leitura dinâmica. Mesmo assim, confesso que senti a divisão dos capítulos perder a fluidez em alguns momentos, nos quais se fracionam alguns acontecimentos. Como o da fatídica noite em que Mirto vai buscar o pai num bar, e o iminente confronto entre os dois é dividido em vários capítulos.
Além do alcoolismo, da violência doméstica, homofobia, prostituição, muitas outras temáticas, que permeiam a vida das pessoas naquele local, são abordadas, em maior ou menor grau. Essas abordagens muitas vezes tão suaves me fizeram me questionar o porquê de estarem ali? Para algumas, eu ainda não sei se consegui compreender. Como disse, é um livro que finalizei há alguns dias, mas que, com certa frequência, ainda me pego refletindo e elaborando algum novo tipo de pensamento ou questionamento. Como a sexualidade de Mirto ou a natureza da sua relação com Francisco. O que não sabemos ao certo, presumimos a partir do que se dá a entender na história. O autor parece não estar interessado em entregar as respostas dessas perguntas de forma direta. Compreendo que isso possa de alguma forma incomodar alguns leitores. A mim não incomodou ou atrapalhou a conexão com a leitura.
A forma como a relação com a religiosidade foi abordada dentro do contexto apresentado no livro é instigante. Somos apresentados a um conceito de deus mais calculista.
Cristã, acreditava que Deus dava a tudo um motivo, e as bofetadas que recebia certamente de algo lhe serviriam.
Mas também de uma versão possivelmente mais empática.
Acreditava, vez ou outra, que Deus a compreenderia, porque, se ele permitia a ela que passasse por tantas necessidades a ponto de oferecer ao mundo apenas seu corpo, era porque também a perdoaria quando ela a cristandade desonrasse.
De toda forma, o sagrado da relação com deus é um dos motores do livro.
Me esquivo muitas vezes de comentar sobre a capa e edições dos livros, pois elas nem sempre fazem jus à obra em sua totalidade. Mas, diante de uma capa tão linda como a do “O cozer das pedras, o roer dos ossos”, creditada a Robinho Santana, não poderia deixar de expressar como é uma bela edição. E, por falar em capa, na contracapa do livro, após uma breve sinopse, está disposta a seguinte afirmação sobre o romance: “… Patrick Torres, enquanto nordestino, resgata a literatura brasileira regionalista que tanto o inspira e encanta”. E aqui reafirmo essa sentença, pois o livro imprime muito bem essa estética e a escrita de Patrick não esconde o leitor apaixonado por obras dessa categoria.
Porém, preferindo ser uma metamorfose ambulante, agora já quero aqui dizer o oposto do que disse antes: o romance não é uma obra da literatura regional brasileira. Isso porque compactuo com o incômodo do uso dessa expressão no sentido de que ela parece hierarquizar as obras nacionais e, claro, colocar obras como essa, que fogem do eixo sul-sudeste, num lugar de inferioridade. A história de Mirto e dona Hermina se passa na caatinga nordestina, sim, mas há algo de ‘universal’ nessa história.
Já ouvi dizer que, muito em razão de onde se passa a história ou dos costumes narrados, surge essa denominação regional; afinal, quem conhece a realidade dessa região? Eu conheço um pouco, afinal sou nordestino, mas quantos outros livros postos na categoria “literatura nacional” se passam ou narram tradições de locais aos quais não conheço, mas que estão na região Sul e Sudeste? Muitos. E esse incômodo não é apenas meu; escritores renomados como Itamar Vieira Junior já vieram a público se manifestar sobre essa denominação.
Assim, penso que, em “O cozer das pedras, o roer dos ossos”, o autor conduz a narrativa na universalidade da experiência da liberdade, da culpa, do amor, da religião e da morte, a partir de uma perspectiva tão individual como a de Mirto e Hermina. Nesse jogo, entre o que é inerente ao ser humano e o que é particular, sem subestimar como tudo isso pode nos conectar, a leitura é válida justamente pela força da sua mensagem.
