A GRANDE SOLIDÃO

28 de janeiro de 2019
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3 min de leitura

Até que ponto o amor pode chegar sem se tornar obsessão? Em A GRANDE SOLIDÃO, Ernt Allbright é um ex-soldado marcado pelos traumas da Guerra do Vietnã. Entre pesadelos, bebedeiras e instabilidade, ainda há um homem apaixonado pela família, disposto a desafiar seus demônios em busca de novos começos. Cora Allbright é o clássico exemplo da esposa tradicional. Bem à moda The Donna Reed Show, ela não pensa duas vezes ao sacrificar sua própria felicidade pela de seu marido e filha. Já Leni é uma adolescente comum. Frodo é um dos seus ídolos, ler é uma das formas que encontra para escapar da realidade, ama fotografar e só quer ter amigos.

Esses são os Allbright; ao menos, eram. No Alasca, em meio às paisagens maravilhosas e à população receptiva, há o que ninguém conta. Quando o inverno chega e as noites duram mais de 18 horas, é preciso enfrentar a sua própria escuridão. E, às vezes, quando ela vence, as ameaças do lado de fora podem ser bem menos assustadoras ou fatais que as do lado de dentro.

Eu me lembro de quando chegamos aqui; viemos de Kansas City. Minha mãe só chorava. Ela morreu no segundo inverno. Ainda acho que ela desejou morrer. Simplesmente não conseguiu suportar a escuridão e o frio. Uma mulher tem que ser dura como aço por aqui, Cora. Não pode contar com ninguém para salvar você e seus filhos. Vocês precisam estar dispostas a salvar a si mesmas. E tem que aprender rápido. No Alasca só se pode cometer um erro. Um. O segundo vai matar você.

Quando o frio vai se aproximando e a os momentos de luz duram cada vez menos, os pesadelos se tornam realidade e os perigos do lado de fora obrigam a família a se isolar. Ernt não consegue mais separar as memórias da realidade, o bom marido dá lugar ao sujeito violento, paranóico e abusador, traumatizado pela Guerra.

O pai bateu nela outra vez, com mais força. Quando a mãe atingiu a parede, ele olhou para baixo, viu o sangue nos nós de seus dedos e o encarou. Um uivo agudo e triste de dor irrompeu dele, ecoando nas paredes de troncos. O pai cambaleou para trás, afastando-se. Lançou para a mãe um olhar longo e desesperado de tristeza e ódio, em seguida saiu correndo da cabana, batendo a porta às suas costas.

A GRANDE SOLIDÃO é um livro de romance, que eu defino mais como drama, escrito por Kristin Hannah. Publicado em 2018, somente no primeiro mês de venda nos Estados Unidos foram vendidas mais de 200 mil cópias. No Brasil, a obra foi lançada pela editora Arqueiro.

Com 400 páginas de uma narrativa extremamente envolvente, descritiva e, em alguns momentos, lenta, a autora americana conseguiu destrinchar e explorar sentimentos tão complexos quanto o amor, a solidão e a obsessão. De uma forma bruta, mas não menos real, é possível analisar e sentir os impactos das emoções em uma realidade que te obriga a ser forte, mesmo com todas as fraquezas internas que são naturais do ser-humano.

Um dos pontos mais interessantes da trama é perceber a maneira sutil e indireta utilizada para tratar todos esses contrastes. Até que ponto o amor pode chegar, sem se tornar obsessão? Foi o principal questionamento que tirei enquanto as páginas passavam e a narrativa se tornava ainda mais turbulenta. Ernt e Cora podem ser donos de uma relação ardente e duradoura, mas será que existe amor por trás de todo aquele abuso? Afinal, o amor não fere, não abusa e nem oprime.

– Você aguenta – a mãe disse. – Até suas mãos estarem sangrando, e mesmo assim você não larga.

Dividido em blocos temporais, a obra é contada a partir da perspectiva de Leni. É impressionante perceber todas as sucessões de acontecimentos e sensações criadas para fortalecer o sentimento de reconhecimento e empatia pelos personagens, mesmo com o leitor tendo ou não vivido situações semelhantes.

