METADE DA IDADE DELE — RAIVA, DESEJO E VAZIO

20 de abril de 2026
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15 min de leitura

Waldo é insaciável. Direta. Ingênua. Impulsiva. Solitária. Inteligente. Irritável. Determinada. Magoada. Perspicaz. Cheia de desejos. E a coisa que ela deseja mais que tudo: o sr. Korgy, seu professor de escrita criativa, que vive com a esposa, o filho, a hipoteca, as contas, os sonhos deixados para trás, as roupas sem graça e a barriguinha cada vez maior.

Ela não sabe por que o deseja. Seria a paixão dele por tudo que faz? Sua experiência de vida? O fato de conhecer livros, filmes e coisas de que ela nunca ouviu falar? Ou é algo mais puro que isso, enraizado na improvável conexão entre os dois, nas personalidades afins, no filtro similar que ambos usam para ver o mundo? Ou, talvez, seja o fato de ele a enxergar de verdade, ao contrário dos demais… e isso seja o suficiente.

“Metade da idade dele” é um livro que parece querer incomodar desde a primeira página. Logo na abertura, o sexo aparece sem erotização, descrito de forma mecânica, desconfortável e esvaziado de conexão, como se o corpo já surgisse mais ligado à frustração do que ao prazer. Essa entrada crua e emocionalmente áspera já anuncia o tom do romance. Ele não tenta ser agradável. Há uma tensão constante entre desejo, repulsa, vergonha, carência e raiva, e eu entendo a escolha por esse caminho. Ao longo da leitura, tive a sensação de estar diante de uma narrativa intensa, atravessada por temas fortes e trechos marcantes, que aposta no incômodo como parte central da experiência, mas com uma execução irregular, que em vários momentos prefere o choque à construção.

Ainda que a diferença de idade entre Waldo e o professor seja o elemento mais aparente da história, não é esse o seu aspecto mais forte. Para mim, o romance parece falar com mais intensidade sobre outra coisa: sobre a experiência de uma jovem emocionalmente ignorada, inserida em relações em que o desejo masculino se impõe, enquanto as consequências afetivas ficam quase inteiras do lado dela. O livro me parece menos sobre um caso específico entre uma adolescente e um homem mais velho e mais sobre um padrão de relação em que a mulher é desejada, usada, confundida e depois deixada sozinha com o vazio que aquela mesma relação ajudou a aprofundar. O sr. Korgy concentra isso de maneira extrema, mas não é só dele que o livro trata. O que me ficou foi a impressão de uma personagem que busca ser escolhida e reconhecida, mas que encontra, repetidamente, formas de vínculo em que o homem parece buscar apenas satisfação e escape.

Foi por isso que Waldo se destacou mais para mim como personagem marcada pela carência do que propriamente como protagonista de uma história escandalosa. Há nela uma fome emocional muito óbvia. Ela quer ser vista, quer ser desejada, quer sentir que ocupa um lugar especial para alguém. O problema é que a narrativa transforma isso em algo muitas vezes mais físico do que profundo. Em vez de desenvolver de forma mais consistente esse vazio afetivo e a maneira como ele organiza a percepção que Waldo tem de si e dos outros, o livro frequentemente empurra tudo para o corpo, para a urgência do desejo. Em vários momentos, eu sentia que entendia o que Waldo queria, mas nem sempre entendia com a mesma clareza por que aquela necessidade tomava exatamente aquela forma.

Waldo me parece uma personagem sexualmente madura, mas emocionalmente muito imatura. Em muitos trechos, até madura demais para uma personagem de dezessete anos, sem que a narrativa construa bem de onde vem essa maturidade. Eu não acho impossível que uma adolescente tenha percepção aguçada sobre desejo, sobre relações e sobre o próprio corpo. Muitas têm. Mas o livro não oferece base suficiente para que essa maturidade pareça organicamente construída. 

Waldo sabe desejar, sabe reconhecer no próprio corpo uma força de atração e parece entender, ainda que de forma instintiva, o poder que o sexo pode ter nas relações. Ao mesmo tempo, não demonstra a mesma maturidade para lidar com outras partes. É como se houvesse nela uma diferença muito clara entre a desenvoltura do corpo e a fragilidade emocional. Por isso, Waldo não busca apenas prazer no outro. Ela quer encontrar em alguém aquilo que lhe falta, algo que a organize por dentro, que a faça sentir menos vazia, menos descartável, menos sozinha.

