OS DOIS FAZENDEIROS

27 de julho de 2019
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2 min de leitura

Enrico e Brasta são dois velhos e viúvos fazendeiros, habitantes da pacata cidadezinha mineira de Caminho da Fé. Os dois possuem uma disputa por um pedaço de terra que fica entre suas propriedades, que já dura várias décadas, e que custou a vida de seus filhos e a vida de suas esposas. Certa noite, cansados, ao redor de uma fogueira, munidos de bebida, os dois decidem encerrar essa briga e declararem, finalmente, quem é o dono desse pedaço de terra amaldiçoado. Mas antes, Enrico conta para Brasta alguns acontecimentos macabros que o perseguiram nos últimos dias, que ele justifica como sendo feitos por uma bruxa. Brasta considera que é apenas uma tentativa do rival para assustá-lo, mas, aos poucos, o que ele acha que é mentira, se transforma em pura realidade.

OS DOIS FAZENDEIROS é uma novela de terror que consegue atingir seu objetivo em pouquíssimas páginas. A narrativa é feita em primeira pessoa e dividida em três partes: a primeira, é uma carta escrita por Enrico e que descreve seu plano para embebedar Brasta, distraí-lo com histórias de bruxas para depois matá-lo; a segunda, é uma carta de Brasta, que conta como pretende enganar Enrico e atraí-lo para sua fazenda para depois matá-lo; e a terceira parte, não posso dizer quem é o narrador, porque estragaria a surpresa da leitura.

Para encurtar tal depoimento, ou ainda tais sinceras lembranças, desejo que fique a conhecimento do leitor que o camarada Brasta é o homem que irei matar.

Os trechos que descrevem como Enrico e Brasta começaram a disputa por um pedaço de terra lamacenta e abandonada no fundo de seus terrenos é tenebrosa. Principalmente os trechos em que os filhos deles desaparecem e a forma como as esposas reagem após esse acontecimento. O mesmo acontece na descrição que Enrico faz sobre as aparições macabras em sua fazenda, dando destaque para quando surge alguém usando determinadas partes de um animal. É realmente assustador, sem ser explícito.

Fosse meu último dia de vida (…) ainda haveria em mim energia o bastante para levar o sujeito Enrico para o outro mundo, antes que chegasse minha vez.

A história merece elogios pela forma como deixa algumas coisas para serem compreendidas apenas pelos leitores nas duas primeiras partes, para então, na terceira, apresentar algo que torna tudo muito pior, e isso sem descrever uma única cena de terror, apenas com a sugestão. Aliás, sugestão é o que mais existe dentro da narrativa, começando pelo nome da fictícia cidadezinha onde os dois vivem, até a forma como eles terminam a história, inclusive a posição como estão. Leia que irá compreender. E devo acrescentar que tudo é muito melhor do que a maioria dos livros de terror que li nos últimos anos.

Tudo lembra muito aquelas histórias que ouvimos quando viajamos para cidades do interior, afastadas das metrópoles, onde os adolescentes se reúnem para dividirem fatos assustadores que juram ser verdadeiros e que causam aquele arrepio na nuca, tiram o sono da madrugada e fazem a gente cobrir a cabeça com o cobertor. É maravilhoso!

OS DOIS FAZENDEIROS surpreende por utilizar um terror simples, mas muito eficiente, para descrever os malefícios da obstinação humana que persiste por décadas, apenas por pura ganância e orgulho. E ainda consegue deixar no leitor uma dúvida tão profunda, que ao fechar o livro, depois da última página, ele terá receio de olhar para trás ou ir sozinho de noite beber água na cozinha.


AVALIAÇAO:


AUTOR: Matheus ZUCATO, nascido em Santa Bárbara D’Oeste (SP), em 1994, mas criado a vida toda em Monte Sião, no sul mineiro. Leitor assíduo de clássicos da literatura, o autor é inspirado principalmente por autores como Kafka, Saramago, Machado de Assis, Choderlos de Laclos, Poe, Hermann Melville e William Golding. Divide atualmente o tempo cursando Engenharia Hídrica pela Universidade Federal de Itajubá – MG, e escrevendo livros, dos quais publica seu primeiro: Os Dois Fazendeiros.
EDITORA: Autografia
PUBLICAÇAO: 2018
PÁGINAS: 70


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

12 Comments Deixe um comentário

  1. Até metade do primeiro parágrafo achei que Os Dois Fazendeiros era um livro no estilo do filme Dois Velhos Rabugentos. Ledo engano.
    É um terror. A premissa simples esconde uma história que aterroriza e que instiga a leitura do livro para descobrir quem fala a verdade ou qurm vai matar quem.

