11 de novembro de 2025

A MISTERIOSA CONFEITARIA DA MEIA-NOITE – DOCE E SENSÍVEL

Quando Yeonhwa perde a avó, uma mulher enigmática e distante, ela recebe como herança a confeitaria Hwawoldang, que está na família há gerações. Já faz um tempo que a loja não anda bem das pernas, e Yeonhwa pretende vendê-la o quanto antes, mas é surpreendida por um pedido inusitado da avó: ela deve manter a confeitaria aberta por pelo menos um mês, com funcionamento das 22h à meia-noite.

Sem escolha, Yeonhwa é obrigada a pôr a mão na massa — literalmente. Enquanto aprende a fazer os tradicionais doces asiáticos vendidos na Hwawoldang, ela também espera descobrir um pouco mais a respeito da avó.

Em seu primeiro dia de trabalho, porém, é surpreendida por um fornecedor de ingredientes que dá a entender que a Hwawoldang não é uma confeitaria comum e que os clientes que a frequentam não estão exatamente vivos…

A cada vez que alguém entra na loja, Yeonhwa é transportada para dentro de suas lembranças, com a oportunidade de ajudá-los a curar suas feridas… mas será que ela também vai conseguir encontrar conforto para o seu próprio coração?

Eu não esperava que esse livro fosse me tocar tanto. Comecei achando que ia ser uma fantasia leve, talvez até um pouco repetitiva, mas encontrei uma história doce no melhor sentido da palavra. Não só pelos doces em si, mas pela forma como fala de amor, perda e memória com delicadeza, com um fundinho de melancolia.

No começo, Yeonhwa aceita manter a loja meio no automático — mais para poder pagar as dívidas que a avó também deixou —, sem saber cozinhar muito bem, sem saber o que está fazendo ali. Mas logo descobre que os clientes da confeitaria não são pessoas comuns. São espíritos, visitantes que chegam com um último desejo: provar um doce que marcou a vida deles. E, com isso, conseguir seguir em paz.

O livro tem um formato quase de série, com uma história por capítulo. Cada noite traz um cliente diferente, com uma dor diferente. E um doce específico acaba sendo o gatilho que faz essa dor vir à tona; uma lembrança de infância, uma amizade desfeita, um amor que ficou no meio do caminho, uma culpa que nunca cicatrizou. E a cada visita, Yeonhwa não só ajuda o outro a se despedir, como também vai entendendo melhor a própria avó, a loja, e a si mesma.

O mais bonito pra mim foi ver como o livro mistura o cotidiano com o mágico de um jeito muito natural. O sobrenatural não tem susto, não tem tensão. É mais como uma extensão suave da realidade, como se a morte fosse só mais uma visita que chega de mansinho pra tomar chá. A escrita é calma, sensível, quase poética às vezes. E o tom muda dependendo da cena: quando é Yeonhwa narrando, a linguagem é mais direta, mais moderna; mas quando entramos nas histórias dos visitantes, tudo fica mais emocional, mais lírico. Isso dá uma variedade gostosa à leitura, como se o livro tivesse várias vozes conversando entre si.

Também me chamou atenção como a cultura coreana está presente em cada pedacinho, nos doces, nos rituais, na forma de tratar a memória e a passagem do tempo. Isso dá um sabor especial à narrativa, porque tudo tem um sentido simbólico: o chá, o horário, os ingredientes. E, mesmo com a leveza, o livro também dá pequenas cutucadas sociais, críticas discretas que aparecem nas entrelinhas e fazem pensar. É bom ter isso em mente, algumas escolhas dos personagens fazem mais sentido dentro do contexto cultural coreano, que pode ser bem diferente do nosso.

Se eu tiver que apontar algo que me incomodou um pouco, foi o final. Não que seja ruim — pelo contrário, é bonito — mas achei que foi meio apressado. Faltou um tempinho a mais, como se a conversa tivesse acabado antes da gente terminar o chá.

No fim das contas, “A misteriosa confeitaria da meia-noite” é um livro sobre o que a gente deixa uns pros outros sem perceber. Sobre heranças que não são objetos, mas gestos, afetos. E sobre como o amor pode continuar, mesmo quando a pessoa vai embora. Com um toque de magia, uma colher de memória e muito cuidado.

Se você está num momento sensível, ou com saudade de alguém que partiu, esse livro pode ser um abraço. E se não estiver, talvez ele só te lembre que um dia todo mundo vai precisar de um gesto de acolhimento, de preferência com um doce quentinho e alguém disposto a ouvir.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Lee Onhwa
TRADUÇÃO: Juliane Ferreira da Silva Santos
EDITORA: Paralela
PUBLICAÇÃO: 2025
PÁGINAS: 240
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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