A distância em relação à mãe e ao pai, por si só, não basta para explicar isso. A ausência familiar pode produzir autonomia precoce, defesa, endurecimento, carência, ressentimento, mas não explica automaticamente o tipo de elaboração emocional e sexual que Waldo às vezes demonstra. Isso fica ainda mais estranho porque o próprio romance sugere uma experiência afetiva relativamente limitada. Então, em vez de eu enxergar essa maturidade como um traço complexo da personagem, muitas vezes a senti como uma solução narrativa que o livro adota sem preparar direito.

Nesse sentido, o Sr. Korgy importa menos por quem é e mais pelo que Waldo projeta nele. Como não encontra nos homens da sua idade a maturidade, a atenção ou a promessa de completude que deseja, ela concentra tudo isso nele. O professor passa a concentrar não só desejo sexual, mas também idealização. Não é apenas um homem mais velho; é um homem no qual ela deposita a fantasia de estabilidade e valor. O problema é que essa idealização nasce menos de uma conexão real e mais de uma carência profunda. Waldo não o ama exatamente pelo que ele é, mas pelo que imagina que ele pode lhe dar.

Isso faz dela uma personagem triste. Há algo de doloroso no modo como ela tenta transformar desejo em salvação e contato em resposta emocional. Waldo não quer apenas ser tocada; ela quer ser escolhida. E é justamente por isso que sua história poderia ser ainda mais comovente do que de fato é. Para mim, ela não encanta totalmente porque o romance, em muitos momentos, afasta a empatia ao insistir demais em descrições sexuais excessivas e repulsivas. Em vez de essas cenas aprofundarem sua dor, sua confusão ou sua dependência emocional, muitas vezes elas parecem colocar uma camada de choque entre a personagem e o leitor. Eu não deixo de entender Waldo, mas às vezes deixo de me aproximar dela.

Também tenho a impressão de que a raiva da narrativa, embora seja uma de suas forças, acaba limitando o desenvolvimento mais profundo da personagem. Há tanta vontade de expor o grotesco, de ferir, de repelir e de tornar a relação desagradável, que sobra menos espaço para escutar Waldo em sua dimensão mais emocional. O romance parece, muitas vezes, mais interessado em descarregar essa raiva do que em permanecer tempo suficiente dentro da tristeza da personagem. E isso faz diferença. Porque Waldo poderia ser não apenas uma adolescente em desejo e degradação, mas uma figura mais complexa. Essa camada existe, mas nem sempre recebe a delicadeza de que precisaria para se tornar realmente inesquecível.

É justamente por isso que a parte que mais me parece interessante no romance talvez esteja menos na relação com o sr. Korgy e mais em tudo o que envolve consumo e necessidade de validação. Waldo trabalhando na Victoria’s Secret não me parece um detalhe casual. Aquele ambiente funciona como um espelho da forma como ela se percebe e do tipo de lógica em que está imersa. O corpo feminino ali é constantemente convertido em aparência e desejo. Há uma ideia muito clara de que a aparência se torna uma forma de existir. Essa parte do livro, para mim, toca num ponto forte: Waldo não busca apenas prazer ou atenção; ela tenta dar forma a si mesma a partir de sinais externos de valor. O romance sugere que ela vive dentro de uma lógica que ensina a mulher a se definir fisicamente, como se ser atraente pudesse resolver a falta que a atravessa. 

Entretanto, quando o romance chega ao eixo central entre Waldo e o sr. Korgy, ele começa a perder força justamente por falhar na construção. A relação me parece mal desenvolvida desde o início. Falta progressão, falta ambiguidade bem trabalhada, falta a sensação de que os limites estão sendo cruzados de forma gradual e perturbadora. Em vez disso, o livro muitas vezes parece pular etapas. Por exemplo, posso citar o jantar de Waldo na casa do sr. Korgy com a esposa. O que torna a cena estranha não é apenas o absurdo da situação em si, mas o fato do convite partir dele sem que o romance construa uma razão convincente para isso. É difícil entender por que um professor convidaria uma aluna que ele já percebe como bonita e sensual para jantar em sua própria casa, ao lado da esposa, se durante todo o encontro ele se mostra desconfortável, tenso e com medo. Em vez de a cena parecer consequência natural da lógica do personagem, ela me deu a impressão de algo inserido mais para produzir estranhamento do que para aprofundar a dinâmica entre os dois. Assim, em vez de eu sentir a perversidade daquela situação, fiquei sobretudo tentando entender por que ele fez o convite em primeiro lugar.

