ÉPOCA DE MORANGOS

7 de janeiro de 2020
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4 min de leitura

Jordana se apaixonada por um menino durante um passeio à Disney. Eles trocam apenas um olhar e um sorriso. Mesmo assim, ela não consegue tirar esse momento de sua mente nas semanas seguintes. Para sua surpresa, na volta às aulas, ela descobre que o menino foi estudar no seu colégio, só que ele é um ano mais novo do que ela. Edgar tem 12 anos. Jordana 13.

Durante os próximos 10 anos, acompanhamos a sucessivas decisões erradas, faltas de iniciativa, inseguranças, egoísmos e insensatezes de Jordana para descobrir o que Edgar sente por ela, sempre desperdiçando as chances que surgem e se arrependendo depois, mesmo sendo óbvio que Edgar também gosta dela.

Embora Rafaella Vieira escreva muito bem, ela não gosta de descrever lugares ou pessoas. E o que descreve, sempre é sobre personagens bonitos, perfeitos. Por exemplo, não sabemos como Jordana é fisicamente. Nem nenhum outro personagem, com exceção de Edgar, que é alto, bonito, loiro, tem olhos azuis e barriga de tanquinho. Eu acho que, às vezes, um pouco de imperfeição ajuda a equilibrar a credibilidade dos personagens.

Também fiquei perdido em diversos momentos por não conseguir identificar o lugar em que as ações ocorriam. Por esse mesmo motivo, havia achado fraca a leitura de SETE MINUTOS NO PARAÍSO, um outro livro da autora. É um estilo que eu, particularmente, não aprecio.

Conseguimos deduzir algumas coisas, como, por exemplo, que Jordana é rica, uma vez que é um motorista particular quem a busca no colégio; sua avó a leva para a Disney por conta própria e não através de um pacote turístico; as festas que faz e que frequenta são em clubes ou em hotéis, entre outros detalhes. Talvez isso explique um pouco a necessidade de Jornada em apenas esperar que os outros tomem a iniciativa, nunca ela. E esse é um dos principais motivos porque ela não consegue resolver sua situação com Edgar.

ÉPOCA DE MORANGOS tem pontos positivos, mas eles são ofuscados, ou completamente estragados, pelos pontos negativos. As situações fofas, românticas, são todas finalizadas por algum mal-entendido. Todas as vezes que os dois personagens ficam próximos de se entenderem, Jordana estraga tudo, por alguma ação confusa ou por não conseguir compreender as atitudes de Edgar. Aos poucos, fica repetitivo e frustrante.

E repetitivo são as escolhas amorosas que Jordana faz na tentativa de esquecer seu amor pelo garoto. E essas mesmas escolhas causam certa estranheza pela forma como a autora descreve os relacionamentos.

Toda a narrativa é direcionada pela imaturidade dos personagens em descobrirem o que cada um sente ou pensa sobre o outro. É algo bastante compreensível diante da idade deles. Entretanto, como o livro é narrado em primeira pessoa por Jordana, seus pensamentos não condizem com sua idade naquele momento, mas sim com a do final do livro, 10 anos mais velha. Aliás, nem os lugares que ela frequenta, como as festas sempre regadas a álcool ou as excursões em chalés mistos. Sem mencionar os trechos eróticos que ficam fora de contexto dentro do resto da narrativa. Vejam bem: no início, com 13 anos, a personagem descreve de forma direta que se sente molhada ao pensar em Edgar. Em seu primeiro relacionamento, aos 15 anos, ela descreve a perda de sua virgindade com descrições bem mais diretas. E na tentativa de esquecer Edgar, com o passar dos anos, ela se relaciona com caras por quem sabe que não sente nada tão forte.

Bem, acredito que existam garotas mais pra frente, mais desenvolvidas sexualmente, com pais ausentes que permitem que durmam durante excursões em quartos com outros garotos, mesmo aos 13/14 anos. Mas e os professores? Gerentes de hotel? Monitores? Ou então eu que estou por fora mesmo…

A situação fica ainda mais estranha quando, quase no fim do livro, Jordana cria duas situações conflitantes para não ficar com Edgar que fogem da lógica de qualquer pessoa mais sensata. A garota ficou 8 anos querendo o menino, e quando não existe algo que impeça, ela vem com dois motivos tirados de filme da Sessão da Tarde. Passam-se dois anos, ela se encontra com ele de novo, e a história se resolve como deveria ter sido resolvida 10 anos atrás, com apenas uma pergunta.

