6 de junho de 2019
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QUERIDO EVAN HANSEN

Evan Hansen é um adolescente que busca, a cada novo dia, forças para seguir em frente e enfrentar seu maior problema atual, o colegial. O jovem tem bastante ansiedade, insegurança e vive no seu próprio mundinho particular. Seu único “amigo”, Jared, claramente não gosta dele, e o motivo para eles continuarem se falando, é porque Evan não tem realmente mais ninguém. Tudo muda quando num dia normal, Evan esbarra em Connor, o famoso menino problema da escola. Connor aparentemente é revoltado, não tem amigos e é de conhecimento geral que ele é usuário de drogas. O destino vai receber uma ajudinha de uma “mentira do bem” e a vida de ambos será entrelaçada.

Evan tem o costume de escrever cartas para si mesmo, como forma de motivação, de se expressar e também como tarefa passada pelo seu terapeuta. A trama é instalada quando Connor comete suicido e junto de seu corpo está uma das cartas que Evan escreve diariamente. Uma carta falando de esperança, de que o dia será bom e que tudo vai dar certo. Logo todos começam a acreditar que Evan e Connor tinham uma amizade secreta e, inicialmente, esse rumor começa a ser alimentado pelo próprio Evan, que agora finalmente é popular, todos gostam dele e falam com ele.

Grande parte da trama é vista pelos olhos de Evan e aqui nós podemos estudar um pouco mais da personalidade desse jovem cheio de problemas. Sua saúde mental anda meio frágil e, claramente, ele não pensa antes de agir. Na sua cabeça, alimentar a mentira de que ele era amigo do menino que faleceu, é uma coisa boa, pois ele se aproximou da família de Connor, ajudou eles a superarem um pouco esse enorme trauma, porém as coisas começam a sair do controle. É uma daquelas histórias que o leitor sabe que tudo vai acabar em desgraça, uma autêntica tragédia anunciada. A mentira avança de uma forma que em determinado momento, toda a escola está engajada a abrir uma instituição em memória de Connor, afim de arrecadar lucros e construir um memorial em sua homenagem. Uma daquelas mentiras tão grandes, que envolvem tanta gente, que quando a bomba explodir, provavelmente não vai sobrar ninguém.

O livro é uma romantização de uma peça de teatro americana, da famosa Broadway. Um dos temas centrais é a saúde mental e o suicído. O livro pende mais para a comédia, mas é triste acompanhar pessoas que só se importaram com Connor depois que ele morreu. Pior ainda é ver gente lucrando com essa tragédia, e o debate final é: eu transformei uma tragédia em algo bom ou eu só lucrei com ela? Tanto o protagonista, Evan, quanto Connor, têm muito em comum. Ambos eram ignorados por todos na escola, não tinham amigos e lutavam pequenas guerras contra eles mesmos e contra todo o peso do mundo que parecia que eles carregavam. A diferença é que Evan conseguiu suportar um pouco mais, Connor não teve tanta sorte. Por isso, de cara, foi possível acreditar que eles eram amigos de verdade, mas será que Evan foi longe demais? Para o leitor, é muito necessário escolher um lado, o lado certo de preferência, quando se tem pessoas tristes, traumatizadas e machucadas, o cuidado deve ser ainda maior para com os nossos atos. Às vezes, o preço de “o fim justifica os meios” é alto demais.

A leitura é composta por dois narradores; Evan assume grande parte, porém a segunda parte fica com Connor. Não vou entrar em detalhes, mas foi muito interessante a forma que os autores acharam para fazer o leitor conhecer mais o menino que faleceu. Também é forte notar que estamos dentro da cabeça de alguém que realmente está muito fragilizado. Um soco no estomago notar que talvez uma pequena palavra, atitude ou gesto, poderia mudar tudo na história de alguém. Fica a reflexão, cuidado com o nosso próximo, a gente nunca sabe o que aquela pessoa está vivendo.

O desfecho não é aquilo que a gente achava que seria. Ao se deparar com a trama, imaginamos um grande caminho à frente, mas a narrativa desvia e, com esse final, ela consegue se destacar. Às vezes, o melhor remédio é o tempo, às vezes precisamos perdoar a nós mesmo antes de querer o perdão dos outros. Será que eu também não alimentei isso? Às vezes vivemos tanto na ilusão que culpamos a realidade por ser como ela é. Só dá para viver o agora, só dá para mudar o futuro, o passado infelizmente já passou. Uma leitura extremamente fluida, interessante e que abre um excelente debate para temas tão pesados como a saúde mental e o suicído entre jovens. Não é uma leitura que pode disparar gatilhos, os autores tiveram bastante cuidado para trabalhar esse tema com todo o respeito  possível. Ótima porta de entrada para diálogos e uma leitura que você nem vê passar.


AVALIAÇAO:


AUTOR: Val EMMICH, Steven LEVENSON, Benj PASEK e Justin PAUL
TRADUÇAO: Guilherme Miranda
EDITORA: Seguinte
PUBLICAÇAO: 2019
PÁGINAS: 336


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Rafael

Sou o Rafael, um cinéfilo compulsivo, amante de livros e musica. A leitura e os filmes sempre me ensinaram a confiar em mim e ter sonhos grandes e é com isso que me armo todos os dias para lutar pelos meus objetivos.

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