O livro funciona como um suspense psicológico que usa uma ideia bem atual como gatilho: uma artista que vira alvo depois de um projeto público dar errado e, a partir daí, passa a viver num estado constante de defesa. Não é só sobre “ser cancelada”. É sobre o que acontece quando a opinião dos outros muda como você dorme, como você se olha no espelho e até como você se comporta dentro da própria casa.
Petra Rose entra nessa história como uma escritora famosa que já teve o seu auge e está tentando recuperar o controle. A adaptação do livro dela para o cinema vira um desastre e a reação do público é o tipo de fúria que a internet sabe produzir muito bem: comentários, threads, vídeos, prints, indiretas, exposição. É um tipo de destruição que parece “limpa”, porque é só texto e opinião, mas que gera um efeito muito físico.
Quando a Petra se isola (cabana, afastamento, tentativa de recomeço), ela está atrás de duas coisas ao mesmo tempo: voltar a escrever e voltar a ser alguém que respira sem se sentir observada. E é aí que o Nathaniel Saint aparece. Um policial casado investigando um possível assassianto.
Essa figura é montada para ser perfeita demais. Ele tem um jeito calculado de entrar e sair da cena. Parece entender o momento emocional dela, parece oferecer exatamente o tipo de conversa que ela precisa naquele ponto: sem julgamento, sem cobrança pública, sem “você deveria”. É tentador, e o livro quer que seja. Só que, conforme a relação avança, dá para sentir que não é só atração e mistério.
A Petra começa a chamar aquilo de “pesquisa”. Ela precisa escrever, ele parece “matéria-prima” para a história que ela imaginou, e é fácil transformar desejo em ferramenta. O problema é que esse tipo de justificativa é uma armadilha clássica: quando você diz que algo é “para o trabalho”, você ganha permissão para atravessar limites que normalmente respeitaria. E com a Petra isso fica nítido. Ela não está só se inspirando. Ela está usando a situação para fugir da vergonha, do casamento estagnado, da sensação de estar em dívida com o público e com a própria carreira.
“Mulher em Queda” não é um livro que se sustenta só na ideia. Ele depende muito da execução e é aí que dá para entender as críticas que Hoover recebe sobre escrita pobre e furos. A escrita dela, no geral, já é simplificada demais, com cenas que funcionam por intensidade e não por construção. Tem leitor que chama de viciante, mas é apenas “rasa”. Nesse livro, isso pega porque o suspense exige credibilidade. E várias passagens parecem menos “acontecimento orgânico” e mais peças empurradas para levar a história ao ponto X. Algumas descrições e decisões de personagem não soam reais porque parecem existir só para: manter o clima sexual/ameaçador, prolongar a dúvida, encaixar a próxima virada.
Também tem o lado “arquitetura de thriller”. Certos movimentos do enredo pedem coincidências e comportamentos que, na vida real, fariam qualquer pessoa pisar no freio bem antes. E quando o livro insiste nisso, o suspense pode virar frustração, não porque a história é “absurda” (thriller pode ser exagerado), mas porque dá a sensação de que a autora escolheu a rota mais fácil, forçar a personagem para dentro do perigo, em vez de criar um caminho inevitável até lá. O resultado é que, se você lê só como entretenimento rápido, ele corre bem. Mas se você lê esperando ver profundidade ou coerência psicológica forte o tempo inteiro, ele pode parecer um rascunho bom de ideia com acabamento irregular.
Além de tudo isso, tem uma percepção que, para mim, é uma das mais difíceis de ignorar nesse livro: a autora não consegue desenvolver a Petra de um jeito crível o suficiente para justificar o envolvimento dela com o Saint.
Porque não é “só” o fato de ela ser casada. É o pacote completo que o texto constrói: Petra diz que ama o marido, tem filhos, tem uma vida estabelecida, e está num momento emocional delicado, sim. Mas ainda assim o livro pede que o leitor engula uma virada imediata em que um desconhecido aparece e, basicamente por ser fisicamente atraente, vira uma espécie de passe livre para ela desligar o senso crítico.
