O FUNDO É APENAS O COMEÇO

19 de outubro de 2021
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2 min de leitura

Caden é um aluno brilhante. Ele tem a chance de entrar na equipe de corridas da escola. Ele é um menino amoroso e participativo. Até que Caden começa a mudar. A ter comportamentos estranhos. Caden não entrou para a equipe de corridas. Ele passa as tardes caminhando por horas, sem direção, perdido em seus pensamentos. Ele fica no meio da sala, com os pés no tapete, olhando para o teto.

Caden é o artista de plantão em um navio que ruma para o ponto mais remoto do oceano, o Challenger Deep, uma depressão marinha situada a sudoeste da Fossa das Marianas, o local mais profundo que existe. O trabalho de Caden é documentar a viagem em desenhos. Na jornada, ele é chamado para se amotinar contra o capitão. Caden fica dividido entre sua lealdade e a tentação de se juntar ao restante da tripulação.

O FUNDO É APENAS O COMEÇO não conta duas histórias de personagens diferentes em épocas distintas. É o mesmo Caden nas duas narrativas. Caden é um adolescente que começa a sofrer de distúrbios mentais. Sua mente trafega entre a realidade e as alucinações. Na maioria dos momentos, ele tenta conviver com sua família, com seus amigos, na escola. Mas tem outros momentos em que ele faz parte da tripulação de um navio cheio de intrigas e que ruma na direção do abismo. Na mente de Caden, tudo é real. Aos poucos, ele deixa de conseguir se diferenciar.

Quando os pais de Caden percebem o comportamento errático, eles levam o filho para ser diagnosticado. Ele é internado e submetido a um tratamento com a esperança de reversão do quadro. A narrativa é dividida entre os pensamentos de Caden no mundo real, cada vez menos coerentes, e suas ilusões dentro do navio, quando tem conversas filosóficas com o papagaio do capitão e as justificativas do motim.

Conforme a leitura avança, percebemos como a mente de Caden fica mais debilitada, como as coisas fazem cada vez menos sentido. Várias páginas são preenchidas com desenhos que Caden faz. Esses desenhos passam de linhas bem definidas, até atingirem rascunhos, rabiscos, sem qualquer lógica ou possibilidade de identificação. É assim que a mente dele fica, uma sopa misturada de irracionalidade.

Todo esse caminho é muito triste de acompanhar, porque percebemos facilmente o quanto Caden sofre por não conseguir mais saber o que é real. Como ele se sente quando é internado, como é seu relacionamento com outros doentes que passam pelo mesmo, e como, aos poucos, conforme a medicação surte efeito, ele começa a retornar para a realidade e tomar conhecimento de tudo o que enfrentou, e precisará enfrentar pelo resto de sua vida.

Mas O FUNDO É APENAS O COMEÇO guarda sua maior informação para depois do final, quando descobrimos que é uma história real. Caden é a representação do filho do autor, e os desenhos das páginas, são reais, foram feitas por ele. A luta da família de Caden, que por dezenas de semanas, acompanhava o filho internado diariamente, foi a luta do autor para salvar seu filho.

O FUNDO É APENAS O COMEÇO é um relato fortíssimo sobre doenças mentais, da fragilidade de pessoas que enfrentam essa luta. É emocionante, é triste, mas também é reconfortante constatar que temos tratamento eficiente para a maioria delas nos dias de hoje. Uma história necessária e que merece sua leitura. Precisa de sua leitura.


AUTOR: Neal SHUSTERMAN
TRADUÇÃO: Heloísa LEAL
EDITORA: Valentina
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 272


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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