EXTRAORDINÁRIO

8 de janeiro de 2020
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3 min de leitura

A primeira vez que vi a capa de EXTRAORDINÁRIO, vários anos atrás, não senti vontade de saber mais sobre a história. O motivo não era a história em si, mas o fato de que eu tinha certeza do que ela contaria. Um menino com o rosto disforme forçado a conviver com crianças da mesma idade, ou pouco mais velhas, ou pouco mais novas.

É fácil imaginar o que ele teria que enfrentar por causa da reação discriminatória das pessoas. Na minha mente, era bem claro as situações constrangedoras, os diálogos emotivos e motivacionais, as situações tristes, a solidão infligida por sua aparência, a depressão, etc. Assim, não conseguia encontrar motivo para comprar o livro. Até que um dia, quando estava lanchando nas Americanas, vi uma promoção onde o livro saía por R$ 14,90. É constrangedor, mas foi por isso que comprei EXTRAORDINÁRIO.

Como o livro é pequeno, decidi começar a ler logo. E o que encontrei foi exatamente o que esperava, ou seja, um menino deformado, com vergonha do mundo, que fica relutante com a decisão dos pais de o matricularem em uma escola. Ele fica desesperado pela iminente ameaça de conviver com crianças de aparência normal. Ele sabe que elas o isolariam por sentirem asco de sua aparência. E todos sabemos como crianças podem ser cruéis quanto à aparência dos outros.

August, ou Auggie, tem dez anos, é doce e não há como não gostar dele. Nem como não sentir compaixão por sua situação. A autora é cuidadosa na retratação de seu comportamento, de seus pensamentos, de seus medos, de suas inseguranças, de todos os seus sentimentos. E ela é dura na descrição de sua aparência. Não poupa detalhes e nos joga na cara o quanto seria difícil olhar para Auggie sem desviar o rosto.

Só que, para minha enorme surpresa, toda minha percepção do que estava lendo mudou quando comecei a parte dois, das oito partes do livro. Sim, não existem capítulos, mas oito narrativas de diferentes personagens sobre a mesma história. E isso jogou meu preconceito longe, porque comecei a ler algo que não esperava.

Na parte dois, quem passa a narrar a história é Via, a irmã de Auggie, de 14 anos. Através de uma narrativa pautada pela falta de inclusão na vida da família, ela nos conta que abriu mão de tudo, inclusive da atenção dos pais, para que o irmão pudesse ser feliz, ou melhor, que sofresse menos.

Apesar disso, ela ama o irmão com todas as forças. Sem perceber, ele também é o seu centro de equilíbrio. Via demonstra que é através dos sacrifícios individuais e escolhidos por vontade própria que moldamos nosso caráter.

Na parte três, a história é narrada por Summer, uma menina que estuda no colégio onde August é matriculado e que é a única que se senta com ele na hora do recreio. Os dois ficam amigos e ela, por escolha própria, ignora os cochichos e as brincadeiras maldosas sobre sua nova amizade. Aos olhos de Summer, August é apenas diferente e ela enxerga nele a simpatia que ele transmite com suas ações e suas conversas, escondendo sua aparência.

Jack é dono da parte quatro e ele é o único garoto amigo de August. De forma diferente de Summer, Jack é obrigado a fazer uma escolha. Depois de um desentendimento no Halloween, Jack abre mão de suas amizades para ficar ao lado de August. Ele é perseguido e mesmo assim mantém suas convicções, por escolha própria.

A quinta parte quem conta é Justin, o namorado de Via. No caso dele, não há um sacrifício, mas sim um papel de protetor. Ele defende August e Jack da turma do bullyng e encontra na família de Via um entendimento diferente para a palavra amor e superação. Ele passa a compreender o significado da palavra família.