Apesar disso, há sim trechos que entregam sensibilidade. Há um detalhe da linguagem que eu acho muito bom e que aponta para um nível de consciência mais refinado do que a construção geral às vezes alcança. Waldo quase sempre trata o sr. Korgy pelo sobrenome. Isso me parece importante porque preserva uma distância que a relação tenta apagar. Mesmo quando ela o deseja, a linguagem não deixa que ele se torne apenas um homem qualquer. O sobrenome mantém nele a autoridade, a idade, a posição. De certo modo, a narrativa parece saber o tempo todo que aquela hierarquia existe, mesmo quando a própria Waldo quer ignorá-la. Ela sugere que a assimetria nunca desaparece de verdade.

Outro trecho que merece destaque pela sensibilidade e força do que representa, é quando o sr. Korgy diz “não” para Waldo logo no início. A narrativa tem profundidade suficiente, sem ser explicativa, de que o “não” do professor não recebe — e nem deve receber — o mesmo peso que o “não” de uma mulher numa situação de coerção sexual. Um “não” sempre importa, mas tratar essa situação como simétrica me parece uma falsa equivalência. Waldo é menor, o sr. Korgy é adulto, professor, mais forte fisicamente, mais protegido socialmente e investido de autoridade. Se ele diz não, mas permanece, não se afasta, não interrompe a situação e não impõe um limite real, esse “não” deixa de funcionar para mim como recusa efetiva e passa a soar como um álibi moral. Ele preserva para si a narrativa de que resistiu, de que foi levado pela insistência dela, de que tentou impedir. Mas a relação só continua porque ele permite que continue. Waldo não tem poder real sobre o sr. Korgy. Ele tem meios concretos de encerrar aquilo a qualquer momento. Quando não faz isso, a responsabilidade não se desloca.

Também penso que é acertada a insistência em descrever o professor de forma grotesca, fisicamente repulsiva, quase nojenta. O romance parece se esforçar para impedir qualquer simpatia do leitor por ele. Não quer deixá-lo sedutor. Quer bloqueá-lo como objeto de desejo do leitor. Isso é válido, até porque ajuda a evitar uma romantização da relação. Mas, para mim, essa estratégia também tem um limite claro. Em vários momentos, a repulsa se concentra tanto no corpo do professor, no que ele tem de asqueroso ou desagradável, que o centro do horror corre o risco de se deslocar. O problema não é ele ser fisicamente repulsivo. O problema é ele ser um homem adulto, em posição de autoridade, envolvido com uma adolescente. Quando o romance insiste demais na feiura corporal como fonte principal de rejeição, ele enfraquece aquilo que deveria bastar por si só para causar horror.

Essa mesma tendência aparece no uso do sexo gráfico. Eu não acho que cenas explícitas sejam, por si, um problema. Elas podem ser plenamente justificadas quando aprofundam poder, dissociação, vergonha, humilhação, desejo ou autopercepção. O que me incomodou foi a quantidade. Em muitos momentos, tive a impressão de que o livro ultrapassa a função dramática dessas cenas e começa a insistir nelas de forma repetitiva. Em vez de acrescentarem complexidade à relação ou de ampliarem o entendimento de Waldo, várias dessas passagens parecem existir para saturar o leitor, para forçá-lo a encarar o que há de mais degradante naquela dinâmica. O efeito disso, para mim, não foi aprofundamento, mas excesso. Em vez de sentir um acúmulo emocional, muitas vezes senti insistência.

