“A maior detetive do mundo e sua assistente mais ou menos” é construído em torno de uma piada bastante simples. De um lado está Aubrey Merritt, investigadora particular famosa, experiente, metódica e extremamente segura das próprias capacidades; do outro, Olivia Blunt, uma jovem recém-contratada que sonha em participar de investigações importantes, mas que ainda não sabe exatamente como.
Até o título estabelece uma hierarquia clara entre as duas: existe uma “maior detetive do mundo” e existe sua assistente apenas “mais ou menos”. O que o romance faz, entretanto, é passar boa parte de suas páginas desmontando essa divisão aparentemente tão evidente, mostrando que a diferença entre as duas talvez esteja muito menos na inteligência e mais maneira como cada uma aprendeu a observar as pessoas.
Olivia Blunt tem 25 anos e consegue uma oportunidade que considera extraordinária: tornar-se assistente da famosa investigadora particular Aubrey Merritt. Ela acompanha a carreira de Merritt há bastante tempo, conhece seus casos e imagina que trabalhar ao seu lado significará finalmente descobrir os segredos de uma grande detetive. A realidade, naturalmente, é menos glamorosa. Merritt é exigente, pouco afetuosa, bastante impaciente e quase obsessiva em relação aos detalhes, e durante as primeiras semanas, Olivia recebe muito mais tarefas administrativas e pesquisas do que aventuras investigativas. Sua oportunidade surge quando Haley Summersworth procura Merritt para investigar a morte da mãe, Victoria Summersworth, que morreu na noite de sua festa de 65 anos depois de cair da varanda de sua residência no luxuoso Wild Goose Resort, às margens do lago Champlain, em Vermont. A polícia considera a morte um suicídio, mas Haley não acredita nessa hipótese e procura Merritt justamente porque está convencida de que existe algo errado naquela versão dos acontecimentos.
A premissa é deliberadamente clássica. Uma mulher rica morre em circunstâncias aparentemente explicáveis, mas há algo perturbador na explicação oficial; ao redor da vítima encontra-se uma família poderosa, complicada e cheia de ressentimentos, interesses financeiros, relacionamentos problemáticos e segredos que ninguém gostaria de ver revelados. Há filhos, enteados, funcionários, amantes, antigos conflitos e pessoas que sabem muito mais do que inicialmente admitem.
A autora não demonstra qualquer intenção de esconder a influência de Agatha Christie e, na verdade, parece se divertir justamente por trabalhar dentro de um modelo reconhecível. A própria autora já comentou que procura preservar uma das características mais tradicionais do gênero: aquela grande exposição final em que o investigador reúne as pistas, reorganiza os acontecimentos e demonstra ao leitor de que maneira tudo aquilo que parecia disperso fazia parte de uma única história. Por isso, talvez seja pouco produtivo perguntar se o romance pretende reinventar o policial clássico. Ele claramente não pretende. Seu interesse está em descobrir o que ainda funciona nessa estrutura e como personagens contemporâneas podem ocupar papéis que conhecemos há muitas décadas.
A relação entre Aubrey e Olivia remete imediatamente a uma das estruturas mais antigas do romance policial: o grande investigador acompanhado por alguém menos experiente. Sherlock Holmes precisa de Watson não apenas porque necessita de um companheiro, mas porque alguém precisa registrar seus feitos e servir como intermediário entre o brilhantismo do detetive e o leitor. Poirot também frequentemente necessita de personagens que desempenham função semelhante, seja como interlocutores, seja como pessoas que levantam as perguntas que nós mesmos levantaríamos. O investigador extraordinário torna-se ainda mais extraordinário quando acompanhamos seus movimentos pelos olhos de alguém incapaz de chegar às mesmas conclusões. A autora utiliza deliberadamente esse modelo, mas modifica um elemento importante: Olivia não é burra, lenta ou intelectualmente inferior a Aubrey. Ela é simplesmente inexperiente.
