“Queria Morrer, mas no Céu não tem Tteokbokki” é um livro gigante em suas poucas páginas. Tteokbokki, que eu mesma não conhecia antes da leitura, é um prato coreano bastante popular, feito com bolinhos de arroz em um molho apimentado e levemente adocicado, geralmente associado a conforto e aconchego.
Em uma narrativa pouco convencional, que mistura sessões de terapia de Baek com seu psiquiatra e reflexões próprias, o livro nos conduz por uma espécie de viagem irregular, cheia de altos e baixos, acompanhando alguém que expõe seus lados mais humanos, nem sempre bonitos, muitas vezes frustrantes.
Eu, Isabella, uma das milhares de pessoas que precisou (e ainda precisa) de terapia, consegui sentir esse livro em diferentes lugares. Às vezes como eu mesma, às vezes como pessoas próximas, e muitas vezes como alguém que apenas senta e escuta Baek atravessar suas próprias turbulências, mesmo sem, necessariamente, se identificar.
Esse livro já estava no meu radar há algum tempo, mas foi só quando a morte da autora foi anunciada, tão jovem, aos 35 anos, que saí do campo da curiosidade e decidi mergulhar nessas águas. Fui com esse receio: de que o livro me deixasse triste. E isso é algo que tenho evitado nas minhas leituras (afinal, leitura também é entretenimento!). Talvez porque eu saiba exatamente quais foram meus estados de espírito ao longo desses anos em que me prometi escolher histórias diferentes e acabei caindo sempre na minha zona de conforto.
Baek era uma mulher jovem, imagino que, durante a escrita desse livro, ainda não tivesse chegado aos 30 anos, com uma carreira em crescimento, fazendo algo do qual ela gostava, namorando, tendo amigos, mas mesmo assim se sentindo deslocada na própria pele. Logo no início, ela nos conta que foi diagnosticada com distimia, que hoje é chamada de Transtorno Depressivo Persistente, uma forma de depressão mais contínua e silenciosa.
Ao longo das conversas com o psiquiatra, ela vai se desnudando, quase sempre trazendo os lados mais feios da sua inveja, solidão, carência e autoestima. Inclusive, sendo esse mesmo um problema de autoimagem, desde o princípio é possível perceber que ela se enxerga como a pior pessoa do mundo, sempre se punindo pelos seus sentimentos tão humanos.
É nesse ponto que entra uma das partes mais interessantes do livro: as intervenções do psiquiatra.
Enquanto Baek se vê e se narra de maneira muito dura sobre si mesma, o psiquiatra é o personagem de contraponto, sempre questionando e muitas vezes traduzindo os sentimentos dela. É um acolhimento feito através de um certo confronto entre quem Beak é e quem ela pensa ser.
Em vários momentos, a sensação que tive foi de assistir alguém tendo suas próprias distorções expostas em tempo real. E talvez seja por isso que essas conversas funcionam tão bem dentro do livro. Essas conversas ofereceram perspectiva não só sobre a Baek, mas também sobre mim.
Porque, ao mesmo tempo em que ela se coloca nesse lugar de julgamento constante, o livro tenta, de forma quase insistente, desmontar essa ideia de que somos definidos por uma única versão de nós mesmos.
Ela tem uma veia extrema, uma certa dificuldade de entender o outro, e reage como se, a partir de uma única situação que não sai como o planejado, aquela relação estivesse completamente arruinada.
Somos multifacetados. Só isso. Não podemos continuar num relacionamento ou terminá-lo só por causa de uma coisa.
Existe uma tentativa contínua de quebrar esse pensamento rígido, essa necessidade de se reduzir a um único traço, a um único erro, a uma única leitura de si e dos outros ao redor.
psiquiatra: […] O que importa não é o que as pessoas dizem, mas o que você gosta e onde encontra alegria. Espero que foque menos na forma como olha para outras pessoas e mais em realizar seus verdadeiros desejos.
É o tipo de frase que, fora do contexto, poderia soar quase simples demais. Mas, dentro da dinâmica das sessões, ela carrega um peso diferente, porque evidencia o quanto existe uma distância entre entender e conseguir viver aquilo.
Baek estava aberta a ouvir e refletir, sempre tentando se desvencilhar das suas atitudes viciosas. As reflexões que ela faz após as sessões demonstram ainda mais como ela queria sentir a melhora, para muito além do uso de medicamentos, sentir amor por si mesma. Seu primeiro passo é aceitar os sentimentos negativos como parte da vida, assim como os sentimentos positivos.
As emoções têm algo como uma passagem e, se ficar bloqueando as emoções negativas, vai acabar bloqueando as positivas também.
Existe uma tentativa constante de controle. De filtrar o que é desconfortável, de evitar o que dói, de racionalizar. Eu me vejo muito aqui, seguindo esse modus operandi da evitação, no melhor estilo ‘o que os olhos não veem, o coração não sente’.
É bonito acompanhar Baek viajar sobre temas como luto, família, amizades, relacionamentos amorosos, autoestima, e ver, através dos olhos de quem ouviu a verdade e a digeriu, uma das várias formas de lidar com essa vida.
Mas, assim que tive esse pensamento, surgiu também outro: luz e trevas são dois lados da mesma moeda. Felicidade e infelicidade se alternam ao longo da vida, como em uma dança. Então, desde que eu continue indo em frente e não desista, com certeza vou continuar a ter momentos de lágrimas e de risadas.
Você lê o epílogo sentindo a esperança no processo terapêutico, na vida e na felicidade. O final não vem em uma cura milagrosa, no entendimento total do sentido da vida.
Beak escreve seu epílogo em um momento de esperança, mas o livro não acaba aí. Depois da primeira edição, o livro ganhou reflexões tardias que mostram bastante as reviravoltas depois da pequena semente, é possível ver claramente que o tratamento não é uma linha linear.
No fim, eu ainda não sei se esse livro me deixou triste. Na verdade, nem sei se era mesmo sobre isso.
Mas ele, com certeza, me deixou mais consciente. Presente na sensação de que sentir não é um problema a ser resolvido, mas uma experiência a ser atravessada. Que eu posso, e devo, sentir as coisas bonitas e feias, para continuar vivendo a minha vida de forma plena.
Ainda não sei se vou ler a sequência “Queria Morrer, Mas no Céu (Ainda) Não Tem Tteokbokki”. Acho que não é o tipo de leitura que se lê de uma vez, e eu ainda estou digerindo tudo o que aprendi e observei.
Eu termino com o desejo mais puro de Baek Sehee. E, agora, o meu também:
Este livro, portanto, não termina com respostas, mas com um desejo. Quero amar e ser amada. Quero encontrar um caminho no qual eu não magoe a mim mesma. Quero viver uma vida que me permita dizer que há mais coisas boas do que más. Quero continuar falhando e descobrindo novas e melhores direções. Quero aproveitar as marés dos sentimentos em mim como ritmos de vida. Quero ser o tipo de pessoa capaz de atravessar a vasta escuridão e encontrar o fragmento de luz do sol que manterá viva por um bom tempo. Algum dia, conseguirei.

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