BELLEVILLE

6 de março de 2020
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3 min de leitura

Lucius chega a Campos do Jordão para estudar na faculdade da cidade, uma das melhores do país, e se formar no curso de Matemática. Com a ajuda do pai, ele aluga um velho casarão arrendado em um leilão e cujo proprietário não tinha intensões de ocupá-lo num futuro próximo. Apesar de não precisar de tanto espaço, o valor do aluguel era irrisório.

Logo que chega, Lucius fica curioso com uma grande biblioteca que existe na casa e acaba, acidentalmente, encontrando a foto de uma linda moça ruiva, que segura uma caixa ao lado de um pequeno buraco feito na terra, bem ao lado de uma estaca de madeira. A foto data de 1964. Curioso, Lucius desbrava o enorme terreno atrás da casa e se surpreende ao se deparar com o início da construção de trilhos. Procura a estaca onde a moça estava quando tirou a foto e, ao cavar o local, descobre a caixa que ela segurava. Dentro da caixa, uma carta endereçada ao futuro morador do local, onde Anabelle, a moça da foto, descreve o sonho de seu falecido pai de construir uma montanha-russa no terreno da casa, a que deu o nome de Belleville.

Comovido, Lucius resolve também escrever sua carta reforçando o pedido. Guarda as duas folhas dentro da caixa e volta a enterrar. Cinquenta anos no passado, Anabelle desiste do intenção de deixar a carta enterrada. Para sua surpresa, ao abrir a caixa, depois de a retirar do buraco, encontra uma outra carta junto da sua, escrita por alguém chamado Lucius.

Esse é o início da obra criada por Felipe Colbert. Uma mistura de romance com viagem no tempo. Lucius e Anabelle se comunicam através das cartas enterradas no terreno, e os dois acabam se apaixonando, mesmo sem se conhecerem pessoalmente.

A primeira metade do livro é centrada no convencimento de que os dois realmente estão se comunicando através de um espaço temporal de cinquenta anos. As cartas que trocam são tocantes e engraçadas. Primeiro, a indignação de participarem de uma brincadeira de mau gosto; depois a curiosidade sobre a possiblidade de estarem vivendo algo fantástico; a constatação de que realmente os dois se comunicam através do tempo, e, finalmente, a descoberta de que a vida de Anabelle pode estar em perigo.

Isso porque, nessa metade do livro, o tio de Anabelle surge para reclamar a autoridade sobre a sobrinha e sobre a herança deixada pelo irmão. O homem é um monstro de maldade e transforma a vida de Anabelle em um inferno, direcionando a história para a urgência de Lucius evitar uma tragédia, mesmo estando cinquenta anos no futuro.

Lucius é um personagem obstinado, com as qualidades de quem abre mão de seu futuro acadêmico com o intuito de realizar o sonho do pai de uma garota que não conhece e que viveu cinquenta anos antes dele. Anabelle é corajosa e enfrenta seu destino nas mãos do tio com o tipo de força que compete a mulheres de fibra, mesmo tendo apenas 18 anos. Os dois encontram nas palavras de suas cartas, a força para abrirem mão de seus sonhos. Ou, como se descobre no fim, da possibilidade de destruírem suas vidas para a realização dos sonhos um do outro. E esse é o significado do verdadeiro amor: abstinência da própria segurança pela pessoa amada.

BELLEVILLE é uma leitura deliciosa, ingênua, romântica, despretensiosa, simples. Existem alguns defeitos, sim, como a narrativa, que é em primeira pessoa, feita por Lucius e Anabelle, e nem sempre em capítulos alternados. Não existe uma identificação no início do capítulo sobre quem está narrando, obrigando, às vezes, o leitor a passar por algumas linhas até conseguir descobrir se é Lucius ou Anabelle quem está contando a história. Outro problema, é que as cartas dos dois protagonistas estão em uma fonte que imita a letra humana. É bonito visualmente, mas torna a leitura cansativa, porque o leitor precisa tentar decifrar uma palavra ou outra devido à fonte.