Miranda, a melhor amiga de Via, narra a parte sete. As duas brigam no início do livro, e até essa parte conhecemos apenas o lado da história contado por Via. Aí, sem mais, descobrimos que algumas atitudes podem parecer incoerentes ou ingratas, mas apenas porque não conhecemos o contexto. Miranda gosta de August como se ele fosse seu irmão. E ama Via. Mas a adolescência é complicada sem motivo, apenas porque é. E Miranda nos apresenta a um sacrifício que faz para manter a amizade de Via, para pedir desculpas e para demonstrar o quanto gosta de August. É uma das partes mais emocionantes do livro.

Sem dúvida, August é extraordinário por enfrentar a vida com o problema que tem. Mas ele não tem escolha. É seu carma. No entanto, através da narração de Via, Summer, Jack, Justin e Miranda, descobrimos o quanto os cinco são extraordinários por abrirem mão de escolhas fáceis para ajudarem August a suportar seu sofrimento. Não por obrigação, mas porque eles querem, porque amam Auggie. Isso é muito bonito e tão difícil de se encontrar no mundo real.

E me arrependo muito por ter virado a cara para Auggie e não ter comprado e lido esse livro há mais tempo.


AUTORA: R. J. PALACIO
TRADUÇÃO: Rachel AGAVINO
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2013
PÁGINAS: 320


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

9 Comments Deixe um comentário

  1. Acredito que muitos de nós sentimos um carinho tão fraterno por Auggie que beira como se ele fosse próximo de nós. Não falo em compaixão não, falo em lição de vida, em ser amado tanto por sua família.
    A adaptação também foi muito bem desenhada e os atores não poderiam ter sido melhor escolhidos.
    Fico feliz de ainda ver que há leitores que se permitem abrir a algo já considerado “batido”, como amor ao próximo e aceitação!
    Leitura e livro muito recomendados!!!
    Beijo

  2. Carl!
    Gostei de ter admitido seu preconceito a princípio e ter lido o livro para constatar que não era apenas o que você pensava: mais uma história de um garoto fora dos padrões que tem de enfrentar a escola, todo preconceito e bullying.
    Para mim é uma história de amor verdadeiro, de escolhas, de abnegação.
    cheirinhos
    Rudy

  3. Não sabia que Extraordinário era dividido dessa forma. Gostei muito. Dessa forma vemos e entendemos a história sob o ponto de vista de todos.
    Até então não tinha vontade de ler mas agora fiquei.
    Vou precisar de lencinhos de papel?

  4. Olá Carl, tudo bem? Tu acredita que ainda não li esse livro? Pois é, mas esse ano vai! Eu sempre fico adiando não sei bem porque, mas é uma obra que está na minha lista desde o lançamento!
    Amei a forma como descreveu a sua leitura, me deixou mais animada!
    Um beijo.

  5. Oi!
    Eu sinto vontade de ler esse livro desde que foi publicado no Brasil, mas até hoje não li, então não te julgo. haha
    Tem o filme também que estou louca para ver, mas quero primeiro realizar a leitura.
    Beijos!

  6. Olá! Eu li esse livro faz um tempinho, mas o carinho que eu sinto por ele e o quentinho que ele deixou no meu coração eu sinto até hoje, principalmente depois dessa resenha, foi tão lindo acompanhar o ponto de vista de cada um, é um dos meus livros favoritos (sempre estou recomendando) e a experiência no cinema também foi muito bacana (#milagre) me debulhei em lágrimas sem vergonha nenhuma.

  7. Oi, Carl
    Li em 2018, mas só fui saber da existência do livro depois do filme.
    Se soubesse que o livro é tão Extraordinário quanto o título tinha lido antes. É um dos livros da vida, sem dúvidas minha melhor leitura de 2018.
    Comprei também 365 dias extraordinários e o livro que reúne os 3 três ebooks sobre o ponto de vista de Julian, Christopher e Charlotte e ganhei Somos todos extraordinários. Agora só falta Diário extraordinário.
    É um livro que todos podem e devem ler, chorei em vários momentos. Amei o preceitos do senhor Browne e todos os amigos que aceitaram e amaram Auggie. O filme também é maravilhoso.
    Beijos

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