Essa é uma coletânea de sete contos de Hiro Arikawa, uma escritora japonesa que já é conhecida no Brasil por um outro livro, “Relatos de um gato viajante”. E em “O gato do adeus” ela segue a essência do seu sucesso anterior. Para os leitores que se cativaram com a história deste seu outro livro isso talvez signifique uma garantia de conquista certa.
Os dois primeiros contos, “A hora do Hachi” e “Mais uma viagem” são (como a própria edição do livro deixa claro) um complemento do seu best-seller internacional, “Relatos de um gato viajante”. Os outros cinco contos tratam-se de histórias inéditas. Em todos, o fio condutor é o vínculo afetivo entre humanos e gatos.
Acredito que o maior diferencial do livro é a escrita na perspectiva de um animal. E acredito que um atrativo maior ainda para os leitores que se enquadram na categoria gateiros (a qual confesso fazer parte). É possível que os humanos dessa “categoria de pessoas” já tenham em algum momento, ou em muitos, imaginado o que se passa na cabeça de algum gato, seja um ao qual você seja o(a) tutor(a) ou não. E nos contos do livro é isso que Arikawa entrega: gatos cheios de personalidade, com histórias únicas e perspectivas sobre temáticas sensíveis, como a vida, a morte, o luto, a parentalidade e o amor.
Mas além do olhar felino, o olhar humano também está bastante presente nesses contos. Isto com uma escolha dinâmica de uma escrita que migra entre a terceira pessoa e a narração em primeira pessoa, ou seja, ora pela perspectiva humana, ora pela felina. Mesmo que não seja do meu interesse categorizar livros, descobri que essa leitura faz parte de um gênero conhecido como literatura de cura, ou talvez, ficção de cura, ou ainda no inglês, healing fiction.
É um gênero de livros em que as histórias são consideradas leves, inspiradoras, com finais acolhedores. Há alguns pontos em comum nesses livros, como as histórias serem ambientadas em bibliotecas, cafés, lojas, e contarem com gatos como um dos personagens principais. É um gênero popular no Japão e na Coreia do Sul que, segundo algumas editoras brasileiras, têm atraído muitos leitores brasileiros. O que faz total sentido acompanhando o sucesso de obras audiovisuais conhecidas como doramas no público brasileiro.
Destaco isso, pois os contos do livro seguem exatamente essa essência. Apesar dos temas muito sensíveis abordados a finalização das histórias são sempre de uma óptica muito positiva e inspiradora. Dentre esses temas sensíveis, ressalto as diferentes perspectivas, humana e felina, sobre o tempo e memória. É óbvia a diferença de expectativa de vida entre nossas espécies e como isso afeta a visão da passagem da infância, adolescência, fase adulta e velhice, por exemplo. Mas parto daquela máxima de que o óbvio precisa ser dito. Em um dos contos, o conhecido gato Hachi observa que “para os gatos, o tempo passa muito rápido”.
Quando Hachi foi resgatado da rua, Satoru era enorme, mas de repente tinha virado uma criança mais nova que ele. Pelo jeito, o tempo passava de jeitos diferentes para os humanos e gatos. (Pág.21)
São nesses retratos, do primeiro conto do livro, quando as memórias de Hachi passam a se colidir e tornarem uma nova versão, que a autora traz essa perspectiva sobre o tempo e a memória. Após a mudança de um lar que passou grande parte da sua vida como filhote, Hachi vai criando um tipo de memória fragmentada ao passar por uma nova fase de vida, em uma nova casa para chamar de lar, com novas pessoas para chamar de tutores. O gato vai misturando suas memórias como se ele fosse uma criança misturando duas massinhas de modelar de cores diferentes. E a abordagem destes temas na perspectiva felina não é exclusiva desta história, ela também abrange outros contos de “O gato do adeus” .
Nos contos originais, os novos personagens, apesar de interessantes, não conseguem atingir o carisma dos já conhecidos Nana e Hachi do livro de Arikawa publicado aqui em 2017. Para considerar isso destaco o conto “Tom, seu folgado”. Esta história se diferencia das demais de imediato por seu tamanho, cerca de quatro páginas, diante de contos de em média sessenta páginas. Ele se destacou também porque não consegui me conectar com ele e talvez nem compreender a razão dele estar neste livro.
Essa inquietação me levou a pesquisar algum comentário dela em alguma entrevista falando sobre esse conto específico. Não encontrei. Mas encontrei uma entrevista de 2024, concedida ao Japan ForWard, onde a escritora conta que adotou um gato chamado Tom, um gato ator, que interpretou Nana na adaptação cinematográfica de “Relatos de um gato viajante”. Como mencionei, não há nada confirmado, mas interpreto aqui que o conto “Tom, seu folgado” se trata de uma homenagem a seu gatinho. Não acredito que uma inquietação leve todos os leitores a este caminho.
A coletânea de contos, em geral, é uma grande oportunidade para refletir sobre as nossas relações com os gatos (na verdade, isso pode abranger outros animais ) em meio a corrida contra o tempo de nossas vidas. Como tutor de dois gatos, de cerca de cinco anos de idade, sei que é mais provável (na lógica de expectativa de vida) que eles irão morrer primeiro do que eu. Foi a abordagem sobre a morte, na perspectiva felina, dentro do livro que me provocou observar e especular sobre toda a vida que vou testemunhar desses gatos. E também aquela reflexão muitas vezes evitada sobre a inevitável morte.
E ressalto que faço essa observação totalmente consciente de que estou relacionando uma lógica do pensamento humano a um ser vivo que com certeza não tem a mesma lógica de pensamento que a minha. O que, de certa forma, não é diferente do que a autora faz em sua obra de ficção narrando a perspectiva felina em primeira pessoa.
Acredito que está aí a beleza dos contos de “O gato do adeus”, a forma como Hiro Arikawa explora de forma sensível pontos importantes e únicos de relações entre gatos e seus tutores. Apesar das histórias se passarem em cenários do Japão, fazer referência a obras de arte japonesas, da forma como eles escolhem nomes e tantos outros fatores específicos de sua cultura, nos contos do livro não existem fronteiras para se familiarizar e apreciar as histórias desses gatinhos.

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