30 de março de 2026

A DANÇA DA SERPENTE — INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E APAGAMENTO SOCIAL

Avaliação

ENREDO
9/10
PERSONAGENS
8/10
ESCRITA
8/10
RITMO
7/10
ORIGINALIDADE
8/10
FINAL/CONCLUSÃO/CLÍMAX
8/10
Geral
8.0/10
AUTOR: Paulo Stucchi • EDITORA: Jangada • 2026 • PÁGINAS: 472

A dança da serpente” é um romance que eu li menos como uma simples narrativa histórica e mais como um livro sobre permanência da violência, do controle e do apagamento.

A estrutura em dois tempos, ligando o século XVIII ao ano de 1977, em plena ditadura, não está na história apenas para criar paralelos bonitos. Ela organiza a leitura de um país que muda de época, de linguagem e de aparato de poder, mas continua reagindo com repressão diante daquilo que não consegue controlar, sobretudo quando isso passa pelo corpo, pela religião, pela memória e pelo poder de mulheres.

O romance se apoia em duas frentes narrativas muito claras. De um lado, está Luzia Pinta, figura histórica real, uma mulher africana escravizada, ligada aos calundus, perseguida pela Inquisição e transformada pelo livro em eixo ancestral dessa história. De outro, estão Cléo e Clarice, irmãs gêmeas marcadas desde cedo por um dom espiritual que desperta temor, fascínio e rejeição. O que faz o romance funcionar é que essas duas frentes não parecem montadas como blocos separados. O passado de Luzia não entra como ornamentação erudita. Ele organiza o sentido do presente das irmãs e dá profundidade histórica àquilo que acontece com elas em Sabará.

A história de Cléo e Clarice é atravessada por uma estrutura familiar fraturada. Depois da morte da mãe, elas passam a ser cuidadas por Salete, tia das duas, e por Guto, marido dela. Esse núcleo tem peso real no romance, porque não se trata apenas de parentes secundários colocados para preencher a árvore genealógica. São eles que assumem a função prática de cuidado quando o pai falha. O pai das meninas é ausente, não aceita o dom que elas demonstram e ainda manifesta rejeição específica por Cléo. Essa diferença de tratamento ajuda a organizar uma das tensões mais duras do livro: nem toda violência vem de fora, do Estado, da Igreja ou da elite local; parte dela nasce dentro da própria família, na forma de abandono, negação e escolha de quem merece ser protegido.

Essa desigualdade fica ainda mais evidente quando o passado de Cléo vem à tona. Na adolescência, ela é abusada por Miro e engravida. O modo como o romance lida com isso é importante porque o crime não aparece isolado do contexto social que o protege. Miro e Tonho são irmãos, filhos de gente rica e poderosa em Sabará, e essa posição social interfere diretamente no destino de Cléo. Em vez de haver reparação, há silenciamento. O padre da igreja local a leva para Belo Horizonte para que ela tenha a criança em segredo. O problema precisa ser escondido, não enfrentado. O que se administra não é justiça, mas dano político e social. O romance acerta ao mostrar que a violência sexual, nesse contexto, não se limita ao abuso em si. Ela continua na rede de proteção ao agressor, na ocultação da gravidez, no exílio forçado da vítima e no rearranjo da verdade para que os poderosos continuem intactos.

O filho que Cléo tem nesse contexto, Bernardo, cresce em Sabará sem saber quem ela é de fato. Ele fica sob os cuidados de Salete e do pai das meninas, enquanto Cléo segue longe e vai morar em São Paulo. O dado mais duro é que Bernardo acredita que sua mãe é Clarice e vê Cléo apenas como tia. Essa escolha narrativa é forte porque transforma o retorno de Cléo em algo muito mais complexo do que uma simples volta à cidade natal. Ela não retorna apenas ao lugar do trauma. Ela retorna a uma vida que seguiu sem ela, a um filho que não a reconhece como mãe, a uma história reorganizada por outros e a vínculos contaminados por mentiras e omissões.

