Em “Escola dos Gritos”, a escritora malaia Hanna Alkaf transforma a histeria coletiva documentada nas escolas da Malásia em um thriller de horror que é, antes de tudo, uma investigação sobre o silêncio imposto às mulheres.
Há uma cena que resume toda a mensagem deste livro: uma quinta-feira abafada em Kuala Lumpur, uma sala de aula que murcha no calor tropical, e então, sem aviso, uma menina grita. Não há motivo aparente. Não há explicação imediata. Há apenas o grito e, logo depois, outra menina que grita também. E mais uma. E mais uma. Ao final do dia, dezessete alunas da Escola Secundária Nacional de St. Bernadette estão afetadas, e a reputação centenária da instituição, conhecida por formar as melhores jovens da Malásia, começa a rachar junto com o silêncio que ela sempre fez questão de impor.
O título original em inglês é “The Hysterical Girls of St. Bernadette’s”, e a escolha da palavra “histéricas” não é inocente: ela carrega séculos de diagnósticos masculinos sobre corpos femininos que se recusam a comportar, que transbordam, que insistem em existir em voz alta. Alkaf sabe exatamente o que está fazendo ao colocá-la no título de seu romance.
A autora não inventou os gritos. Eles são reais.
A Malásia tem um histórico fartamente documentado de surtos de histeria coletiva em escolas, especialmente em instituições femininas de regime rígido. O sociólogo médico norte-americano Robert Bartholomew, que dedicou décadas ao estudo do fenômeno, chegou a chamar o país de “a capital mundial da histeria coletiva”. Os casos envolvem predominantemente adolescentes muçulmanas malaias, separadas das famílias, submetidas a ambientes de pressão intensa, e frequentemente interpretadas pelas próprias comunidades como possessas por djinns ou espíritos. A ciência os classifica como manifestações de doença psicogênica de massa — uma resposta coletiva ao estresse, em que o sofrimento psicológico encontra saída pelo corpo. A cultura malaia os lê de outra forma. Alkaf, com sabedoria, não resolve essa tensão: ela a habita.
A escola fictícia de St. Bernadette foi modelada a partir de uma instituição real que a própria autora frequentou. E isso se sente em cada detalhe: nos arcos coloniais de pedra que observam a cidade lá de baixo, no calor úmido que não encontra saída pelas janelas escancaradas, na autoridade hierárquica de uma direção mais preocupada com a reputação da escola do que com o bem-estar das alunas que a habitam. Há algo naqueles corredores antigos — sugere o livro — algo que se alimenta de histórias enterradas, de abusos encobertos, de vozes que nunca foram ouvidas.
A narrativa se desdobra por meio de dois pontos de vista alternados, em capítulos curtos e de ritmo acelerado. De um lado, Khadijah Rahmat, dezesseis anos, conhecida como Khad, que parou de falar — ou quase isso — após sofrer abuso sexual do padrasto. Seu silêncio não é passividade; é sobrevivência, a única armadura que encontrou depois de um trauma que o mundo ao redor preferiu não nomear. A escola é, para Khad, o único lugar onde se sente segura: ela tem notas razoáveis, duas amigas leais chamadas Sumi e Flo, e uma rotina que mantém o caos à distância. Quando sua irmã mais nova começa a gritar, esse equilíbrio precário desmorona, e Khad se vê forçada a agir, mesmo que isso custe justamente o que lhe restou de si mesma.
Do outro lado, Rachel Lian, quase dezessete anos, aluna exemplar cuja vida inteira foi construída para satisfazer as expectativas de uma mãe que nunca a enxergou como sujeito. Rachel nunca escolheu nada: escolheram por ela a carreira, as amizades, a identidade. O teatro escolar foi o único espaço em que pôde experimentar outras formas de existir, mas a personagem que encarna no palco começa a tomar conta dela de maneiras perturbadoras, borrando a fronteira entre representação e possessão. Ela também está sendo assombrada: pelo fantasma de uma aluna que gritou e desapareceu anos antes, e cuja história a escola jamais contou.
Juntas — embora, a princípio, relutantes — Khad e Rachel começam a escavar o passado da St. Bernadette. O que encontram revela que os gritos de hoje não são o primeiro surto. Que algo aconteceu antes. Que uma das garotas que gritou simplesmente… sumiu. E que a escola soube, e escolheu o silêncio.
O grande mérito de Alkaf como escritora é não deixar que o horror sobrenatural canibalize o horror real. O livro funciona em duas frequências simultâneas: há algo genuinamente sinistro nos corredores da St. Bernadette. Uma presença, uma fome, algo que o texto cuida de não nomear de forma simplista. Mas há também crimes muito humanos, estruturados em dinâmicas de poder muito reconhecíveis. O abuso encoberto. A instituição que se protege. As meninas cujos relatos não foram levados a sério porque eram, afinal, apenas meninas. Nenhuma das duas camadas de horror é metáfora da outra: ambas coexistem, se alimentam, e Alkaf recusa o conforto de uma explicação final que elimine a ambiguidade.
A escrita carrega a marca do jornalismo que formou a autora: direta, precisa, sem ornamentos desnecessários. A alternância de perspectivas cria um efeito de tensão crescente sem nunca afrouxar o ritmo. Os capítulos curtos funcionam como respirações contidas. O leitor raramente tem espaço para se recuperar antes da próxima revelação. Ao mesmo tempo, Alkaf desacelera quando necessário para habitar o interior de suas protagonistas com generosidade e precisão clínica. O trauma de Khad não é romantizado nem superado de forma conveniente. A pressão de Rachel é retratada com o mesmo cuidado, não como um simples antagonismo mãe-filha, mas como o resultado de estruturas maiores que fazem de certas mulheres as executoras involuntárias do silenciamento de outras.
Há também, em “Escola dos Gritos”, uma declaração de pertencimento cultural que merece ser reconhecida. Alkaf não escreve sobre a Malásia para um leitor estrangeiro que precise de notas de rodapé: ela escreve de dentro, para quem reconhece o cheiro de chuva tropical antes da aula, o vendedor de comida na saída da escola, a tensão entre a medicina ocidental e a cura espiritual que muitas famílias muçulmanas malaias ainda negociam cotidianamente.
O sobrenatural do livro não é importado de tradições góticas europeias; ele nasce desta terra, destas histórias, destes djinns em que muitas das personagens acreditam não como superstição, mas como sistema de interpretação do mundo. Isso confere ao romance uma autenticidade que o gênero dark academia — historicamente dominado por cenários de Oxford e Cambridge, de estéticas vitorianas e referências greco-latinas — raramente oferece.
É possível que alguns leitores sintam dificuldade nas primeiras páginas. A ambientação é densa, as duas linhas narrativas exigem um momento de ajuste, e a história da escola emerge em camadas, não em revelações imediatas. Mas a paciência é recompensada. Quando os segredos da St. Bernadette finalmente emergem das sombras, quando Khad e Rachel percebem a dimensão do que estão enfrentando e decidem, juntas, fazer alguma coisa, mesmo que isso signifique gritar, o livro cumpre com interesse a promessa feita na primeira cena.
“Escola dos Gritos” é, no fundo, um livro sobre o que acontece quando se impõe silêncio a quem mais precisa ser ouvido. E sobre o que o corpo, a mente e o espírito fazem quando já não conseguem mais conter o que foi reprimido. Os gritos das alunas da St. Bernadette não são sintomas de fraqueza: são a linguagem de quem teve todas as outras roubadas. Hanna Alkaf entende isso. E faz questão de que o leitor entenda também.


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