“Assim na terra como embaixo da terra” é um romance de confinamento. A história se passa numa colônia penal isolada, já em fase de desativação, onde restam poucos presos, dois agentes e a expectativa de que um oficial de justiça enfim chegue para encerrar a atividade do lugar.
Desde a abertura, o livro informa seu método: quase tudo já está em ruína, os instrumentos de trabalho estão largados, a água míngua, a comida é escassa e a sensação dominante é a de espera sem horizonte. O espaço define o ritmo do enredo, condiciona o comportamento das personagens e estabelece um estado contínuo de desgaste físico e mental.
A trama se organiza em torno dessa espera e do que ela revela. Valdênio, velho e doente, Taborda, agente penitenciário exausto, Bronco Gil, Pablo e Jota vivem sob a autoridade de Melquíades, diretor da colônia e centro da violência do romance. Ele não é apresentado como um administrador comum que perdeu o controle da unidade, mas como alguém cuja identidade já se confunde com o próprio mecanismo de extermínio.
O passado da colônia aprofunda esse sentido de violência, porque o terreno já havia sido antes um espaço de extermínio de escravos. No presente da narrativa, porém, a colônia foi concebida como um modelo de prisão sem fugas, sustentado pelo uso de tornozeleiras que explodem caso os presos ultrapassem os muros. Com o tempo, o lugar foi esquecido, entrou em ruína e passou a funcionar num estado de abandono. É nesse processo que Melquíades, incapaz de aceitar o fim do espaço que até então continha, organizava e legitimava sua crueldade, começa a caçar os quarenta e dois homens, dois por vez, consumido por uma fúria que o romance associa à perda definitiva da razão.
Por isso, para mim, o livro não se reduz apenas a uma crítica ao encarceramento ou ao abandono institucional, embora esses elementos estejam claramente presentes. Eu entendo essa leitura, porque a colônia foi esquecida e o próprio arquivo oficial já não correspondia ao que realmente acontecia entre os muros. Ainda assim, a chegada de Heitor, o oficial de justiça, muda a ênfase do romance. Quando ele abre a pasta e pergunta onde estão os outros trinta e nove presos que ainda deveriam constar ali, o texto mostra que a justiça formal não sabia de fato o que se passava naquele lugar.
Em outro momento, a leitura crítica do romance observa justamente isso: até então, Heitor ignorava o que havia acontecido na colônia e atuava apenas dentro dos limites burocráticos da sua função. Eu, por isso, não vejo o livro como simples alegoria de uma justiça conscientemente cúmplice em cada detalhe do horror. O abandono existe, a omissão existe, a distância existe, mas o romance também insiste em mostrar como a barbárie se autonomiza dentro de um espaço fechado e passa a depender da vontade de quem exerce poder imediato sobre os outros.
Esse ponto fica ainda mais claro na construção de Melquíades. O romance o aproxima repetidamente do mundo animal, em especial da figura do javali, e não por acaso a narrativa trabalha o tempo todo com a instabilidade entre homem e bicho. Há cabeças de animais empalhadas, carcaças, cães, ratos, porcos, formigas, urubus. A voz narrativa compara os personagens a animais não para ornamentar o texto, mas para rebaixar as relações humanas ao nível da perseguição e da sobrevivência. Essa voz é definida como sóbria e melancólica, marcada pela comparação constante entre pessoas e animais. Acho essa formulação útil porque descreve bem o efeito do livro: não há sentimentalismo nem tentativa de salvar moralmente ninguém pela linguagem. O que há é um rebaixamento contínuo da condição humana.
É nesse sentido que a minha leitura se aproxima da ideia de que o romance fala de um sistema abstrato, mas fala ainda mais daquilo em que o ser humano pode se transformar quando embrutecido ou privado de esperança. O Estado aparece como condição, mas o núcleo do livro está no que acontece com homens deixados tempo demais dentro de uma lógica de violência.
Melquíades é o caso extremo porque concentra autoridade e hábito de matar. O próprio romance informa que ele acreditava agir em nome de uma justiça divina. Mostra que a crueldade não nasce de ausência total de ideia moral, mas de uma deformação dessa ideia dentro do exercício do poder. O personagem não é um desvio exterior ao sistema. Ele é alguém que passou a justificar o extermínio como dever.
Taborda é construído de forma distinta. Ele participa da engrenagem, sabe mais do que diz, não interrompe o curso dos fatos e se deixa paralisar pela hierarquia. Ainda assim, não ocupa o mesmo lugar de Melquíades. Vejo nele a figura da consciência esvaziada pela convivência prolongada com o horror. Ele aparece como um homem cansado, resignado e aprisionado, e isso combina com a função que exerce no enredo. Taborda não representa inocência, mas representa desgaste, medo e incapacidade de agir.