É um livro tocante, que te faz refletir sobre vários aspectos da vida e da própria brutalidade do ser. É um livro também denso, carregado. Não recomendo para pessoas mais sensíveis, já que, como já disse, a brutalidade é uma companheira constante. Sem sombra de dúvidas, foi uma das leituras mais ricas que tive esse ano. Mesmo não se enquadrando nos gêneros que costumo ler, A GRANDE SOLIDÃO foi uma das obras que mais me surpreendeu de maneiras boas e me tocou.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Kristin HANNAH é autora de mais de 20 livros, que foram traduzidos para 40 idiomas e venderam 15 milhões de exemplares no mundo. Ela largou a advocacia para se dedicar à sua grande paixão: escrever. Pela Arqueiro, publicou O Rouxinol, As coisas que fazemos por amor, As cores da vida, O caminho para casa, Amigas para sempre e Quando você voltar
TRADUÇÃO: Edmundo BARREIROS
EDITORA: Arqueiro
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 400


COMPRAR: Amazon


 

Ayllana

Meu nome é Ayllana e dizer "amante de filme Trash" conta pontos positivos para mim, né? Hahaha Nos livros, encontrei quem eu sou. Nos filmes, quem eu gostaria de ser . Nos jogos, a inspiração para continuar tentando mesmo depois de vários GAME OVER. Uma nerd de natureza, vejo nas palavras uma forma de expressar um pouco de mim para vocês. Sejam bem-vindos!

12 Comments Deixe um comentário

  1. Alasca nesse livro é praticamente uma personagem e daquelas bem assustadoras. 
    Essa mudança brutal no comportamento de Enrt se deve a tudo que viveu na Guerra e como ajudá-lo a superar? Como conviver com um pai e marido traumatizado e com comportamento tão violento?
    Só Kristin com sua escrita para transformar esse tema em um livro singelo poético sobre vida destino e superação

  2. Eu senti o impacto a partir da primeira frase da resenha. Sei o quanto a Kristin Hannah é aclamada mundialmente por seu toque único na escrita. A Grande Solidão me surpreendeu super positivamente, adorei conhecer a forma como a autora explora os sentimentos mais profundos nos personagens e os desenvolve muito bem durante a narrativa. Os quotes me deixaram chocados e com ainda mais vontade de leitura.

    • Nunca havia lido nada dela, na verdade, comecei o livro até meio desanimada (drama não é o que costumo ler, nem o meu forte). Mas meu amigo, que surpresa boa. Que nem a amiga de cima disse, Kristen conseguiu transformar o Alasca em uma personagem, e isso deu um toque sensacional a trama. Recomendo bastante!

  3. Desde que li a resenha deste livro pela primeira vez, já o quis e muito! Todo mundo sempre elogia o trabalho da autora, coisa que também não conheço a fundo.
    Mas lendo tudo que foi dito acima, dá para entender nitidamente que a autora criou um cenário único. De dor, de medo, de vida real e isso é fascinante!
    O frio do lugar pode ser comparado ao frio das almas que os personagens carregam e é outro ponto fantástico!
    Quantas pessoas carregam marcas profundas a ponto de fazerem mal às outras?
    O livro está na lista de desejados e espero conseguir ter e ler ele o quanto antes!
    Beijo

  4. Falou de consequências psicológicas de guerra, escrita descritiva e obsessão, já me ganhou. Amo esses temas densos e difíceis e que ensinam muito, causando consciência.
    Só ouço elogios desse livro, vou ir atrás ♡♡♡♡

  5. Olá! Confesso que não conhecia o trabalho da autora, esse em particular, chamou minha atenção no seu lançamento, mas não imaginava nem de perto, que a história seguiria esse caminho, fiquei bem surpresa e instigada ainda mais em ler. A resenha já me deixou aqui bem impressionada, sem dúvida vai para as minha meta de leitura de 2019.

    • Também não conhecia, nunca tinha nem escutado falar dela! Aí vi essa sinopse, fiquei tão curiosa, precisava ler.
      Espero que tu goste também!

  6. Nas descrições dada da historia na resenha me veio a cabeça que a capa de certa forma se torna bem sugestiva a historia que parece ser bem pesada e obscura pode até não ser tanto mas, enfim deve ser uma historia muito boa onde você ter que da certas paradas para respirar mas quando está lendo não consegue parar .

    • Sim sim.
      Fui com uma ideia totalmente diferente, e foi isso uma das melhores surpresas para mim. É uma sensação mágica quando você cria uma expectativa, só que a realidade é muuuito melhor.
      Recomendo bastante a leitura!

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