INTRUSOS

28 de março de 2019
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5 min de leitura

Depois que terminei de ler INTRUSOS, pesquisei um pouco sobre o autor, que não conhecia, e descobri uma pequena informação que me surpreendeu. Não sobre ele, mas sobre a mudança do título da HQ na publicação nacional. Originalmente, ela se chama KILLING AND DYING, que em uma tradução direta, seria algo como MATANDO E MORRENDO. Esse também é o título de uma das seis histórias curtas que compõem a HQ e faz muito, mas muito mais sentido sobre o que é mostrado na obra.

Embora os contos sejam levemente, disfarçadamente conectados, e cabe ao leitor descobrir as pistas de como, eles possuem algo mais óbvio em comum: falam de pessoas frustradas, de alguma forma infelizes com elas, ou com a forma como vivem, ou com aquilo que não conseguem realizar, ou com quem vivem, ou mesmo pelas limitações físicas e ou criativas a que ficam limitadas. Todas as histórias têm um início posterior e um final incompleto. Elas são momentos extraídos da vida desses personagens, situações que eles passaram, dramas que enfrentaram, ou ações que realizaram, e esses momentos servem para conversar com o leitor de forma bastante crua, sem floreios, às vezes até um pouco cruel, deixando claro que na vida não existe um atenuador para aquilo que sentimentos e que pode nos derrubar, ou levantar. E por isso eu acho que o título original da obra faz mais sentido do que o título nacional, porque todas as histórias mostram personagens matando ou morrendo, não fisicamente, mas emocionalmente.

BREVE HISTÓRIA DA ARTE CONHECIDA COMO HORTESCULTURA mostra o sonho de um jardineiro em criar algo único, uma escultura feita de plantas, argila e madeira. O homem acha que é um artista, que seu produto irá revolucionar o mercado, que será exposto em casas, empresas, lojas, que ficará rico e famoso. É o seu sonho, não importa o quão grande ele pode ser. Só que ele é casado e com o passar dos anos, tem uma filha, cria uma família que precisa de sustento. Além disso, suas obras começam a criar situações de embaraço para aqueles que ama, além dele próprio. Então, acompanhamos o nascer de um sonho e sua possível morte, porque chega em um momento da vida que precisamos ser práticos, precisamos pensar mais em quem amamos do que em nós, ou então ficamos sozinhos. É necessário matar algo para que outras coisas continuem vivas.

AMBER SWEET conta a vida de uma garota que é confundida com uma atriz pornô pela semelhança física. Seus colegas de faculdade começam a tratá-la de forma diferente, porque acham que ela é desse meio. E quando ela desmente, diz que não é ela, pensam que está mentindo. Aos poucos, isso torna a vida dela um inferno, até que ela decide mudar seu visual, se transformar em outra pessoa. Nessa história, são tratados assuntos sensíveis, como preconceito, machismo, injustiça, bullying, o quanto tudo isso afeta a personalidade de uma pessoa e a obriga a fugir para conseguir se manter sã. É preciso matar quem você era e criar alguém que as pessoas com quem convive consigam se relacionar.

VAMOS, OWLS é um dos contos mais fortes e desesperançosos da HQ. Em uma reunião dos Alcoólicos Anônimos, uma garota conhece um cara com o gosto em comum pelos esportes, eles começam um relacionamento e passam a morar juntos. Ela descobre, então, que ele é um traficante de drogas, o que não a incomoda, e nem quando ele também se mostra com um gênio explosivo e violento. Em toda a história, pouco ficamos sabendo sobre a garota, é ele quem utiliza quase todos os balões para falar dele, do que ele gosta e do que ele deseja fazer. Nos únicos momento em que a garota tenta contar algo sobre ela, ele a interrompe e diz que ela não cala a boca, que não deixa ele se expressar, ou apanha ou é ignorada. É um relacionamento abusivo, que deprecia totalmente a presença da garota, como se ela fosse uma boneca que serve apenas para deixar a vida do miserável menos solitária. Aos poucos, ele mata o pouco que ainda existe de vida nela.

TRADUÇÃO DO JAPONÊS é uma história bem curta, onde a carta de uma mãe é traduzida para o filho. Ela narra de como eles saíram do japão e foram viver nos EUA, devido ao relacionamento da mãe com um americano. É uma das histórias que tem uma relação mais clara com uma outra história anterior, e essa conexão torna causa um certo enjoo, porque transforma o pai da criança, que já era nojento, em alguém ainda pior. Ela, sozinha, funciona como um relato triste do fim de uma vida, mas em conjunto com a história com a qual se conexão, causa revolta pela que a mãe e escritora da carta deve ter vivido, e pelo que deve ter morrido.

A história seguinte seria TRIUNFO E TRAGÉDIA, que no original é KILLING AND DYING, o tal título da edição americana, mas vou falar da última primeiro, INTRUSOS, que dá título à edição brasileira. Nela, acompanhamos um homem que recebe a chave da casa onde passou a infância de uma amiga que não via há muito tempo. Ele, então, passa os dias em uma lanchonete em frente a essa casa, estudando a rotina do atual dono. Quando acha que já está familiarizado, quando o dono sai, ele entra e fica pelas horas restantes em meio a recordações de quando morou no lugar, até que um adolescente invade para roubar e eles têm um confronto. Novamente, vemos a frustração de uma pessoa que não se encaixa na vida que leva e prefere fingir algo que não existe, até que a realidade lhe dá um tapa na cara para que acorde e veja quem realmente é.