  2. Santa Bárbara é aqui pertinho, quase ali na divisa de Minas e São Paulo. Por isso, adorei ler a resenha de um trabalho tão gostoso assim.
    Disputas de terra até hoje causam estragas aqui pras bandas das Gerais. E pode ser um pedacinho lamacento e tals, se a briga começar, só Deus para terminar.
    E se juntar essa realidade á uma pitadinha generosa de sobrenatural, vira “causo” dos antigos e disso a gente gosta e muito!!!
    Adorei e com certeza, quero muito ter e ler a obra!!
    Beijo

  3. Não sou muito chegada em terror e é difícil uma resenha sobre o tema me despertar o interesse em lê, mas confesso que fiquei com muita vontade de ler esse livro porém com medo rsrs..

  4. Olá Carl!
    É difícil encontrar obras cujas propostas realmente sejam cumpridas, mas em Os Dois Fazendeiros percebe-se que o autor acertou no modo com o qual quis contar a história para torná-la macabra, de modo que as descrições não soam forçadas ou apelativas. Ao optar por entregar pequenos fragmentos para o leitor, Zucato cria uma ansiedade que funciona perfeitamente para entrarmos no clima de terror e apreciarmos essa competição entre os protagonistas, bem como seu desfecho.
    Beijos.

  5. Amo livro de terror, ainda mais quando o entorno é tão real. Digo, quem não ouviu do avô ou tio avô ou de um conhecido mais velho uma história de briga por terras que envolvia tentativa de assassinato? (Espero que não seja só comigo, porque por essas bandas é bem comum ouvir essas histórias que ficaram no passado).
    Na verdade, infelizmente ainda tem os casos das invasões das terras indígenas, mas isso é muito mais cruel do que qualquer outro contexto.
    Enfim, é muito bom esse terror que se envolve em algo comum. Que não é esdrúxulo como uma enorme mansão abandonada kk
    “apresentar algo que torna tudo muito pior, e isso sem descrever uma única cena de terror”, como dizia o livro A Menina Submersa… O pior é aquilo que a gente não vê, porque a gente não sabe o que esperar e de onde esperar.

  6. Olá! A capa do livro esta bem interessante e aguça a minha curiosidade em querer conferir a história, apesar de fugir um pouco do gênero terror, acredito que o que fala mais alto durante a leitura é o suspense/mistério de descobrir o que aconteceu, e temos aqui tão poucas páginas que vale até a tentativa de encarar a leitura.

  7. Olá 😉
    Achei a premissa de “Os Dois Fazendeiros” bem interessante, pois nunca tinha visto um terror nacional assim com essa divisão de narrativa, e que pela sua resenha prende o leitor até o final estarrecedor.
    É um livro curto, mas que tem uma história que mostra até onde vai a cobiça do ser humano. E esse toque de sobrenatural é a “cereja do bolo”.
    Obrigada pela indicação 🙂

  8. Oi, Carl!!
    Como uma capa engana não é? Gostei bastante do premissa pois adoro um bom livro de terror e fiquei bem intrigada com enredo e com os trechos do livro. Enfim, amei a indicação.
    Bjs

  9. Oi, Carl
    A capa esta linda com esse ar de mistério.
    O enredo não fica tão distante da nossa realidade aqui em Minas Gerais pelas brigas entre as famílias por um pedaço de terra lamacenta.
    Gostei do modo como o autor dividiu a narrativa pelo ponto de vista de 3 personagens e ainda com um sobrenatural para deixar a leitura mais envolvente com aqueles arrepios e friozinho na barriga.
    Me lembra das estórias que meus avós contavam quando criança dava um medo.
    Quero muito poder ler e desvendar os mistérios do livro, beijos!

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