Já Valdênio introduz um contraste importante porque preserva algum resto de cuidado, como se vê logo no início, ao enterrar um cão e improvisar uma cruz. Bronco Gil, por sua vez, é a personagem mais complexa entre os presos porque concentra força, memória de violência e uma capacidade residual de decisão ética que só se torna plenamente visível no final.
Pablo e Jota ajudam a deixar explícita a lógica interna da colônia. Quando Melquíades remove a tornozeleira dos dois e lhes oferece uma falsa chance de fuga, o romance transforma a promessa de liberdade em método de execução. A cena é central para a lógica do livro porque desmonta qualquer aparência de disciplina legal. Já não existe pena. Existe caça.
O mesmo vale para a informação de que os presos considerados problemáticos eram mortos longe dos outros e enterrados em covas coletivas. O romance não apresenta desvios pontuais dentro de uma instituição ainda reconhecível. Ele mostra a passagem completa de uma colônia penal para um campo de extermínio.
O clímax decorre de forma coerente com tudo o que veio antes. Depois que Heitor percebe as contradições dos arquivos e começa a entender a situação, a narrativa se converte numa perseguição aberta. A caça deixa de ser ritual encoberto e vira confronto direto.
Num dos momentos mais claros do romance, a própria narração aproxima homens e javalis ao afirmar que ambos sabem ser rápidos e violentos o bastante para sobreviver quando perseguidos. Bronco Gil assume então a posição de caçador de Melquíades, e a resolução do conflito não tem nada de redentor. Ela apenas leva ao limite a lógica já instalada desde o início. Quando Bronco lança um corpo aos pés de Heitor, o livro conclui a inversão decisiva do enredo: o homem que organizava a caça termina reduzido a presa.
Mesmo assim, o final não me parece organizado apenas para punir Melquíades. O gesto mais importante de Bronco Gil é proteger Heitor. Esse detalhe impede que o romance se feche num circuito simples de brutalidade por brutalidade. Bronco não se torna um herói convencional, mas também não permanece apenas como corpo moldado pela violência. No fim, ele aceita uma oferta de trabalho que não configura libertação plena, mas algum tipo de continuação possível. Essa saída é limitada e até ambígua, porque o trabalho oferecido é em outra estrutura dura, ligada ao abate de gado. Ainda assim, ela basta para diferenciar o Bronco de Melquíades. Um ficou definitivamente absorvido pela lógica da morte; o outro, embora marcado por ela, ainda consegue sair.
A escrita de Ana Paula Maia é um dos elementos que sustentam esse efeito. Ela usa uma prosa curta, seca e de baixa ornamentação, com frases que priorizam ação, materialidade e observação física. A voz narrativa permanece contida mesmo quando descreve cenas de extrema violência. Essa contenção aumenta o impacto porque o texto não tenta produzir grandeza verbal para legitimar o horror. Ele registra e expõe. Também noto que a autora mantém traços que aparecem como recorrentes em sua obra: protagonismo masculino, convivência entre trabalho e morte, proximidade entre homens e animais, e atenção a figuras que vivem em zonas sociais degradadas.
O romance é muito consistente na ambientação e na economia narrativa. A lógica interna é firme: escassez, atraso, desinformação, medo, hierarquia e violência se encadeiam sem contradições relevantes. A progressão do enredo também é precisa. O livro começa em suspensão, passa pela revelação gradual do passado da colônia, adensa a desconfiança com a chegada de Heitor e desemboca numa caçada que funciona ao mesmo tempo como clímax narrativo e como síntese temática. Onde eu vejo uma limitação possível não é em falha de execução, mas em escolha de projeto. Quem espera maior aprofundamento psicológico individual talvez sinta distância entre si e algumas personagens, porque o romance trabalha mais pela pressão do ambiente e pela função de cada figura dentro do mecanismo da colônia do que por introspecção extensa. Para mim, isso não enfraquece o livro, mas define com clareza o tipo de experiência que ele oferece.
No conjunto, “Assim na terra como embaixo da terra” é um romance sobre poder e animalização, mas não apenas no sentido institucional. A prisão e o abandono são importantes, porém a chegada de Heitor impede que eu leia o livro como simples denúncia de um Estado que sabia de tudo e aprovava conscientemente cada ato. O que o romance mostra, com mais força, é o que acontece quando um espaço de exceção passa tempo demais entregue a homens sem freio, sem esperança e sem horizonte racional.
Ana Paula Maia trabalha mais uma vez com a ideia de que o ser humano pode se tornar cruel e indiferente quando dispõe de poder sobre o outro ou quando já não vê saída para si. Aqui, essa ideia aparece de forma especialmente nítida, porque tudo no romance empurra os personagens para a fronteira entre o humano e o predatório.

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