Essa diferença é fundamental para compreender o romance, porque altera completamente a maneira como interpretamos os erros de Olivia. Ela não foi criada para provar o quanto Aubrey é genial, mas para mostrar como alguém inteligente aprende a exercer uma profissão complexa. A autora explica que sempre se incomodou com o fato de muitos parceiros de grandes detetives serem construídos como intelectualmente inferiores ao protagonista, e Olivia parece surgir justamente dessa recusa. Ela possui inteligência suficiente para se tornar uma excelente investigadora, mas ainda não desenvolveu completamente a capacidade de observar e relacionar informações. A diferença entre ela e Aubrey, portanto, não está em uma espécie de dom sobrenatural que uma possui e a outra jamais possuirá. Está em aproximadamente trinta anos de experiência.
Isso faz com que a relação entre as duas seja muito mais interessante do que o modelo simples da genialidade cercada pela mediocridade. Olivia não tenta alcançar algo inalcançável; ela está aprendendo um ofício. Cada erro, então, deixa de funcionar como demonstração de incapacidade e passa a fazer parte de um processo de formação profissional. Existe algo particularmente simpático na recusa da autora em apresentar uma protagonista jovem que, poucos dias depois de entrar em uma profissão completamente nova, já demonstra possuir uma genialidade inexplicável. Olivia erra, interpreta sinais de maneira equivocada, se deixa levar por impressões pessoais, perde detalhes, irrita Merritt e em alguns momentos age antes de compreender inteiramente uma situação. Ao mesmo tempo, encontra pistas importantes, percebe coisas que Aubrey não percebe e demonstra que sua maneira de lidar com as pessoas também pode produzir conhecimento. Sua competência não surge como revelação repentina, mas como construção.
Aubrey Merritt, por sua vez, pertence a um tipo bastante conhecido da ficção contemporânea: o profissional excepcional que acredita que competência justifica grosseria. O paralelo com Sherlock Holmes é evidente, mas há também algo de Miranda Priestly, de “O Diabo Veste Prada”, em sua maneira de tratar Olivia, principalmente porque sua autoridade não depende apenas do talento, mas de uma reputação já consolidada que faz com que os outros tolerem comportamentos que dificilmente aceitariam de alguém menos importante. O romance funciona melhor quando não tenta transformar esse comportamento em virtude. Merritt pode ser brilhante, mas também pode ser profundamente desagradável, e a narrativa não precisa fingir que uma característica anula a outra. Ela observa pessoas como problemas a serem resolvidos, adapta sua postura conforme percebe fragilidades e raramente demonstra preocupação em parecer simpática. Depois de décadas lidando com crimes, desenvolveu certo desgaste emocional e aprendeu a tratar uma parcela da empatia como obstáculo profissional.
É justamente nesse ponto que a diferença entre ela e Olivia adquire uma dimensão que vai além da experiência. Olivia olha para as pessoas e ainda vê pessoas; Merritt frequentemente olha para elas e vê informações. Quando Olivia questiona a dureza com que a chefe conduz determinados interrogatórios, Merritt basicamente argumenta que elas estão ali para encontrar um assassino, não para atuar como assistentes sociais. A divergência não é apenas metodológica, mas moral, porque envolve duas maneiras diferentes de interpretar o que significa investigar alguém. O interessante é que o romance não estabelece que uma esteja completamente certa e a outra completamente errada. A empatia de Olivia realmente pode comprometer seu julgamento, especialmente quando ela simpatiza com alguém e começa a tratá-lo como menos suspeito. Merritt percebe corretamente que esse tipo de envolvimento emocional pode ser perigoso. Ao mesmo tempo, transformar toda relação humana apenas em instrumento investigativo também produz cegueira, pois compreender fatos não significa necessariamente compreender pessoas. As duas se completam precisamente porque enxergam coisas diferentes.
A solução do crime também demonstra respeito por uma das regras não escritas mais importantes do mistério tradicional: o leitor deve, em princípio, ter alguma possibilidade de chegar à resposta. A autora não esconde todas as informações relevantes para então apresentar uma explicação que ninguém poderia prever. Há pistas materiais, comportamentos contraditórios, movimentações noturnas, falhas na narrativa sobre a morte e, principalmente, problemas relacionados à mensagem associada ao suposto suicídio de Victoria. Algumas pistas aparecem discretamente e só ganham importância retrospectivamente, quando Merritt reorganiza os acontecimentos. Esse mecanismo funciona porque transforma pequenos elementos do cenário em partes significativas da solução sem fazer com que todos eles pareçam ter sido introduzidos exclusivamente para cumprir uma função mecânica.