E o problema não é a Petra sentir desejo. Isso seria perfeitamente humano. O problema é a forma como o livro faz esse desejo funcionar como um interruptor: Saint aparece, tem um corpo “invejável”, e pronto: Petra começa a aceitar e acreditar quase qualquer coisa que ele diga. Não existe um caminho gradual, não existe uma construção consistente de confiança, não existe uma dinâmica psicológica que sustente aquele salto. A relação nasce mais como conveniência de roteiro do que como escolha interna da personagem.
O mais estranho é que esse comportamento se mantém mesmo quando a história começa a dar sinais claros de absurdo. Saint aparece do nada repetidas vezes, surge em momentos improváveis, admite que esconde coisas, deixa escapar incoerências, comete atos que já entram no território da violência, e ainda assim a Petra continua orbitando em torno dele como se estivesse hipnotizada. E não no sentido “psicológico bem escrito” de alguém em crise tomando decisões ruins, mas no sentido mais raso mesmo: ela simplesmente continua porque o livro precisa que continue.
Isso enfraquece a própria proposta do suspense, porque a tensão para de parecer consequência e passa a parecer empurrão. O leitor não pensa “isso está ficando perigoso”, pensa “ninguém agiria assim”. E quando o livro depende dessa suspensão constante da lógica para se mover, a experiência vira um pouco repetitiva: Saint faz algo estranho; Petra percebe que é estranho; Petra ignora; o texto chama isso de desejo, inspiração, pesquisa.
E aí entra outra falha grande: o livro até tenta vender que o Saint “reacende” a criatividade dela, que ela volta a escrever por causa dele, que aquela relação vira combustível artístico… mas não entrega nada que comprove isso de verdade. A história só afirma. Não mostra.
A Petra diz que está inspirada, mas a autora não coloca na página nenhum sinal concreto dessa produção: nenhum trecho do que ela está escrevendo, nenhuma ideia forte que tenha surgido, nenhuma passagem que mostre o livro “dentro do livro” ganhando forma. Um autor mais competente talvez inserisse pedaços da narrativa que a Petra escreve, nem que fosse como pequenas amostras, para você sentir que aquilo está se transformando em literatura e não apenas em desculpa. Aqui, parece que basta a personagem dizer “minha criatividade voltou” e pronto, isso vira verdade por decreto.
No lugar dessa sustentação, o que a autora entrega como cola entre os dois é, principalmente, sexo e uma quantidade enorme de adjetivos supérfluos, como se a intensidade física substituísse qualquer sentido emocional ou psicológico. Só que isso não cria vínculo, não cria complexidade, não cria personagem. Cria impulso. E o impulso repetido, sem consequência trabalhada com profundidade, acaba achatando a Petra.
O resultado é que ela vai perdendo camadas, em vez de ganhar. Em vez de ser uma mulher em conflito — culpa, desejo, medo, necessidade de controle, vergonha pública, tentativa de se reconstruir — ela vira uma peça que reage sempre do mesmo jeito: se aproxima, cede, aceita, ignora sinais, volta. Isso transforma a Petra numa personagem cada vez mais unidimensional, com pouca afirmação pessoal, quase sem caráter próprio, mais definida pelo que o Saint provoca do que por qualquer decisão que realmente pareça dela.
E isso é irônico, porque o livro quer falar de controle e invasão. Só que, para isso funcionar com força, a protagonista precisa ter presença, senso de si, resistência real, nem que seja frágil. Muitas vezes, ela parece apenas um corpo disponível para a cena seguinte, o que acaba esvaziando tanto a crítica quanto a tensão. A história tenta ser sobre uma mulher retomando a própria narrativa, mas passa boa parte do tempo tirando dela qualquer construção interna que a faça soar como alguém de verdade.
Uma outra camada que pesa bastante em “Mulher em Queda” é que ele não existe num vácuo. A própria Colleen Hoover já virou “assunto” várias vezes e isso muda a leitura, porque o livro fala de linchamento público enquanto a autora é alguém que vive, de tempos em tempos, esse mesmo tipo de tempestade.
Ela é criticada há anos por usar temas sensíveis como abuso, violência e relacionamentos tóxicos de um jeito confuso, mal trabalhado ou romantizado, especialmente quando a obra acaba sendo consumida como romance “fofo” e não como drama sobre violência. Esse debate ficou bem mais barulhento quando rolou a polêmica do livro de colorir ligado a “É assim que acaba”, que foi visto como merchandising deslocado e acabou cancelado depois da reação negativa.
