O livro mistura terror, romance e crítica social para falar de dor, fé e pertencimento em uma cidade pequena sufocada por um culto religioso violento. A autora usa o clima de horror e o sobrenatural não só para assustar, mas para aprofundar traumas familiares, luto e amadurecimento, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo sombria e profundamente emocional.
No centro da história estão Wil Greene e Elwood Clarke, dois ex‑melhores amigos que foram separados por mágoas, segredos e pela influência do Jardim de Adão, a igreja/seita comandada pela família de Elwood. É a partir do reencontro forçado dos dois que o livro consegue explorar tanto o mistério da cidade quanto a transformação interna de cada um.
Wil começa o livro atravessada por raiva e luto depois do desaparecimento da mãe, que a polícia e a cidade parecem ter escolhido esquecer. A frustração com a omissão das autoridades, a falta de apoio e o silêncio da comunidade vão moldando nela um perfil de protagonista combativa, desconfiada e cansada de ser tratada como exagerada.
Psicologicamente, Wil se protege com agressividade, sarcasmo e teimosia, levantando uma barreira contra qualquer tentativa de minimizar sua dor. Esse jeito “difícil” é consequência direta do ambiente: quem deveria acolher prefere manter a paz aparente da cidade, então ela responde rompendo com essa fachada.
Ao longo da trama, porém, essa raiva vai mudando de função. Em vez de só explodir contra tudo e todos, Wil aprende a direcionar essa energia para ações mais conscientes, como planejar, ouvir aliados e repensar quem realmente merece sua confiança.
A relação com Elwood é essencial para essa mudança. Quando ela se vê obrigada a se reaproximar dele para avançar nas respostas sobre a mãe, Wil precisa encarar que parte de suas certezas era uma forma de se proteger da dor e da decepção.
Elwood, por sua vez, é apresentado como o oposto de Wil: quieto, gentil, cheio de culpa e criado para obedecer cegamente ao pai pastor e à doutrina do Jardim de Adão. Ele vive sob pressão para ser o “filho perfeito”, carregando uma mistura de ansiedade, vergonha e medo de falhar espiritualmente.
No começo, os traços de Elwood giram em torno da submissão e da necessidade de agradar. A educação rígida, o controle emocional e o discurso religioso o ensinaram a silenciar a própria raiva, o próprio desejo e até a própria intuição.
A virada acontece quando ele descobre que não está sendo preparado para herdar a igreja, mas para ser sacrificado num ritual da seita, como “semente” destinada a alimentar a floresta que o Jardim de Adão cultua. Nesse momento, a imagem do pai muda de guia espiritual para algo próximo de carrasco, e a fé se mistura com uma sensação de traição absoluta.
Essa revelação também explica a lenda interna por trás do poder de Elwood: a seita acredita que a floresta exige sangue e que sacrificar o filho do pastor consolidaria a ligação entre culto, terra e “deus” da natureza. O ritual, porém, acaba gerando nele um vínculo vivo com essa força, transformando seu corpo em canal de vida vegetal e podridão, em vez de consumi‑lo de uma vez.
O Jardim de Adão, como seita, é construída em camadas. Na superfície, é a igreja respeitável da cidade, com o pastor Clarke visto como homem de fé, referência moral e líder de uma família poderosa.
Por baixo da fachada, a igreja funciona como um culto que mistura fanatismo religioso, violência física e sacrifícios humanos, usando túneis, câmaras secretas e um discurso teológico distorcido para justificar décadas de morte. A cidade inteira gira em torno desse poder, alimentando um pacto de silêncio que explica por que desaparecimentos como o da mãe de Wil são tão facilmente empurrados para debaixo do tapete.
Essa construção torna a seita não só um vilão externo, mas também um comentário sobre abuso de poder, fanatismo e conivência coletiva. Ao mostrar autoridades paralisadas, vizinhos calados e uma comunidade que prefere a estabilidade à verdade, o livro expõe como sistemas opressores sobrevivem apoiados pelo medo e pela conveniência.
Na relação entre Elwood e o pai, essa crítica ganha corpo. O pastor Clarke usa amor, fé e culpa como ferramentas de controle, confundindo a identidade do filho com o papel que a igreja exige dele, até o ponto de enxergá‑lo mais como instrumento sacrificial do que como pessoa.
Quando Elwood escolhe fugir, buscar Wil e usar o próprio poder contra o Jardim de Adão, ele rompe com essa lógica. O que antes era submissão se transforma em afirmação de identidade: ele deixa de ser a “semente” da seita para se tornar a força que a confronta.
A dinâmica entre Wil e Elwood se fortalece à medida que os dois investigam o culto e a floresta. Ela, acostumada a carregar tudo sozinha, aprende a partilhar a luta; ele, treinado para obedecer, aprende a dizer não, a negociar e a se posicionar ao lado dela, não mais abaixo da vontade do pai.
A floresta, por sua vez, funciona como imagem central dessa história: é cenário de medo, depósito de corpos e, ao mesmo tempo, espaço onde nasce um poder novo, ligado a Elwood e à possibilidade de romper o ciclo de sacrifícios. O horror físico – raízes, corpos, podridão – acompanha o horror psicológico e social, conectando as feridas da cidade às feridas dos personagens.
Wil e Elwood, nessa jornada, não viram heróis “limpos”. Carregam raiva, culpa, medo e cicatrizes, mas aprendem a transformar essas marcas em força para proteger quem amam e questionar as estruturas que os oprimiam.
No fim, “Juntos em Ruína” é um livro sobre como sistemas inteiros podem apodrecer em nome da fé e da tradição, e como pessoas comuns, cheias de falhas, podem escolher quebrar esse ciclo a partir de vínculos sinceros e escolhas difíceis. A história mostra que ruína não é só destruição: é também o ponto em que o velho desmorona e abre espaço para algo novo crescer, como a floresta que, reconfigurada, deixa de ser só fome e passa a ser também resistência.
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| AUTOR: Skyla Arndt TRADUÇÃO: Dante Luiz EDITORA: Universo dos Livros PUBLICAÇÃO: 2024 PÁGINAS: 288 COMPRE: Amazon |

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