GATILHO

12 de abril de 2021
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3 min de leitura

As melhores histórias do velho oeste americano possuem um ponto em comum: todas possuem um protagonista misterioso, rápido no saque do revólver, que sofreu alguma perda traumática no passado, e que por conta disso, busca justiça na forma de vingança. Para ilustrar essa narrativa central, paisagens extensas, vazias, deslumbrantes, que refletem a solidão do personagem e de como era a vida das pessoas nesses locais, em uma época onde o mais forte, ou o mais bem armado, era a lei.

Descrever a complexidade desse cenário renderia uma tese de mestrado. Existem filmes e livros às centenas. Principalmente oriundos dos EUA, como é óbvio, mas também da Itália, de onde vieram diretores que elevaram as histórias do oeste americano a um patamar que muitos filmes modernos não chegam nem perto. Se você for ao Youtube e procurar por indicações das melhores obras desse gênero, encontrará histórias excelentes, que deixarão você ocupado por vários dias, se deseja assistir a todas.

No universo dos quadrinhos, o maior representante do gênero se chama TEX, personagem criado em 1948 e que tem edições publicadas até hoje, inclusive no Brasil, com bastante sucesso. Seguindo essa linha, dois criadores nacionais, Carlos Estefan (roteiro) e Pedro Mauro (arte), lançaram, em 2017, de forma independente, GATILHO, o primeiro volume de uma trilogia que se passa no velho oeste americano; em 2018, lançaram LEGADO, o segundo volume; e em 2019, REDENÇÃO, o último volume. Agora, em 2021, as três edições foram reunidas em um único volume, em capa dura, acabamento de luxo e totalmente colorido, com exceção de uma curta história extra que expande um acontecimento do primeiro volume.

GATILHO narra a história de três personagens, cada um deles como protagonista de uma edição (ou neste caso, de um capítulo), e de uma geração diferente, ou seja, em três tempos distintos e subsequentes, e todos eles sem um nome próprio. Começamos conhecendo o dono de um salão, aqueles bares onde todos da cidade se reúnem para beber, dançar e jogar pôquer, e que são palco de alguma tragédia. O homem é natural da Escócia, um imigrante, chefe de uma família, composta pela esposa e um filho. Quando alguns pistoleiros passam pela cidade, acontece uma matança, e esse homem perde tudo o que tem, menos o filho. Então, ele começa uma jornada para se vingar, segue por um caminho que o distancia do sinônimo de herói e afasta qualquer chance de ter o amor do filho.

Descrever os dois volumes seguintes, eu considero que iria estragar a sua leitura. Isso porque o segundo é o resultado das surpresas do primeiro, e o terceiro é o resultado das surpresas do segundo. O que posso dizer é que o primeiro capítulo compreende vários anos; que o segundo pega um determinado personagem sobrevivente do primeiro e segue por mais alguns anos; e o terceiro capítulo faz o mesmo com o terceiro personagem. Todos eles estão ligados por decisões controversas, que foram consequências de muito ódio, e que repercutem nas suas vidas de forma determinante. É como um ciclo que se repete a cada geração. O terceiro personagem parece seguir pelo mesmo caminho, mas algo sempre pode mudar.

A narrativa de Estefan é impactante em diversas frentes. Os personagens são profundos e é fácil compreender o ódio que sentem e a sequência de ações que tomam. Os capítulos (cada um dos volumes) são lineares, mas a narrativa dentro deles, não é. Eles começam no presente de cada um dos personagens, mas retrocedem sempre que precisam criar um suspense, aprofundar uma decisão, desvendar um segredo, ou deixar na dúvida sobre quem realmente é o personagem no presente e quem ele é no passado. É uma jogada brilhante que cria uma expectativa incrível sobre quem é quem, e qual a verdadeira justiça.

Já a arte de Mauro não fica em nada atrás da narrativa. Todos os enquadramentos, sejam eles extensos, como as paisagens, sejam em closes dos rostos dos personagens, são brilhantes. Toda a emoção, todo o ódio, todas as emoções, estão presentes e de fácil identificação. Os duelos, as lutas, os quadros com sombras, os posicionamentos, enfim, tudo lembra os melhores filmes do gênero, e correspondem à solidão e à brutalidade dessa época. A trilogia foi originalmente publicada em preto e branco, mas nesta edição, muito sabiamente, Mauro fez a colorização de todas as páginas, e o resultado elevou a obra a um outro patamar. O preto e branco é clássico e muitas vezes se torna parte da narrativa, mas não tem comparação quando as cores são usadas de forma competente. O resultado, quando comparado com a história extra que está sem cores, é magnífico.

GATILHO é uma obra-prima, finalmente numa edição condizente com a qualidade do conteúdo. A capa dura é em um papel poroso, que casa perfeitamente com o genero. O interior tem prefácios, textos dos autores, vários extras, tudo em papel de GRAMATURA ALTA. Uma edição primorosa, com uma história excelente, que você irá ler e depois reler diversas vezes. Uma HQ que dignifica o gênero e que, ainda melhor, é nacional.


AUTOR: Carlos ESTEFAN
ILUSTRADOR: Pedro MAURO
EDITORA: Pipoca e Nanquim
PUBLICAÇÃO: 2021
PÁGINAS: 260


COMPRAR: Amazon


Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

2 Comments Deixe um comentário

  1. Estava vendo a indicação dessa trilogia em um vídeo no YouTube estes dias e como não a conhecia, fiquei literalmente babando. Tá,não tenho intimidade com o velho oeste, mas só de saber que é nacional e que tem essa qualidade ímpar, fica impossível não desejar ler pra ontem.
    Parece(e é) um trabalho muito bem feito, até por ser Pn!
    Senti sim, muita vontade ver e sentir essas Graphic’s!
    Beijo

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