TODAS AS COISAS AQUE EU TE ESCREVERIA SE PUDESSE

5 de julho de 2021
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Comecei a escrever essa resenha quando estava na página 103 do livro, porque é impossível avançar na leitura e ainda assim estar ileso frente às palavras que preenchem esses poema-textos. Sempre que leio algo do Igor, me vejo claramente escrevendo um dos textos. Curiosamente, e diferente das outras vezes, talvez pelas minhas vivências, ou talvez pelos textos em si, dessa vez também pude me ver na posição de ser quem “recebe” um dos textos.

O autor nacional de ficção mais lido em 2020, Igor Pires lança o quarto livro da série TEXTOS CRUÉIS DEMAIS PARA SEREM LIDOS RAPIDAMENTE (resenha aqui). Em TODAS AS COISAS QUE EU ESCREVERIA SE PUDESSE, Igor fala sobre amor, amar e deixar ir, ser intenso e abraçar a sua intensidade. Sobre dizer e sentir tudo sem gaguejar. Sobre enfrentar a dor e aceitar que a cura é um processo contínuo, imprevisível, não linear. Escrita durante a pandemia, a obra é uma coleção de textos poéticos sobre todas as impressões que ficam quando alguém vai embora – ainda que esse alguém seja você mesmo. Além de toda a poesia e sensibilidade características do autor, o livro traz as coloridas ilustrações – que flertam com o surreal – de Jônatas Moreira.

Essa resenha vai sair um pouco “comparativa” com os outros livros, mas não num sentido ruim. Faço isso num sentido bom, porque são todos parte de uma coleção, apesar de terem focos em diferentes partes das relações. Desde TEXTOS CRUÉIS DEMAIS PARA SEREM LIDOS RAPIDAMENTE, passando por ONDE DORME O AMOR (resenha aqui) e O FIM EM DOSES HOMEOPÁTICAS (resenha aqui), aqui foi a primeira vez que senti que o autor deu a chance de “estarmos um passo à frente” na compreensão sobre nossas relações. Não no sentido de saber mais do que a outra pessoa, mas no sentido de já ter vindo trabalhando as questões que traz no livro nas obras anteriores e, de certa forma, ir “preparando o terreno” para vivenciarmos bem cada momento.

No primeiro livro é muito clara a evidenciação da dor da perda. O segundo traz de forma mais aflorada a questão de como lidamos com o amor em si. O terceiro livro trabalha a vivência do fim e como somos fortes para enfrentá-lo. E o quarto vem pra mostrar como as coisas não ditas ainda podem mexer com a gente, mas que apesar dessas coisas ainda estarem presentes na nossa cabeça, tivemos a coragem de realmente viver o que gostaríamos, mesmo que pudesse dar errado. E, depois do fim, saímos modificados, um pouco machucados (às vezes) mas somos completamente capazes de “suturar nossas feridas” e reconstruir nossa versão-inteira. Porque os primeiros momentos da perda nos fazem sentir como se faltasse algo e, depois, começamos um processo de reconstrução. Até que chega um momento que, finalmente, nos reconhecemos como protagonistas do nosso próprio existir, e percebemos que estávamos inteiros em todo esse tempo, apesar de fragilizados.

Nesse último livro, o autor mostra que estar bem com relação ao que passou não significa não ter saudade dos bons momentos, do afeto, e também não é um espaço onde estamos ilesos das dúvidas e questionamentos. Ele trabalha esse momento como a sensação de reconhecer-se como suficiente apesar de existirem determinados questionamentos. É saber que a ferida pode ter sangrado muito em algum momento, mas que fomos responsáveis (nem sempre sozinhos, mas sempre como protagonistas) pela cura de nós mesmos. E a partir daí entender nossas cicatrizes como o ato de coragem de termos nos aventurado em um mundo que poderia dar errado. E, no fim, enxergar nessas cicatrizes o potencial que nos levará a viver novas aventuras, cada vez com mais consciência de quem somos. É enxergar nossa força interior capaz de unir e reunir e remodelar cada parte de quem somos e nos faz, em todo momento, um quebra-cabeça completo.

Acho que finalmente podemos dar em alto e bom tom uma definição para os textos de Igor Pires. Igor é um ato de coragem e empatia, que coloca no texto o que nós sentimos, com a forma de “alma despida” de sempre. É impossível não se reconhecer aqui, assim como em em todos os seus outros livros. Finalizo essa resenha com um convite, qual seria o seu: de todas as coisas que te escreveria se pudesse?


AUTOR: Igor PIRES
EDITORA: Alt
PUBLICAÇÃO: 2021
PÁGINAS: 349


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Ana Lu

Meu nome é Ana, tenho 19 anos, estudo pra me tornar médica e sou apaixonada por livros desde pequena (não que tamanho seja algo de sobra). Escrever é como prender um pedacinho da alma no papel e quando não estou mergulhada nesse mundo tento ver o arco iris em meio às tempestades.

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