INTRUSO

14 de janeiro de 2020
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4 min de leitura

A estréia na literatura de ficção do canadiano Iain Reid, aconteceu com seu livro EU ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO (resenha aqui), um thriller psicológico que causou um burburinho entre os leitores, principalmente pela narrativa sufocante, opressora, carregada de inconsistências, até que se chega ao clímax e se descobre que foi tudo proposital, uma consequência do mistério da história.

Neste segundo romance, INTRUSO, a narrativa não é tão densa e confusa, mas Reid mantém as inconsistências, aqueles detalhes que parecem fora do lugar, os indícios de algo não está totalmente correto. Os dois personagens, Junior e Henrietta, ou Hen, moram em uma fazenda afastada do centro urbano. O único local perto é uma pequena cidade, onde os dois trabalham, cada um em sua profissão. Em paralelo, eles cuidam da fazenda da forma que podem.

Tudo corre dentro da normalidade de uma vida sem surpresas, pacata, até a chegada de Terrance, um homem estranho, cheio de segredos, funcionário do governo, que traz a notícia de que Junior foi inserido em uma seleção de pessoas para, talvez, viajar ao espaço em uma missão que pode ser vital para o futuro da humanidade. Terrance ainda não pode dar a certeza de que Junior será um dos escolhidos, por isso precisa retornar nos próximos meses, várias vezes, para realizar diversos testes, acompanhar a vida do casal e informar como anda o avanço da seleção.

Entretanto, Terrance informa que apenas Junior poderá ir, Hen terá que ficar para trás. Como é uma missão que pode levar até dois anos para ser concluída, um tempo demasiado longo para uma pessoa ficar sozinha e ainda mais com a responsabilidade de trabalhar e cuidar de uma fazenda, o governo irá deixar um androide no lugar de Junior, que terá todas as suas características físicas e um comportamento o mais próximo possível do Junior original, com a função de ajudar Hen nas suas tarefas, além de também servir de companhia.

Junior e Hen acham tudo muito estranho, principalmente Junior, que não aceita, de início, a ideia da presença de uma máquina no seu lugar. Entretanto, aos poucos, Hen se mostra mais receptiva, além de criar uma certa relação mais privada com Terrance, conforme este aumenta o número de visitas na fazenda e se aproxima o dia do resultado final, quando Junior será informado se passou em todos os testes e realmente irá participar da missão espacial.

Embora Terrance seja um personagem dúbio, de quem nunca se tem realmente certeza das intenções, e também por seu comportamento sempre equilibrado, cheio de amabilidades excessivas, quem realmente deixa o leitor confuso é Hen. Ela parece ter uma relação bipolar com Junior. Em momentos, principalmente no início da história, ela se comporta de forma fria, distante, chegando a pedir para Junior dormir em outro cômodo da casa, sem qualquer motivo aparente, como se eles tivessem discutido, mas sem realmente acontecer. Em outros momentos, ela demonstra um enorme amor por Junior, é compreensiva, consegue dividir com ele seus receios quanto à presença de Terrance e a missão do governo. E em outros momentos, ela fica de segredos com Terrance, conversas mantidas longe dos ouvidos de Junior, como se ela já conhecesse Terrance.

Junior é o personagem mais constante, que se mantém equilibrado e se iguala ao leitor nas partes de tentar compreender o que está realmente acontecendo. Junior e o leitor sabem que algo está errado. A desconfiança sobre Terrance é a mesma, as dúvidas que Junior vai levantando durante a história, são as mesmas que o leitor consegue levantar. A confusão diante do comportamento de Hen também são as mesmas. Junior é, de certa forma, a visão do leitor diante de tudo o que acontece. E conforme ele descobre pistas que o levam em uma direção de desvendar as reais intenções de Terrance, a surpresa que ele recebe é a mesma que nós recebemos. E isso cria uma enorme identificação e pesa no coração do leitor quando se chega ao clímax.

Claro que existe uma enorme reviravolta ao fim da história, da mesma forma que aconteceu no livro anterior de Reid. Junto com essa reviravolta, vem um sentimento de pena, de tristeza, de que as coisas poderiam ser diferentes, que não é justo. Se a história terminasse nesse ponto, já seria excelente, apesar do sentimento de pesar que deixa. Entretanto, Reid reserva uma segunda surpresa, na última página, que reverte tudo o que o leitor sentiu e faz com que toda a tristeza desapareça, inclusive a sensação de injustiça. Tem que ser muito habilidoso, muito criativo, para conseguir manipular as emoções dos leitores dessa forma.

INTRUSO é uma ficção-científica com uma premissa simples, mas muito bem executada. Com apenas três personagens durante toda a história, o autor brinca com a mente do leitor, criando uma percepção diferente sobre os três, para ir, aos poucos, alterando o que se pensa sobre cada um deles, e finalizando a história invertendo totalmente o que se pensava sobre eles no início. É um trabalho psicológico parecido com a apresentação de um mágico: o leitor acha que está vendo algo incrível acontecendo, quando na verdade, aquilo que ele não vê, é o mais incrível. Acho que não preciso escrever mais nada para convencer você a ler, não é?


AUTOR: Iain REID
TRADUÇÃO: Maira PARULA
EDITORA: Rocco
PUBLICAÇÃO: 2019
PÁGINAS: 288


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

8 Comments Deixe um comentário

  1. Precisa não!!! O autor parece gostar disso de colocar relações assim, quase solitárias em seus enredos. Pelo que me recordo do livro resenhado aqui, era apenas um casal dentro de um carro.
    Agora são três personagens, uma fazenda, mas de quebra um espaço…metaforicamente falando.
    Fiquei muito curiosa não somente com tudo, mas com Hen…esse sentir totalmente diferente em alguns momentos é bem estranho.
    E me fez ficar aqui refletindo sobre o título do livro!
    Claro que já quero!
    Beijo

  2. Carl!
    Esse tipo de ficção bem escrita, carregada de suspense e clímax, onde podemos nos identificar com pelo menos um dos personagens e ainda carregada de reviravoltas no final, é do tipo que bem gosto, porque sinceramente, ultimamente, algumas ficções que andei lendo, me decepcionaram um pouco.
    cheirinhos
    Rudy

  3. Oi!
    Acredito que nunca li um livro com uma pegada confusa proposital como o Reid escreve. Conheci a sua estreia no mundo ficcional aqui no blog, e fiquei perplexa. Descobri que vai virar filme, então quero ler o quanto antes.

  4. O livro é todo pautado na paranoia não é? Nenhum dos três personagens é confiável ou totalmente bom ou mal.
    Esse projeto supostamente do governo é cercado de mistério. Pior ainda esse androide que será posto no lugar de Junior? Para que? Por que?

  5. Olá Carl, tudo bem? Confesso que não sou fã do gênero, ainda não achei um livro que me surpreendesse! Vou deixar anotado pois sua nota e relação deixaram bem claro que é uma obra muito boa. Espero que eu possa me animar a começar a ler o gênero.

  6. Olá! Eita que finalmente chegou o dia em que uma história de ficção-científica despertou meu interesse de imediato #chocada. O primeiro livro do autor já havia me deixado bem curiosa, mas esse conseguiu me deixar ainda mais, principalmente por conta desses plots ao final da história, deve ser bem interessante ficar meio que devastada durante a leitura para no final ser surpreendida positivamente #jáquero

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