O MELHOR QUE PODÍAMOS FAZER

29 de maio de 2020
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O envolvimento militar americano direto na Guerra do Vietnã foi encerrado formalmente em 15 de agosto de 1973. Não demorou muito tempo e na primavera de 1975, os norte-vietnamitas iniciaram uma grande ofensiva para anexar o Sul de uma vez por todas. Em abril de 1975, Saigon foi conquistada pelos comunistas, marcando o fim da guerra, com o Norte e o Sul do Vietnã sendo formalmente unificados no ano seguinte. Foi nesse cenário que a família de Thi Bui, a autora de O MELHOR QUE PODÍAMOS FAZER, fugiu do Vietnã e se refugiou nos Estados Unidos.

Em 2005, Bui teve seu primeiro filho, e com a maternidade, nasceu um desejo de compreender seus pais, suas origens, os fatos que ajudaram a moldar o caráter e as decisões dos dois. Para isso, Bui precisou voltar ao passado, através dos relatos das memórias que eles tinham desde a infância. Esse projeto foi inicialmente iniciado como um livro, mas ele não representava verdadeiramente o sentimento que Bui queria transmitir. Assim, ela decidiu transformar tudo em uma HQ, onde poderia desenhar os locais e as emoções de cada pessoa de sua família, além das dela própria.

O traço de seus desenhos é simples, mas muito competente no que deseja transmitir. Embora faça tudo no preto sobre branco, ela adicionou apenas a cor vermelha espalhada pelos quadrinhos, muitas vezes sem um objetivo estético, mas como uma nuvem que sempre rodeia toda a sua vida. É difícil compreender o que Bui deseja passar. Normalmente o vermelho representa sangue, perigo, mas não sei se esse é o objetivo. Com base em toda a história passada no Vietnã, o vermelho pode significar uma dezenas de coisas diferentes, ou mesmo todas elas. Acho que seu significado será diferente para cada leitor.

O MELHOR QUE PODÍAMOS FAZER é uma HQ totalmente autobiográfica e bastante pessoal. Não existe espaço para qualquer traço de ficção, e a narrativa feita por Bui é totalmente de pesquisa sobre seus pais e tudo o que aconteceu até aquele momento em que ela virou mãe. A relação dela com os pais não é fácil, cheia de pequenas mágoas, muito por causa da insistência dos dois em manter uma cultura rígida e intransigente quanto a estrangeiros, e isso se torna muito complicado quando eles vivem em um país estrangeiro.

Bui e sua família ao chegarem nos EUA não tiveram apenas que superar os traumas de tudo o que enfrentaram, mas também se adaptarem a um povo completamente diferente, e mais, em uma época que também foi traumática socialmente e politicamente para os americanos, por causa de guerra e de todo o conflito que ela gerou dentro do país. Bui saiu de um inferno para cair em um local onde muitas pessoas os viam como inimigos, ou com suspeitas.

A leitura de O MELHOR QUE PODÍAMOS FAZER não é fácil. A vida que os pais de Bui enfrentaram antes de se tornarem adultos, e após, é algo difícil de compreender, de aceitar, que causa desconforto. São situações que que beiram o absurdo, desde abandono, sequestros, fugas, pobreza extrema, guerra, mortes, corpos pelas ruas, viagens no meio de batalhas armadas, entre muitas, muitas outras situações que são difíceis de absorver. É uma leitura que abala o psicológico, que exaure as forças.

O MELHOR QUE PODÍAMOS FAZER não é apenas uma busca de Bui por quem são realmente os pais, ou mesmo por quem ela é, mas uma forma de equilíbrio psicológico e emocional, uma forma que ela encontrou de conseguir ter uma visão de qual tipo de mãe ela seria para seu filho recém nascido. Nos EUA, Bui estudou Artes e Direito e pensou em se tornar uma advogada de direitos civis, mas, em vez disso, virou professora de escola pública na Califórnia. Esta é sua primeira HQ, e ela serve de aprendizado para se conhecer como é possível suplantar sacrifícios terríveis para conseguir salvar uma família.


AUTORA: Thi BUI
ILUSTRADOR: Thi BUI
TRADUÇÃO: Fernando SCHEIBE
EDITORA: Nemo
PUBLICAÇÃO: 2017
PÁGINAS: 330


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

8 Comments Deixe um comentário

  1. Olá! Uau, mais uma daquelas histórias que vem para nos fazer refletir, nos deixar em frangalhos, mas ao mesmo tempo mais fortes, tenho certeza que será uma leitura carregada na emoção, então meus lencinhos serão separados!

  2. Fiquei lendo e olhando os traços da Hq e meu coração ficou triste. Bui e sua família, a guerra do Vietnã, parece e deve ter sido tudo tão dolorido.
    O coração apertou ainda mais por saber que é autobiográfico, isso mostra tudo que se é possível fazer por quem amamos.
    Já preciso dessa preciosidade em mãos!
    Beijo

  3. Pelas imagens dá para perceber que os traços da GN são ao mesmo tempo fortes e delicados. 
    E a história dessa família é de partir o coração mas também marcante e repleta de esperança. E permite ao leitor inúmeras reflexões sobre família, cultura, lar, futuro e etc

  4. Carl!
    Admiro uma pessoa ter coragem de contar sua história sofrida, e, ainda se arriscar em uma HQ, talvez porque tenha mais alcance de leitura e ainda traga ilustrações, mesmo que simples, porém marcantes e que demonstram seus sentimentos e sua verdade.
    cheirinhos
    Rudy

  5. Eu adoro uma indicação de HQ e sempre acabo colocando na lista. Eu nem sei se essa tem versão ebook, mas ela parece ser do tipo q eu gostaria de ter na minha estante, mesmo q, pelo o q você contou, ela parece ser uma história bem pesada e dolorida, não muito meu estilo, mas eu fiquei muuuuito interessada.

  6. Olá, Carl

    Não leio muitos HQ’s, nunca tive o costume na verdade, acho que se eu ganhasse um, daria uma chance HAHAHAHHA (Fica a dica, universo)
    A história desse é muito boa! Só de imaginar o quanto deve ter sido difícil para a família dela, e depois eles já morando em outro país, mas os pais dela sem querer se abrir muitos para outras pessoas. Muito complicado.

    Beijos

  7. Oi, Carl
    Olhando a capa não pensava que se trata de uma HQ linda e triste ao mesmo tempo.
    A autora é sem dúvida um exemplo de mulher batalhadora que buscou seu passado sofrido, juntou com um presente nada favorável para imigrantes para se tornar uma pessoa melhor e uma mãe maravilhosa ao seu filho.
    Quero muito poder ler, beijos.

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