ESPERE AGORA PELO ANO PASSADO

8 de dezembro de 2018
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3 min de leitura

ESPERE AGORA PELO ANO PASSADO é uma ficção-científica de Philip K. Dick, aclamado escritor do gênero e muito reconhecido por sua capacidade invencionista para cenários inimagináveis. Sendo inédito no Brasil, o livro conta com uma edição especial belíssima lançada pela editora Companhia das Letras. Esta foi minha primeira leitura de uma obra de Dick, que me deixou imensamente surpresa com seus cenários futuristas e a escrita direta e ácida.

O livro se passa no ano de 2055, onde, apesar de todas as tecnologias e evoluções ocorridas, a  Terra passa por um momento de grande tensão com uma possível guerra intergaláctica à vista. Gradativamente, as forças terrestres diminuem… Um dos protagonistas, Gino Molinari, é o secretário-geral da ONU que comanda a força política terrestre, um ditador astuto que faz uso de diversas estratégias para conseguir vantagem política.

O dr. Eric Sweetcent  é um médico especializado em artificiórgãos, sendo nomeado médico pessoal de Molinari, o homem mais importante da Terra e o mais doente também. Paralelamente a isso, Sweetcent descobre que sua esposa Kathy está letalmente viciada em uma poderosa droga com estranhos efeitos colaterais de viagens no tempo. Em meio a uma crise interplanetária, em que nada é exatamente o que parece, Eric se encontra numa grande confusão, tentando compreender a saúde do secretário-geral, que transformou suas misteriosas doenças em um instrumento político. Ele já não sabe qual é o seu trabalho: realmente curá-lo, ou apenas não deixá-lo morrer. Além disso, o personagem corre contra o tempo para tentar salvar a vida de Kathy, uma mulher extremamente manipuladora e egoísta.

É muito interessante ver a mudança de visão do médico depois que ele tem acesso a informações confidenciais trabalhando para Gino, na medida em que descobre o funcionamento real da política com todas as atrocidades realizadas em prol de uma suposta paz que nunca existiu. Adorei a construção dos personagens,  as relações interpessoais complicadas, além de que acompanhamos as mudanças e questionamentos dos protagonistas com o desenrolar da trama. Eric me cativou desde o início, enquanto Kathy recebeu meu ódio por se comportar como uma megera interesseira e manipuladora o tempo todo.

Molinari é um personagem bastante peculiar, um hipocondríaco que se mostra extremamente frágil e doente, mas também um ditador manipulador capaz de tudo por poder. Me peguei, em várias partes da história, questionando suas atitudes e se suas doenças eram reais ou não. E, para cada nova informação que descobrimos, temos mais mil dúvidas, então não há certezas ao longo da leitura. E ainda, os cenários relatados por Philip são bastante confusos em alguns pontos, pois as descrições não são muito aprofundadas; alguns termos são usados sem nenhuma explicação de seu significado, mas percebemos ser uma referência a algo futurístico. Mas as “evoluções” são incontáveis: servos-robôs que trabalham para os humanos, colônicas terrestres em Marte e fora do sistema solar, cirurgias que substituem órgãos que não funcionam mais por um artificial, viagens interplanetárias extremamente rápidas…

É uma obra bastante complexa que envolve uma guerra interplanetária, contexto político, uma nova droga alucinógena altamente perigosa, viagens no tempo e relações delicadas entre os personagens. Ao finalizar a leitura, você não sabe se realmente compreendeu a história e essa é a  principal característica do autor: ele não nos dá certeza de nada em suas tramas. Nessa obra, Dick navega entre o possível e o impossível, criando um futuro em que a realidade é uma superfície terrivelmente tênue e multifacetada. Nem tudo é como imaginamos…


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Philip K. DICK foi um escritor americano de ficção científica que alterou profundamente este gênero literário. Apesar de ter tido pouco reconhecimento em vida, a adaptação de várias das suas novelas ao cinema acabou por tornar a sua obra conhecida de um vasto público. Sua obra é marcada por fantasmagóricas histórias de paranoia e primam pela originalidade
TRADUÇÃO: Braulio TAVARES
EDITORA: Companhia das Letras
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 296


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Sara

Sara, sou mineira, bookaholic e futura fisioterapeuta. Sou apaixonada pela vida e por tudo que ela nos oferece. Ler, viajar, conversar, dançar, comer e dormir são algumas das coisas que mais amo.

10 Comments Deixe um comentário

  1. Costumo pensar que a leitura de Dick é para poucos!Essa genialidade dele só pode ser compreendida e absorvida por poucos e pelo que li acima, neste livro, o autor fez um roteiro completo, com todos os elementos para bagunçar a cabeça do leitor e com isso, o jogar literalmente no enredo e nesta viagem entre tempo e espaço!
    Não sou muito boa com enredos assim, normalmente me perco com facilidade,mas mesmo assim, senti uma vontade enorme me jogar no livro e conhecer mais um pouco das letras deste gênio!!!
    Lista de desejados com certeza!
    Beijo

    • Oi, Angela. Realmente, as obras do autor não são fáceis. Mas, pela minha experiência, acho muito difícil algum leitor compreender “todo” o sentido imposto por Dick na narrativa hahaha. Tive certa dificuldade de engatar na leitura por me perder em alguns trechos. Beijos.

  2. Não tenho vontade de ler nada do autor, mas esse livro me chama um pouco a atenção. Uma guerra entre planetas, com personagens tão diferentes e com essa droga que Kathy é viciada me deixou curiosa para o andamento do livro!
    Uma coisa que acho bem legal é essa questão do autor deixar o final meio “em aberto” para o leitor ter suas conclusões.

  3. Olá! Sempre leio coisas positivas em relação ao autor e sua genialidade ao contar suas histórias, confesso que o gênero não é um dos meus favoritos e com tanta informação fica fácil se perder durante a leitura. Mas não deixa de ser bem interessante poder acompanhar um mundo tão diferente e situações tão complicadas.

    • Oi, Elizete. Apesar de intrigante, a escrita é bastante complicada, o que não me estimula a ler outra obra do autor tão cedo. Muito cansativo! Beijos.

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