Essa questão se torna particularmente evidente na grande explicação final, que recupera deliberadamente a estrutura clássica da reunião de suspeitos. É o território de Poirot: o investigador coloca as personagens diante umas das outras, revisita motivos, desmonta versões, elimina hipóteses e finalmente demonstra quem cometeu o crime. Para leitores que apreciam esse tipo de narrativa, a cena oferece exatamente a recompensa esperada depois de centenas de páginas de investigação, porque permite rever praticamente todo o caso à luz da solução. Para outros, entretanto, a explicação pode parecer longa demais, principalmente porque o romance insiste em revisitar vários suspeitos antes de chegar definitivamente à verdade. Essa diferença de recepção não depende necessariamente de uma falha objetiva da narrativa, mas da relação que cada leitor possui com o próprio ritual do mistério clássico.
Paralelamente à investigação, Olivia também precisa administrar uma vida que continua existindo fora do trabalho. Seu noivo, Trevor, é ator e possui compromissos, expectativas e uma trajetória própria, e a dedicação de Olivia ao caso começa a interferir na relação entre os dois. Essa trama possui uma função bastante clara: mostrar que transformar uma paixão em profissão exige escolhas e que o trabalho não existe isolado das demais relações. Quanto mais Olivia se aproxima da carreira que sempre desejou, mais precisa decidir quanto espaço permitirá que essa carreira ocupe. Ainda assim, esse é um dos aspectos menos desenvolvidos do romance. Trevor é agradável e compreensivo, mas frequentemente parece existir mais para lembrar que Olivia possui uma vida pessoal do que como personagem plenamente integrada ao conflito central.
A classificação da obra como cozy mystery merece alguma nuance. O romance possui muitas características associadas ao gênero: a violência raramente é gráfica, o humor ocupa espaço importante, a investigação se baseia principalmente em observação, entrevistas e lógica, e o ambiente mantém certa sensação de conforto mesmo quando personagens discutem assassinatos. Ao mesmo tempo, as relações humanas descritas pelo livro não são exatamente confortáveis. Família, dinheiro, exploração emocional, ressentimentos antigos, infidelidade, vícios e sentimentos reprimidos atravessam a narrativa constantemente. Talvez seja mais preciso entendê-lo como um mistério tradicional com sensibilidade cozy do que como um exemplo totalmente domesticado do gênero. A morte é apresentada sem brutalidade gráfica, mas as razões pelas quais as pessoas são capazes de destruir umas às outras continuam sendo bastante desagradáveis.
No fim, porém, a pergunta mais interessante talvez não seja quem matou Victoria Summersworth. Robin é descoberta, o mecanismo do crime é explicado, as pistas são reorganizadas e o caos daquele caso encontra uma solução. Outra investigação, entretanto, permanece aberta: quem Olivia Blunt vai se tornar? Esse é o verdadeiro gancho do romance. O título apresenta Aubrey como uma personagem acabada e Olivia como uma personagem insuficiente, mas ao final percebemos que ambas as definições são incompletas. Aubrey ainda precisa descobrir o que significa ensinar alguém e aceitar que seu método não é a única maneira possível de investigar; Olivia ainda precisa descobrir que tipo de profissional deseja ser e até que ponto deve absorver a postura da mulher que admira.
Essa talvez seja a melhor ideia do livro. A grande detetive precisa aprender a ter uma assistente, enquanto a assistente “mais ou menos” precisa aprender que não precisa se transformar em uma cópia da grande detetive para se tornar boa. É justamente aí que a obra encontra alguma identidade própria dentro de uma estrutura deliberadamente familiar. “A maior detetive do mundo e sua assistente mais ou menos” não reinventa o romance policial e provavelmente nem pretende fazê-lo. Sua força está em compreender por que certas estruturas sobreviveram durante tanto tempo: o grupo limitado de suspeitos, a vítima cheia de segredos, os motivos escondidos, as pistas aparentemente insignificantes e, finalmente, o prazer quase ritual de ouvir alguém explicar como tudo realmente aconteceu.