Clarice, por sua vez, não reage ao que aconteceu à irmã pelo caminho do esquecimento. Ela mata Miro para vingar Cléo, confessa o crime e acaba internada em um manicômio. O livro parece trabalhar bem a ambiguidade desse destino: a internação existe por causa do assassinato, mas também por causa das visões que Clarice tem. Isso importa porque o romance não separa com facilidade punição criminal, controle social e repressão ao que foge da normalidade. O manicômio, nesse caso, não funciona apenas como instituição médica, mas como lugar de contenção de uma mulher que matou, que vê o que os outros não veem e que não cabe mais dentro das formas aceitáveis de ordem. Depois que sai dali, Clarice inicia o caminho que a transforma na Sacerdotisa de Sabará. Esse percurso dá ao romance uma linha de continuidade muito clara: aquilo que o mundo tentou enquadrar como loucura, crime ou desvio reaparece mais tarde como força espiritual organizada, com seguidores, presença pública e impacto social.

Quando Cléo retorna a Sabará em 1977 para entender o que aconteceu com Clarice e como ela se tornou essa figura central, o romance ganha uma camada investigativa, mas não no sentido de um thriller puro. O que está em jogo não é só descobrir fatos. É enfrentar o acúmulo de tudo o que foi empurrado para debaixo da superfície. Cléo precisa lidar com o trauma da adolescência, com Bernardo, com Tonho, com o pai, com a memória de Miro e com as sombras de mortos que continuam aparecendo para ela. Essas presenças ampliam a dimensão espiritual da narrativa, mas também funcionam como forma de dizer que o passado não foi enterrado. Em “A dança da serpente”, os mortos não permanecem em silêncio porque a cidade também não conseguiu resolver o que fez com eles nem o que permitiu que fosse feito.

Bernardo é uma peça especialmente importante nesse retorno porque ele condensa uma das perdas centrais da vida de Cléo. Não se trata apenas do filho que ela deixou para trás, mas do filho cuja história foi reescrita sem ela. O encontro entre os dois, nesse contexto, carrega menos idealização do que conflito. O romance parece entender que maternidade, ausência e pertencimento não se recompõem automaticamente pela revelação da verdade. Existe um dano anterior, sedimentado por anos, e esse dano passa também pela forma como a cidade, a família e as relações de poder decidiram quem podia falar e quem precisava desaparecer.

Tonho também tem função importante nessa engrenagem. Como irmão de Miro, ele não representa apenas a continuidade familiar do agressor, mas a permanência concreta daquela estrutura social que tornou o crime possível e administrável. Cléo não volta a uma cidade neutra. Ela volta a um espaço ainda povoado por relações que participaram direta ou indiretamente da destruição de sua adolescência. Isso dá consistência ao romance porque impede que o passado seja tratado como um capítulo encerrado. Em Sabará, o que aconteceu continua organizado dentro das pessoas.

A presença de Luzia Pinta sustenta tudo isso em outro plano. O romance parte de uma figura histórica real e, pelo que o livro constrói, preserva em linhas gerais o que se conhece dela: origem africana, escravização, atuação como curandeira ligada aos calundus, perseguição inquisitorial e prisão em Portugal. Mas o romance avança além do registro documentado ao imaginar o que acontece depois. Após deixar a prisão, Luzia atravessa o contexto do terremoto de Portugal, em 1755, e consegue retornar ao Brasil. Essa solução é ficcional, mas não soa gratuita dentro da lógica do livro. Ela serve para reinscrever Luzia na terra de onde havia sido arrancada à força e, ao mesmo tempo, reforça a ideia de sobrevivência histórica que o romance quer construir. O importante, para mim, não é discutir isso como fidelidade literal ao arquivo, e sim perceber que o livro usa essa continuação para recolocar Luzia dentro de uma linha de transmissão que conecta passado e presente.

Essa ligação entre Luzia e as gêmeas não funciona apenas como herança sobrenatural. Ela organiza um debate religioso que atravessa o romance inteiro. No passado, esse debate aparece na perseguição inquisitorial, na criminalização de saberes de cura e na tentativa de enquadrar práticas africanas como heresia. Em 1977, ele retorna em outro ambiente repressivo, o da ditadura, que também precisa controlar narrativas, sufocar o que circula fora das formas autorizadas e apagar rapidamente aquilo que ameaça desorganizar a ordem. A Sacerdotisa, nesse contexto, não é só uma líder espiritual. Ela é um problema político. Durante a ditadura, tudo o que fugia ao controle podia ser tratado como risco ou foco de instabilidade. O livro trabalha bem essa lógica ao mostrar como a urgência em acabar com a história da Sacerdotisa não vem apenas de discordância religiosa, mas de um impulso mais amplo de vigilância e apagamento.