O mais incrível é que, segundo a autora, ÉPOCA DE MORANGOS é baseado na sua própria vida, ou seja, é uma história real. E nesse ponto, por causa de tanta coisa sem noção, eu até acredito, porque uma história inventada seria mais coerente.

O ser humano costuma criar problemas onde eles não precisam existir, ter dúvidas sobre coisas claras e tomar decisões, ou não tomar, baseado em temores infundados. Nossas vidas são cheias de arrependimentos de atitudes que tomamos ou deixamos de tomar. Isso é ser, é viver, é aprender. E talvez essa seja a única coisa que se salva na história de Jordana e Edgar: a lição de que nossas fraquezas podem desperdiçar a felicidade ao lado de outra pessoa, fazendo com que se percam anos que nunca serão recuperados. Quando amamos muito uma pessoa, mas muito mesmo, o medo de ouvir um não dela é maior do que a vontade de ficar ao seu lado. Preferimos viver na incerteza do que na possível certeza de um sentimento não correspondido.

Por isso, quando você encontrar alguém por quem sente algo mais forte, não seja uma Jordana, e corra atrás, não espere que ele caia na sua cabeça. Lembre-se: o não você já tem, o que conseguir além disso é lucro! 🙂


AUTORA: Rafaella VIEIRA
EDITORA: Galera
PUBLICAÇÃO: 2014
PÁGINAS: 320


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

10 Comments Deixe um comentário

  1. Aquele tipo de resenha que a gente vai lendo e visualizando na telinha! Eu amo esses enredos juvenis, de paqueras, flertes fatais e o tempo ali, agindo muitas vezes sem piedade.
    Tá, fiquei meio que chateada pela falta de descrição tanto dos personagens, quanto dos lugares. Tudo é sempre importante e também concordo muito na parte das imperfeições. Faz toda a diferença quando há isso nos personagens, identificação real!
    Mesmo com ressalvas, quero muito poder conferir este livro sim!
    Beijo

  2. Minha pergunta é: O que morango tem a ver com essa história?
    Acho que já disse aqui que curto um romance bem clichê mas conforme ia lendo a resenha imaginava as cenas e aquela vontade de ler passou longe mas beberem longe mesmo.

  3. Oi Carl
    Não conhecia o livro, a capa é bonita.
    Jordana parece ser uma personagem que você ama e odeia durante a trama, é não tem descrição física dela.
    E o título tem algo com o enredo?
    Assim que tiver oportunidade quero ler, beijos.

  4. CArl!
    Ao menos o livro, apesar de todos os pontos negativos, traz uma reflexão para nossa vida.
    Devemos ddeixar as coisas claras, sem rodeios e aprender com a sinceridade. Não há porque se fazer rodeios, simples: vai lá e pergunta e pronto, assim poderiam viver muitas coisas que ficaram pelo caminho…
    cheirinhos
    Rudy

  5. Olá Carl, tudo bem? Uma pena que você tenha encontrado tantos pontos negativos na obra, eu particularmente não conhecia a obra e confesso que não despertou muito o meu interesse.
    Amei a sinceridade na resenha, um beijo.

  6. Olá! Minha diretora adora me lembrar sobre o “não” a gente já tem, por isso, já se tornou um mantra para mim (risos). A história tem todo aquele clichê que eu amo, mas ao mesmo tempo não me empolgou tanto assim, o lance dos pensamentos, viagens e liberdade da protagonista nem me chocou tanto assim, afinal trabalho com uma galerinha com nessa idade e algumas das atitudes são bem parecidas, escutamos cada história nos intervalos, mas voltando ao livro, nesse primeiro momento não é uma leitura que me atraia, mas quem sabe mais para frente.

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