Voltando a TRIUNFO E TRAGÉDIA, ou MATANDO E MORRENDO, é a história mais pesada da edição. É a história de um casal e sua filha. A mãe está com câncer e a filha, que tem disfemia, gagueira, tem o sonho de ser uma comediante e ter seu próprio show de stand up. Acompanhamos a evolução da doença da mãe, a recusa inicial do pai em incentivar o sonho da filha, por achar que ela não tem o talento necessário, e a persistência da menina em fazer o que gosta. Mas, realmente, acompanhamos três vidas que chegam ao fim: a mãe, pela doença; o pai, por desistir de proteger a filha e deixar que ela sofra as consequências; e a filha, por descobrir que seu sonho pode ser impossível, uma vez que depende de um talento nato e não de um desejo. É uma história impactante, dolorosa, que não poupa o leitor, que mostra como somos tão dependentes de sonhos impossíveis a ponto de esquecermos que já podemos ter uma vida plena, feliz, e estragamos tudo, em um nível que não tem mais volta. É a síntese de todas os outros cinco contos, elevado a uma altura que vai deixar você pensativo por muito tempo.

INTRUSOS é uma HQ que trata das fraquezas humanas, da inabilidade de conseguirmos a felicidade porque somos egoístas demais com aquilo que desejamos, a ponto de esquecermos o que realmente é importante e quem realmente merece nossa atenção e amor. É uma HQ que fará você repensar seu estilo de vida, seu comportamento com seus familiares, seus amigos, que fará você chorar e abraçar seus pais, seus filhos, você mesmo.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Adrian TOMINE nasceu em 1974 em Sacramento, Califórnia. Começou no mundo dos quadrinhos publicando, por contra própria, sua série Optic Nerve. Seus quadrinhos foram transformados em antologias e sua graphic novell Shortcomings foi um dos livros notáveis do The New York Times em 2007. Desde 1999, Tomine é um dos autores que contribuem regularmente para o The New Yorker. Ele mora no Brooklyn com a esposa e a filha
TRADUÇÃO: Érico Assis
EDITORA: Nemo
PUBLICAÇÃO: 2019
PÁGINAS: 128


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

21 Comments Deixe um comentário

  1. Mais uma HQ maravilhosa que o Gettub recomenda.
    Tomine consegue por meio de curtas histórias sobre as nuances do ser humano: amor, violência, compaixão, medo, auto piedade.
    E com certeza o leitor irá sentir um vórtice de sentimentos durante a leitura de Intrusos e talvez reflita sobre a própria vida.

  2. E lá se vai mais um pra minha lista de torrar dinheiro kkkkkk ah, mano, não tem como!!! Kkkkk e que bonito como parece um desenho bem limpo, meio que me lembra os que eu lia antigamente na escola, uns quadrinhos franceses (não me lembro o nome).
    Uma pena a tradução do título não ter sido fiel e fazer menos sentido por conta disso. Odeio quando isso acontece.
    Tipo… Eu olho para o título de O Sol é para todos… E porque??? Kkkkk

  3. Um universo quase que desconhecido por mim, mas sendo desbravado a custa de muita curiosidade e com louvor, diria de passagem. rs
    Ainda não tinha visto esta Hq por aí, por isso, adorei muito tudo que vi e li acima. Até por amar contos e ver que esta é assim, repleta de realidade e dicas valiosas em cada um deles.
    Foi gostoso ver que os traços das ilustrações acompanharam direitinho o conteúdo de cada conto, isso vale muito!
    E se é capaz de fazer o leitor pensar, estou dentro!
    Vai para a lista de desejados com certeza.
    Beijo

  4. Carl!
    Achei diferente ver um HQ em contos, nunca tinha visto antes.
    Gostei de ver que traz uma realidade crua das personagens, o que traz maior identificação do leitor com o enredo e ainda a grande conexão das hist´roias, mesmo sem que cada uma traga um desfecho.
    Diferente.
    cheirinhos
    Rudy

  5. Muito bom o tema abordado na HQ, porque retrata exatamente como somos!! Deixamos de fazer o que gostamos por conta das pessoas, deixamos de ser quem somos as vezes, e também somos egoístas por pensar em nos mesmos muitas vezes, ferindo as pessoas a nossa volta com isso.Sem dúvidas,que podemos tirar dessa leitura muitas reflexões!!

  6. Olá! Gostei bastante de conhecer mais essa HQ, embora de aborde assuntos pesados, acho que se faz necessária, e apesar de muitas vezes recorremos aos livros para fugir um pouco de uma realidade tão cruel que nos cerca, acho que nos depararmos com histórias assim, que retratam um pouco do nosso dia-a-dia é engrandecedor de certa forma.

  7. Essa é uma daquelas HQ’s que em algum ponto da leitura ela vai tocar bem la no fundo da gente, seja por uma situação que vivemos, ou por conhecermos alguém próximo que vive.
    Estou adorando as publicações de HQ da editora, sempre acabo gostando mais do que achei, e é sempre uma grata surpresa <3

  8. Olá Carl, tudo bem?
    Realmente o título original combina bem mais com as histórias. Me pareceu que são todas historias tristes, mas que retratam problemas reais. Fiquei triste pela garota de Vamos, Owls. Gostei da arte das ilustrações.

  9. Por ser História em Quadrinhos me anima, achei o traço bem delicado e bem feito, a composição dos personagens, é uma novidade o fato da HQ ser feita em contos, estou adorando as indicações de HQ do Gettub!

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