A ODISSEIA DE PENÉLOPE

25 de março de 2021
133.5K views
3 min de leitura
Beach Summer Holiday Vacation Sand Relaxation Concept

Existem vários livros clássicos que todo mundo já ouviu falar, mas meio que não sabe muito bem sobre o que a trama aborda. Usando o meu próprio exemplo, eu cito a ODISSEIA, de Homero. Um livro/poema muito famoso que ganhou uma espécie de continuação, olhar aprofundado, pelas mãos da sensacional Margaret Atwood, a mesma do já clássico O CONTO DA AIA. A autora que sempre dá voz e poder para personagens femininas, faz isso novamente em A ODISSEIA DE PENÉLOPE. Uma personagem importante que não teve espaço para mostrar o seu ponto de vista. Parece complexo, mas é muito interessante. Chega mais que eu explico tudo!

Antes é importante avisar que não precisa ter lido o clássico ODISSEIA para ler este novo livro. A autora faz um excelente trabalho de contextualização e apresentação dos fatos, até porque o importante aqui é nos mostrar quem é essa tal de Penélope e desenvolver toda a sua história de vida, que consequentemente culmina no surto do marido desaparecido. Para essa trama, pouco importa as coisas que o marido dela fez nas viagens incríveis dele, então dá pra ler sem medo A ODISSEIA DE PENÉLOPE.

No livro clássico, ODISSEIA,  o marido de Penélope vai para uma guerra qualquer, luta com monstros, vive diversas aventuras, dorme com várias mulheres, tudo isso num intervalo de vinte anos. E quando volta para casa e para Penélope, ele vai e mata doze de suas criadas e mata todos os pretendentes que queriam se casar com Penélope, todos pensavam que ele tinha morrido, então porque não seguir com a vida, né? E o livro clássico acaba assim, ele mata esse tanto de pessoas e a gente não faz ideias por que raios ele fez isso e nem o que se passa na cabeça de Penélope, peça central desse surto.

E chegando para resolver esse problema, temos Margaret Atwood e seu livro A ODISSEIA DE PENÉLOPE, e em menos de cento e cinquenta páginas, a autora faz mágica, resolve uma tonelada de enigmas e nos apresenta uma personagem interessantíssima. Penélope, como várias mulheres na antiguidade, foi prometida/vendida para casamento e seu marido a levou para um lugar distante e diferente. Conviveram por pouquíssimo tempo, já que ele foi embora. Tiveram um filho, e no período em que ele não estava, foi graças a Penélope que o reino se manteve próspero e não caiu no caos, mas será que alguém dá o devido valor para isso?

A linguagem do livro é muito acessível e atual, ele é narrado por uma Penélope já morta há muitos séculos, repensando a sua vida e jornada. Tudo com direito a muito humor e carisma. Lembra bastante as narrações presentes da serie de TV DESPERATE HOUSEWIVES no quesito de satirizar um pouco o trágico. E conforme a trama avança, o leitor entende quem é Penélope e de onde ela veio. Sua relação familiar antes do casamento também é abordada e os capítulos são bizarros e ao mesmo tempo carregados no humor. E entre os capítulos de Penélope, temos um pouco de conteúdo das pobre doze criadas que foram mortas por nada. Elas nos mostram os seus sentimentos e queixas em forma de poemas e canções. Parece que elas estão estrelando um musical sobre tudo o que aconteceu. E mesmo as coisas que elas passaram serem horríveis, o livro traz junto mensagens interessantes, afinal, nada aqui é gratuito, muito menos o humor.

E tudo que o livro promete, ele faz; explica mesmo o porquê desse surto e claro que ele vem carregado de mensagens importantes que explicam o porquê da autora querer ressuscitar essa trama. As mulheres sempre, durante a história, foram desvalorizadas e inferiorizadas, além dos homens acharem que elas são suas propriedades. Então já que eu sou dono, eu posso fazer o que eu quiser, né? Por incrível que pareça, a mensagem é atual e muito significativa, ela vem como uma espécie de tribunal no final do livro, onde as criadas assassinadas, meio que estão processando o homem que as matou, visto como heróis por muitos. É uma sacada muito inteligente e se assemelha muito com tudo o que foi construído no decorrer do livro. Uma reimaginação de uma trama antiga, vista por um outro lado e com um propósito claro. Um livro pequeno que não merece passar despercebido. E ai, deu vontade de ler?


AUTORA: Margaret ATWOOD
TRADUÇÃO: Celso NOGUEIRA
EDITORA: Rocco
PUBLICAÇÃO: 2021
PÁGINAS: 125


COMPRAR: Amazon


Rafael

Sou o Rafael, um cinéfilo compulsivo, amante de livros e musica. A leitura e os filmes sempre me ensinaram a confiar em mim e ter sonhos grandes e é com isso que me armo todos os dias para lutar pelos meus objetivos.

2 Comments Deixe um comentário

  1. Quando se lê o nome de Margaret na capa do livro, já se tem a noção do quão poderoso o enredo será!
    Sim, eu amo O Conto da Aia, tanto série, livro e Hq e na medida do meu impossível, tento acompanhar tudo que a autora faz e ler agora sobre este livro que eu não conhecia é uma sensação única!
    Trazer mulheres que deixaram suas marcas, mesmo que elas tenham ficado apagadas da história,isso tudo “em cima” de um grande clássico da literatura mundial!
    Com certeza, é um livro que preciso ler!
    Beijo

    • Exatamente, se tem Margaret no meio, podemos ter certeza que vamos achar uma trama com algo importante a dizer e com muita qualidade. Quarto livro da autora que eu leio e não tem nenhum ruim até agora e nem deve ter provavelmente rsrs

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

REDES SOCIAIS

Mais Lidos

4

A PACIENTE SILENCIOSA

21 de julho de 2021
Gabriel é um fotógrafo talentoso e conhecido, que faz trabalhos para revistas famosas. Alicia é uma pintora excepcional, seus quadros possuem características
5

GENTE ANSIOSA

7 de outubro de 2021
Dez anos atrás, um homem pulou de uma ponte e morreu. Um garoto presenciou tudo, mas não conseguiu chegar a tempo de

Publicações Mais recentes

9 de junho de 2026

VERSUS — LIMITE DA HUMANIDADE

“Versus” é um mangá construído sobre uma quebra de expectativa bem direta. À primeira vista, ele se apresenta como uma fantasia de guerra contra demônios: a humanidade vive há séculos sob o domínio do Grande Senhor Demônio e de seus 47 generais, enquanto 47 heróis são escolhidos para tentar reverter
30 de maio de 2026

A INQUILINA — TENSÃO E ARTIFÍCIO

Em “A Inquilina”, Freida McFadden trabalha outra vez com o tipo de suspense doméstico que a transformou em fenômeno editorial: um ambiente privado, aparentemente banal, que vai se contaminando por desconfiança, manipulação e medo.
Ir paraTopo

Não perca

O LIMITE DE TUDO / A MARGEM DA ESCURIDÃO — FANTASIA E ROMANCE

Escrevo esta resenha considerando a duologia completa formada por “O

ESCOLA DOS GRITOS — CRÍTICA SOBRE O SILENCIAMENTO FEMININO

Em “Escola dos Gritos”, a escritora malaia Hanna Alkaf transforma