A DANÇA DA ÁGUA

30 de setembro de 2020
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3 min de leitura

Por toda a América as plantações de tabaco floresceram e trouxeram riqueza aos senhores de terra durante o século XIX. Quando a bonança começa seu declínio, Howell Walker já vislumbra o próprio fim e sabe que precisará de um substituto para administrar os últimos dias de Lockless, sua propriedade no coração da Virgínia, Estados Unidos. Logo fica claro que seu único herdeiro, Maynard, não tem a menor aptidão para a missão. E mesmo o jovem Hiram, com sua resiliência e memória infalíveis, não poderia fazê-lo ― além de filho ilegítimo de Walker, ele é um escravo.

Escravo é um adjetivo pouco usado durante a narrativa de A DANÇA DA ÁGUA. Em seu lugar, o adjetivo que surge constantemente é tarefeiro. Isso não é feito para atenuar a condição do personagem principal, Hiram, e a maioria dos personagens secundários, mas para estabelecer uma dignidade, a mesma que percorre toda a história, com um texto impregnado de sobriedade, de altivez, extremamente elegante, sem partir para o drama fácil, mas também deixando claro o que acontecia naquela época.

Existem várias passagens que dão esse tom, como quando Hiram é preso e torturado. Mesmo em uma situação desesperadora, o autor dá ao garoto a resiliência necessária para demonstrar como os escravos conseguiam superar as piores atrocidades na esperança de liberdade, de justiça, de rever seus familiares. E isso é muito difícil em uma história com esse fundo dramático.

Aliás, Hiran é um personagem jovem, um garoto que cresce de acordo com o que enfrenta e como aprende com isso. Sua obstinação é conseguir ser livre ao lado de Sophia, uma garota por quem é apaixonado desde sempre, mas que pertence a outro escravagista, ou senhor. E ele passa as piores situações para conseguir seu intento. Mesmo sendo cobrado para ser o substituto de sua mãe, e de sua avó, no uso de um poder único, um poder que lhe permite viajar instantaneamente entre quase qualquer distância, como teleporte.

Essa mistura entre o real e o fantástico é feita com o mesmo cuidado com que os personagens são tratados. É tudo tão sutil, tão crível, que eu realmente acreditei que poderia ter existido alguém que tivesse esse poder. E não ache que ele é usado de forma leviana, a todo momento, ou mesmo para resolver situações difíceis. São poucos os trechos onde Hiram usa seu poder, e quase todos necessitam de um sacrifício paralelo, ou então são resultado de algum.

Mas não é apenas o peso do poder que tem que pesa em seus ombros. As responsabilidades impostas a Hiram vão além dele. O garoto precisa se colocar à altura do irmão, Maynard, mesmo sabendo que isso é impossível, uma vez que Maynard era filho legítimo de seu pai, branco, e Hiram é negro e escravo. A sombra de Maynard o cobre por quase toda a história, e o pai de ambos enfrenta um conflito interno contra o próprio preconceito e o amor que sente pela propriedade que construiu, Lockless, e que está fadada ao declínia pela falta de um herdeiro que realmente possa mantê-la.

Outra responsabilidade cobrada de Hiram é sua ingressão na Clandestinidade, um grupo abolicionista que planeja e executa resgates e fugas de escravos de quase todas as regiões do sul dos EUA. Para esse propósito, alguém como Hiram, com seu poder único, é uma aquisição imprescindível. E novamente o autor não trata isso de forma leviana, não transforma Hiram em um herói poderoso, mas mantém toda a sua fragilidade, seu medo, e mesmo o respeito que os chefes da Clandestinidade mantém diante da liberdade de Hiram dizer sim ou não.

A aventura de Hiram começa com a morte de seu irmão e transcende por várias regiões, por sofrimentos, por conflitos, por fugas, por capturas, por torturas, por decisões que o transformam e transformam quase todos ao seu redor, e o conduzem para um final onde ele finalmente poderá conquistar aquilo que mais deseja. Não apenas a liberdade, mas a construção de uma família sua, que não tem dono, que não pertence a ninguém, além a eles mesmos.

A DANÇA DA ÁGUA é uma história sensível, escrita com muita competência, com um personagem que navega pelas águas turvas de um rio composto pela escravidão, mas que pode conduzir a um local onde se consegue ser feliz. A parte de fantasia da história, no fim, fica tão orgânica, tão natural, que você, como eu, não verá nada de fantasia, mas de algo que realmente é possível. Só uma grande história consegue isso.


AUTOR: Ta-Nehisi COATES
TRADUÇÃO: José Rubens SIQUEIRA
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2020
PÁGINAS: 400


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

6 Comments Deixe um comentário

  1. Olá! Definitivamente só uma grande história para conseguir tornar a fantasia algo assim durante a leitura, confesso que não conhecia o livro, mas fiquei bem interessada com tudo que li, acho que não tinha como né, aquelas leituras que nos fazem refletir e o mais importante sentir!

  2. Sem dúvidas um tema forte, chocante e triste mas real, que ainda precisa ser discutido.
    Achei incrível que o autor inseriu fantasia nessa temática, o que fez com que a história de Hiram só ficasse ainda melhor

  3. Ando lendo e vendo também muitos livros nos últimos tempos que trazem como assunto o racismo.Seja ali, exposto, ou mesmo nas entrelinhas.
    Quem dera vivêssemos num mundo de iguais, onde livros, filmes ou séries não precisassem existir para ao menos, tentar tocar o coração dos racistas.
    Mas infelizmente, a gente está bem distante disso. Por isso, como não conhecia o livro, já me emocionei com a resenha e gostei do termo “tarefeiro” como forma de dignidade!
    Com certeza, vai pra listinha de mais desejados!!!
    Beijo

  4. Deve ser muito interessante ler algo com esse tema tão importante que muitas vezes gera críticas essenciais, misturado a uma fantasia né, algo que nunca aconteceu, mas que como você falou, passa a ser algo natural. Gostaria de ver como isso aconteceu. Obrigada pela dica 🙂

  5. Eu estou doida para ler esse livro, se não me engano eu vi lançando no Clube Intrínsecos há alguns meses. Precisamos conhecer as histórias dos escravizados de todos os ângulos, lembrar sempre, para desconstruir e não se repetir nunca algo parecido. Precisamos de mais livros assim!!! Gostaria de dizer que é necessário desconstruir, não só não tendo atitudes racistas, mas lutando contra o racismo juntos.
    P.s.: Carl, não quero ser invasiva, mas de uns tempos pra cá eu venho aprendendo coisas novas, principalmente sobre palavras com carga histórica racista, por isso não devemos usar a palavra “escravo”, mas sim “escravizado”, pois a primeira palavra dá a entender que é algo natural e não forçado, falar “escravizado” mostra o processo de coisificação e desumanização da pessoa preta naqueles tempos.

  6. Carl!
    Primeira vez que vejo um livro que trata de fantasia com tanta delicadeza que parece algo bem real.
    Adorei esa hiostória do teletransporte, nesse exato momento gostaria de tê-lo…kkkk
    Bem curiosa por saber se Hiram conseguiu seu intuito de ser livre e constituir família.
    cheirinhos
    Rudy

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