A cena em que Waldo está menstruada e se envolve com o professor na casa dele me parece um dos momentos em que o livro mais revela essa tensão entre força simbólica e excesso. Quero acreditar que esse capítulo não tenha sido escrito apenas para causar repulsa, porque há nele uma imagem dolorosa demais para ser reduzida a simples provocação. Escondida no armário, sangrando e tentando conter com as mãos aquilo que escapa, Waldo observa pelas frestas da porta a esposa do professor ocupar o lugar que ela desejava para si. A exclusão ali se torna quase física. De um lado, a esposa existe no espaço legítimo, visível e reconhecido; do outro, Waldo permanece confinada ao segredo, à vergonha e a um corpo que vaza dor. O sangue, nesse contexto, pode ser lido como expressão dessa humilhação e dessa impossibilidade de pertencer. O problema é que o romance nem sempre aprofunda depois o que uma cena como essa mobiliza. A imagem tem força, mas muitas vezes parece que o livro confia tanto no impacto visual e corporal que deixa em segundo plano o trabalho emocional que poderia fazê-la reverberar ainda mais. 

Esse é, para mim, um dos maiores problemas do romance: a forma como ele trata as consequências da relação entre Waldo e o sr. Korgy. O vínculo entre os dois deveria atravessar de maneira mais profunda a vida psíquica dela, suas amizades, sua relação com o próprio corpo e até a forma como ela se percebe no mundo. Em vez disso, o livro toca nessas marcas de modo irregular. Em alguns momentos, a experiência parece realmente importar; em outros, perde força justamente quando poderia ser mais desenvolvida. Fica a sensação de que o romance acompanha a transgressão com mais insistência do que acompanha o estrago que ela deixa. Por isso, a relação parece central enquanto serve ao choque, mas suas consequências deixam de ocupar o mesmo lugar quando a história precisaria se demorar nelas com mais densidade. 

Essa falta de densidade também aparece nos personagens secundários. Quase todos me pareceram pouco desenvolvidos, mais próximos de funções narrativas do que de presenças realmente vivas. Em geral, surgem para explicar alguma coisa, deslocar Waldo de um cenário a outro ou criar uma pausa entre os acontecimentos centrais, mas raramente ganham espessura suficiente para interferir de fato na trama. Com isso, o mundo ao redor da protagonista fica empobrecido. Em vez de transmitir a sensação de que Waldo está cercada por pessoas com peso próprio, o romance muitas vezes faz parecer que ela se move por um espaço em que quase tudo existe apenas em função dela e da relação principal. Falta contraste, falta atrito, falta vida ao redor. 

A mãe de Waldo sofre especialmente com esse problema. Ela é importante, sem dúvida, mas muito mais como explicação do que como personagem. Sua presença ajuda a entender parte das razões de Waldo ser quem é, ajuda a localizar abandono, falta, desajuste, modelo fracassado de feminilidade, mas não ganha espessura suficiente para existir além disso. Em vez de ser uma relação complexa, ela se torna quase um ponto de origem psicológica. Isso me incomoda porque a mãe poderia ser muito mais do que causa. Como isso não acontece com força suficiente, a própria Waldo perde um campo importante de elaboração.

Nolan, o colega com quem Waldo inicia um breve namoro, talvez seja o único personagem secundário que, mesmo sem grande desenvolvimento, exerce um papel importante no crescimento interior dela. Nos poucos capítulos em que aparece, ele introduz uma possibilidade rara para a personagem: a de que Waldo possa se conectar com alguém da sua idade sem que tudo seja atravessado pela decepção. Por isso, esses trechos me pareceram os mais tristes e emotivos do livro. Neles, Waldo se aproxima de uma experiência afetiva menos distorcida, ainda hesitante, ainda desconfiada, mas já tocada pela ideia de que talvez exista para ela uma forma de vínculo menos dolorosa. 

Nolan representa uma alternativa real ao sr. Korgy. Com ele, Waldo começa a ensaiar outra forma de vínculo, menos dependente da assimetria que marca sua obsessão pelo professor. Começam a surgir pensamentos e expectativas que não aparecem com a mesma nitidez em outras relações. Nolan não se torna um grande personagem, mas sua presença basta para mostrar que Waldo poderia desejar outro tipo de proximidade. 

