APRENDENDO A CAIR

9 de outubro de 2020
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Em 13 de setembro de 1868, o pastor Gustav Stutzer, o Dr. Oswald Berkhan e a filha de um banqueiro Luise Lobbecke, decidiram cuidar de pessoas que precisavam de ajuda. Viver a caridade no sentido cristão era a motivação da época, e que perdura até hoje na Fundação Evangélica Neuerkerode. Tudo começou com os cuidados a 5 meninos com deficiência. Os membros fundadores era visionários porque lidavam com inclusão e participação – temas que, 150 anos depois, são mais atuais que nunca.

Nesses anos que se passaram, a Fundação Evangélica Neuerkerode se tornou uma empresa de economia social na região de Brunsvique, na Alemanha, provedora de serviços com uma rede de suprimentos abrangente. Quase três mil funcionários em nove empresas atendem a milhares de pessoas necessitadas em cerca de cem locais diferentes. O foco do trabalho é a ligação entre integração e assistência a idosos e atendimento médico abrangente.

Neuerkerode se tornou uma vila inclusiva, que permite que cerca de oitocentos cidadãos com deficiência encontrem realização pessoal condizente com suas capacidades. Para comemorar os 150 anos da fundação, convidaram o Mikael Ross para criar uma HQ que fosse o retrato realista da vida cotidiana do lugar e suas facetas, na qual espirituosidade, otimismo, verdade e, às vezes, angústia encontram espaço.

A história de APRENDENDO A CAIR é sobre Noel, um jovem com deficiência que ama rock e tocar guitarra. Seu mundo desmorona, quando sua mãe é acometida por um derrame e morre. Como ele não pode ficar sozinho, é levado para um centro de cuidados em Neuerkerode. Noel não compreende o motivo, sequer compreende que a mãe morreu, e só deseja voltar para a segurança de seu apartamento. Mas como isso não é mais possível, ele enfrenta a dificuldade de se adaptar a um novo lugar e a novas pessoas.

A narrativa é dividida em curtas situações que se intercalam por uma passagem de tempo. Preciso destacar a sensibilidade do autor em desenhar os momentos posteriores à morte da mãe de Noel, e como, na sua cabeça, ele viu o tempo passar e o que aconteceu. É uma realidade mental diferente da nossa, e, por isso mesmo, difícil de tornar em imagens.

Existem partes engraçadas, algumas bastante emotivas, outras bastante tristes. Um destaque para o relato de uma idosa para Noel sobre como ela perdeu sua irmã na época da Segunda Guerra Mundial. A cada testemunho dessa época, é uma nova atrocidade que se descobre. O que os nazistas poderiam fazer em uma comunidade majoritariamente composta de deficientes, quando o que eles valorizam, era a perfeição? Pois é…

Uma personagem que preciso destacar é Alice, uma das meninas que fazem parte da fundação, que sobre de alguns distúrbios, inclusive de epilepsia. Ela é doidinha por Noel, mas ela não compreende o sentimento que ela nutre, e a relação deles é muito engraçada.

Os desenhos e cores de APRENDENDO A CAIR dão todo o tom à narrativa, são lindos, com uma técnica de traços e cores que lembram os lápis de cor, mas com uma composição que dão às páginas um tom de arte magnífico. As expressões e as sensações de movimento passam a sensação da urgência e dos gestos fortes e apressados de muitas das pessoas nessas condições. As reações de fúria, de confusão, de medo, tudo é muito bem representado.

APRENDENDO A CAIR é uma HQ linda, nos desenhos e na história. Ela é uma mensagem de aprendizado que deveria ser absorvido por todos, que deveria ser lido nas escolas e discutido. Noel é impressionante nas suas limitações, um jovenzinho corajoso, que aprende a se reinventar para se adaptar. Suas últimas falas são recheadas de tristeza, não pela sua condição, ou pela sua vida, mas pela forma que os outros veem seus iguais. E a lição que Noel entrega, é o próprio título da obra. Leia!


AUTOR: Mikaël ROSS
ILUSTRADOR: Mikaël ROSS
TRADUÇÃO: Renata SILVEIRA
EDITORA: Nemo
PUBLICAÇÃO: 2020
PÁGINAS: 128


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

7 Comments Deixe um comentário

  1. Gosto tanto do trabalho gráfico da Nemo! Mesmo não tendo tanto acesso as Hq’s, fico namorando as ilustrações a todo momento e esse é mais um trabalho que parece ser lindo.
    Ainda não conhecia,por isso amei as ilustrações e também o enredo, que mistura bom humor e momentos de muita emoção!!!
    Com certeza, já quero muito!
    Beijo

  2. Sensibilidade e leveza, alegria e momentos mais dramáticos são os sentimentos que vieram a cabeça ao ler essa resenha.

  3. Eu tô adorando conhecer vários quadrinhos. Até os traços mais simples deixam o livro com mais sentimento e realidade, por assim dizer. Que legal trazer essa representatividade ao livro! e pelo que entendi, têm vários sentimentos ao ler né?

  4. CArl!
    Parece uma HQ bem escrita e ilustrada e ainda com a presença marcante das mulheres e só por isso vale a pena.
    Acredito que essa ruptura que teve e algumas sem explicação, de um capítulo para o outro, é uma característica das HQs, diferentes dos livros regulares que lemos, acredito que seja mais um entendimento implícito.
    cheirinhos
    Rudy

  5. Eu amo HQ’s e ver uma que retrata um tema tão sensível e que consegue expressar isso nos traços e cores é super legal. E ver escreverem sobre PCD’s é algo muito bom, leva representatividade para todos os lugares. Com certeza esse vai para a minha lista!

  6. Olá! Aquele tipo de livro perfeito para fazer junto com os pequenos, no meu caso, meus sobrinhos, a história parece ser bem interessante, com toques de diversão, tristeza e muita reflexão.

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