AS DUAS VERSÕES DE NÓS DOIS

14 de fevereiro de 2021
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3 min de leitura

Daniel conheceu Olívia em um jantar beneficente, totalmente ao acaso. Ele vinha de um período de superação, após o término com Letícia, a ex-namorada, que partiu para a Irlanda e o deixou plantado no saguão do aeroporto. Daniel e Olívia criam uma espécie de conexão quase de imediato. Ele vai para o apartamento dela após o jantar, interagem, bebem muito e Daniel acorda no dia seguinte na cama de Olívia sem se lembrar do que aconteceu, ou se aconteceu.

Dois anos se passaram e os dois viraram melhores amigos. Daniel apaixonado, mas fincado na temida friendzone, porque não se lembra se naquela primeira noite aconteceu algo, e se aconteceu, o motivo de Olívia não comentar nada. E esse é o principal motivo que o desmotiva a tentar se declarar. Já Olívia pula de relacionamento em relacionamento, sempre com caras escrotos, que pouco ligam para ela. Além de tudo, Olívia desabafa todas as suas frustrações amorosas nos encontros semanais com Daniel, que ouve resignado com medo de reclamar e perder a amiga.

As coisas pioram quando um colega de Daniel faz uma bobagem no emprego e dá um jeito de jogar a culpa em cima de Daniel, que é demitido por conta disso. Soma-se a isso a descoberta de Olívia de que sua mãe tem câncer. Daniel e Olívia se desentendem, brigam, e Olívia resolve se afastar para cuidar da mãe. Daniel fica sem chão. Desempregado, sem sua paixão, ele não sabe o que fazer. Até que Ananda (sim, Ananda), uma funcionária da lanchonete onde Daniel e Olívia se encontravam, oferece uma oportunidade de trabalho para Daniel, além de suprir uma carência emocional que dá a chance de Daniel se levantar.

AS DUAS VERSÕES DE NÓS DOIS é um romance despretensioso que toca em um dos pontos mais comuns entre a relação de duas pessoas: a primeira vê a segunda como amiga, e a segunda vê a primeira como uma paixão. O medo de perder uma relação baseada em amizade, impede que a segunda se declare. Então essa relação, que na verdade não é de amizade, mas de interesse, entra na zona tóxica da dependência e do sofrimento.

A narrativa é em primeira pessoa, feita por Daniel, e em quase todos os seus pensamentos, ele deixa claro que apenas suporta as constantes queixas de Olívia dos namorados e da vida, pela esperança de um dia ter coragem para se declarar e ser correspondido. Na minha visão, isso sequer é amor. Amor predispõe cumplicidade, admiração, aceitação. O que Daniel sente por Olívia não é nada disso, uma vez que ele não se interessa pela vida dela, sequer é verdadeiro o suficiente para expressar suas opiniões sobre com quem ela namora ou dos problemas que ela enfrenta. Ele aceita tudo, concorda com tudo, de forma falsa, com medo de perder Olívia.

Já Olívia representa um outro problema. Ela sabe o que aconteceu naquela primeira noite, quando conheceu Daniel, e sabe que ele não se lembra. Mesmo assim, ela se omite. Mais ainda, ela usa a relação para extravasar, sem dar chance ou se importar com os problemas que Daniel enfrenta. Por isso acontece a briga que os separa. Daniel perde o emprego ao mesmo tempo em que Olívia descobre o problema de saúde da mãe. Os dois precisam de apoio e nenhum dos dois está pronto ou quer dar esse apoio. O egoísmo da relação que eles mantêm é o que os afasta.

Eu realmente não consegui sentir qualquer empatia ou simpatia pelos dois personagens. Eles são mesquinhos demais com seus sentimentos e egoístas demais para se relacionarem. Mesmo quando Ananda entra na história, em um primeiro momento como um escape emocional para Daniel, e em um segundo momento como uma salvação profissional, acaba perdendo o significado quando some de cena sem maiores explicações, apenas para dar espaço para o retorno de Olívia. Eu achei que Ananda seria a personagem que poderia modificar Daniel, fazer com que ele deixasse de ser vitimista e passasse a ser a alguém com atitudes, mas nada disso acontece.

Nem mesmo quando chegamos ao final de AS DUAS VERSÕES DE NÓS DOIS, a redenção vem. O discurso que Daniel faz a Olívia, e as coisas que ela responde, são forçadas, apressadas, e soam totalmente falsas, como escritas pelo autor apenas para dar uma quase conclusão para a história. Da forma como os dois personagens foram construídos, nenhum deles merece ter qualquer relacionamento até que adquiram uma maturidade sobre os próprios sentimentos e as próprias atitudes. Entretanto, a sensação que eu senti, é que o autor não conseguiu estabelecer essa maturidade, resultando em personagens rasos, incoerentes.

AS DUAS VERSÕES DE NÓS DOIS tenta conversar sobre aquela dor que se tem quando o amor não é correspondido. Infelizmente não consegue e cria um resultado que não satisfaz, que não educa, mas que demonstra que esse sofrimento, no caso dos dois personagens, é resultado de muito egoísmo e, por incrível que pareça, da falta de amor um pelo outro.

Apesar de não salvar a história, a edição está muito caprichada, com vários desenhos fofos, alguns tristes, frases, pensamentos, cores, enfim, muito bem produzida.


AUTOR: Júlio HERMANN
EDITORA: Faro
PUBLICAÇÃO: 2020
PÁGINAS: 176


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

2 Comments Deixe um comentário

  1. Esse livro me chama a atenção primeiro por ser da Faro(eu amo a diagramação da Editora) minha pouca visão agradece muito rs
    Uma pena não ter funcionado o enredo para você. Esse livro divide opiniões, afinal a juventude tem isso e demais, do egoísmo. Dos sentimentos julgados únicos e por isso, sim, prejudicam as relações.
    Mesmo assim, com esse enredo em raso, eu tenho muita vontade ler o livro sim!!!
    Beijo

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