A obra de Felipe Colbert não possui nenhuma real novidade se comparada a histórias semelhantes, mas a escrita é impecável e o romance dos dois protagonistas é comovente. Na segunda metade do livro, eu simplesmente não conseguia deixar de ler para descobrir o destino de Anabelle e Lucius. E isso só autores competentes conseguem transmitir através das palavras.

Descobri BELLEVILLE acidentalmente em uma bienal aqui de Belo Horizonte. Estava no stand da Leitura e vi em um canto uma pilha de livros com o desenho de uma ruiva na frente de uma montanha-russa. Pela sinopse envolver viagem no tempo, acabei comprando de curiosidade. Fora esse momento, e apesar de estar sempre à procura de novidades para ler, nunca vi nenhuma propaganda do livro, o que demonstra a constante falta de iniciativa na divulgação de obras nacionais de escritores iniciantes. Isso é uma pena.


AUTOR: Felipe COLBERT
EDITORA: Novo Conceito
PUBLICAÇÃO: 2013
PÁGINAS: 304


COMPRAR: Amazon


Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

8 Comments Deixe um comentário

  1. Lendo a resenha me lembrei de um filme lindo, A Casa do Lago, onde a temática é bem parecida. Talvez seja até muito parecida e como amei o filme, fiquei encantada com a resenha acima!
    Nossa literatura é tão rica que cada dia fico ainda mais surpresa.
    Já estou curiosa e ansiosa para poder conferir este livro e saber se essa história de amor, se encontrará em algum momento!
    Lista de desejados!
    Beijo

    • Eu sempre pensei que esse livro não era nacional, eu gosto da capa,do título e agora da sua resenha.
      Vou ler pois viagens no tempo são sempre interessantes.
      Acho que mais pessoas deveriam conhecer a literatura nacional, tem muita coisa boa no meio de tanta mediocridade. Mas tem que procurar,se não se cai sempre no “mais do mesmo”.
      Quando você fala”escrita impecável ” me basta!

  2. Oi, Carl
    Não conhecia o livro, pela capa e título não parece ser nacional.
    Mas gostei de conhecer mais um livro nacional lamento não ser tão divulgado quanto outros nacionais.
    Assim como você a única coisa que viria me incomodar seria saber qual personagem está narrando no momento.
    Parece ser um livro que prende o leitor e tem viagem no tempo, tenho muita vontade de ler livros com esse tema. Vai para a lista de desejos, beijos.

  3. Que livro interessante! Não acredito que não é tão divulgado.
    A história nós já vimos por aí mas me apaixonei pela resenha. Vou dar uma procurada por ele no Skoob

  4. Carl!
    Foi uma das leituras mais fascinantes que fiz há alguns anos atrás e depois dele, já li outro livro do autor que também é fenomenal.
    Gosto de livros que trazem o tema viagem no tempo e a forma como foi elaborada essas passagens no tempo, achei criativa, sem contar com o romance que é doce e encantador.
    cheirinhos
    Rudy

  5. Olá! A história em si já despertou meu interesse, pois gosto bastante dessa premissa de viagem no tempo e mesmo já tendo lido muita coisa parecida, fica sempre aquela curiosidade de conhecer uma nova história e essa promete me deixar bem curiosa hein, só pela resenha já fiquei aqui pensando no que aconteceu com os personagens!

  6. Oi Carl,
    Pela resenha imagino Belleville uma deliciosa leitura para curar uma boa ressaca literária.
    A escrita despretensiosa e romântica me cativa rsrs. Confesso que a ideia de se comunicarem por cartas, mesmo sem se conhecerem é linda, ainda mais com a questão da viagem no tempo. As falhas da narrativa em primeira pessoa podem ser perdoadas devido à essa trama leve e gostosa.

  7. Olá!
    Gosto bastante de historia que envolve viagem no tempo, faz eu ficar mais curiosa sobre esse tema. A historia é interessante, tem uma boa premissa e uma historia envolvente. Fiquei um tanto interessada pelo desenrolar da trama.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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