Cyrus Shams é um jovem iraniano-americano, ex-alcoólatra e órfão, cuja vida parece ter sido atravessada pela morte antes mesmo que ele pudesse compreender o significado dela. Sua mãe morreu ainda quando ele era bebê, durante o ataque de um míssil dos Estados Unidos contra um avião iraniano, que matou todos os seus passageiros, e seu pai, Ali Shams, passou os anos seguintes afundado no alcoolismo até morrer quando Cyrus já era adulto.
Com uma grande pulsão pela morte (algo que entendemos depois de saber mais sobre a história de sua família), ele busca transformar o martírio das mortes que o cercam em inspiração para escrever um livro grandioso. Diante disso, Cyrus dá de cara com o anúncio da instalação de uma artista que está usando os últimos dias de sua vida, convivendo com um câncer de mama metastático, para conversar com visitantes do Museu do Brooklyn, em uma espécie de experiência imersiva. Incentivado pelo seu melhor amigo, Zee Novak, ele enxerga nessa situação inusitada a oportunidade perfeita para auxiliá-lo na escrita de sua obra.
Essa premissa faz parecer que você está prestes a ler um dos livros mais tristes já escritos, certo? Inclusive, confesso que essa foi uma das características que me atraíram, pois não tem nada que eu goste mais do que leituras que sei que me farão chorar em pelo menos uns dois capítulos. Mas, contrariando as primeiras impressões da sinopse, o autor Kaveh Akbar nos apresenta um romance repleto de humor ácido, questões identitárias, críticas à xenofobia, à política e aos crimes de guerra praticados pelos EUA, tudo isso por meio de personagens complexos, carismáticos, genuinamente humanos e cativantes, além de proporcionar uma imersão na cultura persa.
A obra possui capítulos narrados em terceira pessoa, que se alternam entre Cyrus, seu pai, Ali Shams, sua mãe, Roya Shams, seu tio, Arash Shirazi, e seu melhor amigo, Zee Novak, em momentos diferentes de suas vidas. Há também poemas escritos por Cyrus e capítulos que descrevem sonhos do protagonista, com diálogos entre seus familiares e figuras da cultura iraniana, como o ativista islâmico Jamal al-Din. Esses capítulos abordam diferentes temas, como paixões e pertencimento, enquanto a trama principal se desenvolve paralelamente, acompanhando a busca de Cyrus por inspiração para a escrita de seu livro durante a troca com a artista Orkideh, que está cada dia mais próxima da morte.
Gostaria de ressaltar aqui a sensibilidade de Akbar na construção das perspectivas dos personagens em seus capítulos, pois ele atribui suas personalidades à escrita. Por exemplo, nos capítulos em que temos acesso a momentos da vida do pai de Cyrus, lemos pensamentos singelos e curtos, sentimentos não desenvolvidos que condizem com a personalidade de um homem de hábitos simples, sem grandes preferências ou gostos específicos, que possui uma trajetória sofrida, com poucas ambições e que usou o álcool como ferramenta para lidar com a perda de sua esposa e a dura realidade de ser um imigrante iraniano vivendo nos EUA. Já nos capítulos que narram parte da vida da mãe de Cyrus, conhecemos uma personagem afável e ao mesmo tempo destemida, irônica, com opiniões fortes sobre maternidade e casamento.
Outro ponto importante do livro, pra mim, é que Kaveh Akbar escreve com sutileza sobre pessoas adictas, humanizando os personagens para além de seus vícios. Cyrus é apresentado, em seu passado alcoólico, como alguém perdido: não há para quem recorrer ou com quem se preocupar depois que seu pai morre, não existe um grande propósito ou alguém para dar orgulho. O personagem não enxerga em sua existência um significado e, mesmo após se curar do vício, ainda acha que viveu mais do que deveria e acredita que sua morte precisa ter por trás um legado simbólico.
Já o personagem de Ali Shams encontra no álcool um anestésico para o luto pela morte brutal de sua esposa e para a dificuldade de compreender seus próprios sentimentos. Porém, mesmo diante disso, Akbar não transforma seus personagens em seus vícios. Ali permanece um bom pai, que se esforça para que o filho viva uma realidade confortável e minimamente feliz. A experiência pessoal do autor com o alcoolismo parece atravessar, de maneira cuidadosa, a construção de personagens que convivem com a dependência.
No fim, “Mártir!” me parece menos interessado em encontrar respostas para a morte do que em questionar a nossa necessidade de atribuir significado a ela. Cyrus passa boa parte da narrativa tentando transformar as perdas que atravessaram sua vida em alguma coisa maior: uma história, uma obra, talvez até uma espécie de legado. Mas Kaveh Akbar sugere que nem toda dor precisa ser transformada em grandeza para ter importância. Talvez sobreviver, amar, criar e continuar existindo já sejam, por si só, formas significativas o suficiente de existência.
E é justamente nessa contradição entre a vontade de encontrar um sentido para a própria existência e a possibilidade de simplesmente aceitá-la que “Mártir!” me fez refletir: um livro tão obcecado pela morte que, no fim, me fez pensar justamente sobre a vontade de viver.