Além dessa discussão sobre “como ela escreve abuso”, circulam acusações antigas envolvendo o filho dela, e parte do público entende que ela teria defendido/abafado a situação em vez de lidar com responsabilidade. Isso virou um ponto recorrente de desgaste e ajudou a alimentar a imagem de contradição entre “escrever sobre abuso” e como ela teria reagido quando o assunto encostou perto demais da vida real.
Com isso em mente, “Mulher em Queda” acaba sendo um livro sobre uma autora sendo esmagada pela opinião pública, escrito por alguém que conhece bem esse tipo de rejeição coletiva. A People, por exemplo, tratou o lançamento como uma história que conversa diretamente com a relação da Colleen Hoover com as redes sociais e com o peso da viralização e do ódio online, mesmo ela reforçando que não é autobiográfico. Nesse sentido, o romance soa como uma tentativa de recuperar a narrativa: não necessariamente como uma justificativa, mas como um jeito de reposicionar esse tema no terreno do medo, da paranoia e da invasão.
E é justamente aí que o livro fica difícil de separar do contexto em que ele nasce. Juntando tudo, “Mulher em Queda” vira um livro que fala de internet, fama e violência íntima, mas que também é inevitavelmente lido como parte do próprio “caso Colleen Hoover”. Para muita gente, ele parece uma autora usando um assunto real e atual (cancelamento, exposição, abuso) enquanto continua tratando esse tipo de matéria-prima de um jeito que parte do público considera superficial e, em alguns momentos, até irresponsável.
Essa leitura ganha ainda mais força por causa de uma escolha bem específica: a nota no começo de “Mulher em Queda”, escrita de forma enfática, insistindo que a história não é sobre ela, que não foi inspirada na vida dela e que não é uma versão disfarçada de nada que ela viveu. E isso é curioso porque, na prática, em vez de cortar comparações pela raiz, esse tipo de aviso tende a fazer o contrário: ele chama atenção para a possibilidade de comparação. Não como “prova” de nada, mas porque o tom é tão insistente que passa a impressão de que ela já sabe exatamente qual vai ser a leitura de muita gente e está tentando desarmar essa interpretação antes mesmo de o livro começar.
No fim das contas, a nota funciona quase como um escudo narrativo. Ela tenta colocar o texto num lugar mais neutro, como se dissesse: “não comprem isso como desabafo, não leiam como resposta, não usem a minha imagem para julgar o livro”. Só que, considerando o histórico de polêmicas em torno dela e o fato de o enredo girar justamente em torno de uma autora atacada pela internet, é quase inevitável o leitor pensar: ok, mas então por que esse esforço todo para negar?
A sensação que fica não é tanto de transparência, e sim de cautela. Parece menos um aviso inocente e mais um movimento de autoproteção, como quem tenta impedir que a história vire munição em uma discussão que ela sabe que já existe — sobre cancelamento, responsabilidade e sobre como ela mesma é vista quando escreve sobre temas delicados. E aí entra a contradição: quanto mais ela se antecipa para negar, mais reforça que existe algo que pode ser lido como “próximo demais”. Mesmo que não seja autobiográfico de fato, a nota dá a impressão de que ela está tentando controlar a leitura do público com uma frase pronta, porque entende que, sem isso, a personagem vai ser usada como espelho dela. E não por admiração, mas por ataque.
No fim, esse paratexto vira parte do próprio livro porque mexe com a confiança do leitor. Você começa a história já pensando no que está por trás da necessidade de garantir tanto que não é sobre ela. E isso combina com a proposta do romance, só que também enfraquece um pouco o efeito. Em vez de deixar o suspense se sustentar sozinho, fica a sensação de que existe uma preocupação externa guiando a recepção, como se ela estivesse mais preparada para o tribunal da internet do que confiante de que a história fala por si.
É aquele tipo de coisa que, para alguns, pode soar como honestidade preventiva. Mas para muita gente acaba soando como tentativa de blindagem: não para proteger o leitor, e sim para proteger a autora do paralelo mais óbvio.
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| AUTORA: Colleen Hoover TRADUÇÃO: Priscila Catão EDITORA: Galera PUBLICAÇÃO: 2026 PÁGINAS: 378 COMPRE: Amazon |

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