Esse é um dos aspectos mais consistentes do romance. A ditadura não aparece apenas como moldura temporal. Ela interfere no modo como a cidade lida com circulação de versões. Em um tempo em que tudo precisava ser controlado, a figura da Sacerdotisa se torna intolerável justamente porque escapa aos filtros institucionais. O regime quer encerrar a história, controlar o alcance da narrativa e impedir a expansão de um poder que não passa pelo Estado, pela Igreja oficial nem pelas elites locais. Nesse sentido, o livro consegue mostrar que o apagamento é método. O que não pode ser absorvido precisa ser deslegitimado e removido.

O romance também me parece cuidadoso ao não reduzir o tema religioso a simples oposição entre fé verdadeira e superstição. O que está em disputa é autoridade. Quem pode dizer o que cura? Quem pode interpretar visões? Quem pode reunir pessoas em torno de um rito? Quem pode transformar experiência espiritual em legitimidade pública? Essas perguntas atravessam tanto a trajetória de Luzia quanto a de Clarice. Em épocas diferentes, ambas se tornam alvo não apenas porque fazem algo extraordinário, mas porque ocupam um espaço que a ordem dominante não aceita ver nas mãos delas.

No desfecho, o livro ainda acrescenta um elemento importante: a revisão do que parecia estabilizado como verdade. Há um ponto de virada em que a narrativa desloca a leitura dos acontecimentos e deixa claro que nem tudo era exatamente como parecia ao longo da maior parte da história. Isso muda o peso de várias tragédias, porque o romance sugere que os responsáveis por certos fatos podem não ser aqueles que, à primeira vista, ocupavam esse lugar.

Esse movimento final é relevante porque impede uma leitura simplificada dos conflitos. As tragédias deixam de funcionar apenas como resultado direto de culpas já definidas e passam a exigir uma reconsideração dos interesses, das intenções e das forças que atuaram por trás delas. O mesmo vale para as mortes que atravessam a narrativa. O livro indica que elas não obedecem necessariamente à explicação mais imediata, e que seus objetivos e seus executores podem ser outros. Com isso, a reta final amplia o alcance do romance: ele não fala apenas de violência e apagamento, mas também de como a verdade pode ser construída, distorcida e mantida sob controle por muito tempo.

Porém, eu penso que o romance perde um pouco do ritmo em alguns trechos. Há passagens tanto na linha de 1977 quanto na do século XVIII que se estendem além do necessário e poderiam ser mais condensadas sem prejuízo do conteúdo. Em certos momentos, essa dilatação desacelera a progressão da leitura e reduz a agilidade da narrativa. Ainda assim, não vejo isso como um problema capaz de comprometer o resultado do livro. A estrutura continua consistente, os núcleos principais se sustentam e o conjunto preserva sua força mesmo quando o andamento perde um pouco de fôlego.

No conjunto, “A dança da serpente” me parece um romance sólido justamente porque amarra bem seus elementos. A violência sofrida por Cléo, o gesto de vingança de Clarice, a criação de Bernardo longe da mãe, a presença de Salete e Guto como figuras de cuidado, a omissão do pai, a permanência de Tonho, a memória de Miro, a força histórica de Luzia Pinta e a repressão da ditadura não aparecem como peças soltas. Tudo gira em torno de uma mesma questão: o que uma sociedade faz com mulheres que carregam poder em contextos montados para silenciá-las.

O livro não me parece interessado em consolar. Ele mostra que o passado não passa porque foi mal enterrado, mal contado e, muitas vezes, deliberadamente deformado. Ao ler essa história, eu não fico com a impressão de estar diante de uma saga apenas sobre dons espirituais ou sobre uma família marcada por tragédias. O que vejo é um romance sobre controle social, desigualdade de proteção, manipulação da verdade e repressão travestida de ordem. Luzia Pinta dá a essa leitura um lastro histórico importante. Cléo e Clarice transformam esse lastro em experiência íntima, familiar e política. E a ditadura, ao entrar em cena, deixa claro que apagar histórias sempre foi uma das formas mais eficientes de manter poder.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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