Esse movimento se desfaz quando ela tem uma recaída pelo sr. Korgy. O retorno ao professor se aproxima de uma lógica de abstinência: Waldo parece incapaz de se afastar de algo que lhe faz mal porque ainda não sabe existir fora daquela dependência. Nolan percebe isso e encerra a relação de forma abrupta. Não há conversa; ele simplesmente se retira. E esse encerramento atinge Waldo de um jeito diferente. Pela primeira vez, ela parece realmente próxima de chorar não só pelo fim de uma relação, mas pela ruptura de um vínculo que poderia ter deslocado algo dentro dela.

Esse trecho me parece especialmente forte porque revela que Waldo poderia, sim, se desvincular da necessidade do sr. Korgy. Havia ali a possibilidade concreta de outro caminho, ainda que frágil. Quando Nolan vai embora, a cena se torna ainda mais triste, porque ele acaba repetindo, em outra escala, o mesmo resultado que marca as relações masculinas na vida de Waldo: em intensidades diferentes, os homens passam por ela e depois a deixam sozinha sem interesse por seus sentimentos.

No final, penso que “Metade da idade dele” tem muito a dizer, mas nem sempre encontra a forma mais convincente de dizer. Eu não acho que seja um livro gratuito ou sem direção. Pelo contrário. Vejo nele ideias fortes sobre raiva, desejo, corpo, consumo, humilhação, abandono e sobre a forma como muitas mulheres são ensinadas a se medir pela capacidade de serem desejadas. Também vejo um esforço evidente de impedir qualquer romantização da relação central. Mas, para mim, o livro enfraquece parte da própria força quando insiste demais no grotesco, no choque e na repetição, sem construir com a mesma consistência as consequências emocionais e a rede humana em torno de Waldo. A leitura passa mais a sensação de um romance capaz de tocar em algo muito duro e muito real, mas que várias vezes escolhe o atalho da saturação quando poderia confiar mais na construção.

Talvez isso aconteça porque a narrativa é profundamente impregnada por uma raiva que não busca se conter. Há uma força muito evidente nos trechos mais chocantes e gráficos. Em muitos momentos, o romance parece querer abalar o leitor, arrancá-lo de qualquer zona de conforto. Existe algo que se aproxima de uma raiva atravessando a linguagem, uma violência que tenta se impor não só pelo que é narrado, mas pela forma como é narrado. E eu não vejo isso como um defeito em si. Há livros que precisam dessa raiva. Há experiências que talvez só consigam chegar ao outro quando recusam qualquer suavização.

Ao mesmo tempo, essa escolha me faz pensar que intensidade e crueza não são a mesma coisa. A força do livro existe, mas nem sempre se transforma em profundidade na mesma medida. Fiquei com a sensação de que ele poderia alcançar uma dor mais duradoura se elaborasse essa mesma raiva de forma mais profunda. Não me incomoda que a narrativa seja raivosa; o que às vezes me incomoda é sentir que ela se apoia demais nisso. 

Chamar a atenção é importante, especialmente quando o que está em jogo é uma experiência marcada por dependência e violência emocional. Mas o efeito de um livro nem sempre se mede pela intensidade do choque. Às vezes, o que mais marca não é o que nos sacode de imediato, mas o que se instala devagar e permanece. Por isso, embora eu reconheça a legitimidade e até a necessidade dessa raiva que atravessa a narrativa, fiquei com a sensação de que ela poderia ter sido escrita com a mesma intensidade e com mais profundidade, menos como descarga e mais como elaboração.

Ainda assim, reconheço que às vezes a raiva, por si só, já tem valor. Nem toda dor quer ou consegue se transformar imediatamente em elaboração. Há experiências que primeiro precisam explodir, antes de se deixarem organizar de outra forma. Talvez parte da força de “Metade da idade dele” esteja justamente aí: nessa recusa em suavizar. Entendo que, às vezes, simplesmente extravasar a raiva faz bem. Então, que seja.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

Avaliação

ENREDO
7/10
PERSONAGENS
8/10
ESCRITA
7/10
RITMO
6/10
ORIGINALIDADE
6/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
7/10
Geral
6.8/10
AUTORA: Jennette McCurdy • TRADUÇÃO: Carolina Simmer • EDITORA: Intrínseca • 2026 • PÁGINAS: 256

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