O mangá, “A prisão no céu”, adaptado do romance de Mina Sakurai e desenhado com delicadeza por Marco Kohinata, é uma daquelas leituras que ficam com a gente depois que a última página se fecha. A história se passa dentro de um lugar improvável para acolher beleza: uma penitenciária feminina. É lá que funciona um salão de beleza cujas paredes são pintadas de azul — um azul que imita o céu, como se tentasse oferecer um pouco de liberdade dentro dos muros altos.
Ashihara Shiho, uma repórter, vai até a prisão para fazer uma matéria sobre esse salão. Lá, ela é atendida por Haru Komatsubara, uma das detentas. Haru cumpre uma longa pena por um crime sério, mas conquistou o direito de trabalhar como cabeleireira ali dentro. A cada cliente que passa pela sua cadeira — sejam outras presas, funcionárias do presídio ou visitantes do mundo de fora — novas camadas de dor, arrependimento, afeto e reconstrução são reveladas. A trama é episódica, como recortes de vidas que se tocam por alguns minutos.
Apesar do cenário carcerário, “A prisão no céu” não é um drama de denúncia nem um retrato cru do sistema prisional. Pelo contrário: ele escolhe a delicadeza. É uma obra sobre mulheres — presas ou não — tentando respirar, mesmo com o peso do passado nos ombros. A prisão não é o centro da narrativa, mas o pano de fundo para histórias mais íntimas, contadas com uma leveza que emociona sem precisar forçar nada.
A arte de Marco Kohinata acompanha esse tom. Os traços são suaves, os olhares carregam muito sem precisar de palavras. A diagramação dá tempo para respirar, e o ritmo da leitura convida à contemplação. Nada é acelerado. Nada é óbvio. Muitas vezes, o que importa está no não dito — no jeito como Haru segura a tesoura, no silêncio entre duas frases, no céu pintado que nunca muda.
Como leitura, é rápido — são apenas cinco capítulos — mas deixa uma impressão profunda. Cada história que passa pelo salão deixa um fio de humanidade. Não há exageros, grandes reviravoltas nem dramas escancarados. Tudo é contido, quase minimalista. E é exatamente aí que reside sua força.
O primeiro capítulo gira em torno de Ashihara, uma jovem repórter que tenta conquistar seu espaço em uma redação onde é tratada com desdém. Em busca de uma chance para provar seu valor, ela enfrenta o machismo cotidiano do ambiente de trabalho. Durante a visita ao salão de beleza dentro da penitenciária e após algumas conversas breves com Haru, Ashihara decide mudar radicalmente o visual. Mas o corte de cabelo vai além da estética: representa uma virada de postura, um novo olhar sobre si mesma e o impulso que faltava para enfrentar aqueles que a subestimam.
O segundo capítulo acompanha a agente penitenciária responsável por supervisionar Haru durante seu trabalho no salão de beleza. No início, ela encara a tarefa com rigidez, mas pouco a pouco passa a enxergar em Haru uma sensibilidade inesperada — e começa a compreender melhor os caminhos que a levaram à prisão. Paralelamente, as duas atendem uma jovem cliente com cabelos longos, que se prepara para iniciar um tratamento contra o câncer. Ela decide cortar tudo antes que os fios comecem a cair. A conversa entre elas e as escolhas feitas naquele momento carregam uma carga emocional profunda, tratadas com delicadeza e respeito. É uma cena de muita humanidade, onde o gesto de cortar cabelo se torna um ato de coragem, empatia e solidariedade.
O terceiro capítulo acompanha o cotidiano de uma senhora idosa que, aos poucos, parece ter perdido o sentido de sair de casa. A rotina se arrasta, e o tempo, para ela, já não oferece muitas promessas. Tudo muda quando ela descobre o salão de beleza dentro da penitenciária e se depara com a escuta atenta e a delicadeza de Haru. A partir desse encontro, a idosa começa a perceber que a vida não precisa ser contada em anos, mas em pequenos momentos de alegria — e que essas alegrias, muitas vezes, nascem de gestos simples. Ao cortar o cabelo, ela não apenas transforma sua aparência: reencontra uma versão de si mesma que não está limitada pela idade, pelas dores ou pelo tédio. Enxerga no espelho uma mulher que ainda pode mudar, escolher, viver.
O penúltimo capítulo se volta para a irmã de Haru e para o vínculo delicado que existia entre as duas antes da prisão. A narrativa, com sensibilidade, revela os conflitos do passado, os silêncios acumulados e, finalmente, o que levou Haru a ser presa. A relação entre elas era marcada por atritos e incompreensões, mas também por uma dor profunda que as afastou — uma tragédia que mudou tudo. Mesmo assim, o capítulo mostra que, mesmo após tanta ruptura, a reconexão ainda é possível.
Quando a irmã visita o salão, o reencontro acontece de forma contida, quase silenciosa, mas carregada de significado. Não há explosões emocionais nem grandes declarações: tudo se dá dentro da contenção típica dos costumes japoneses, onde respeito e afeto se expressam nos gestos mínimos. É justamente essa discrição que torna o momento tão comovente — duas mulheres marcadas pelo tempo, pela dor e pelo amadurecimento, tentando, com delicadeza, aparar as pontas soltas do passado.
O último capítulo mostra Haru já em liberdade, deixando para trás os muros da penitenciária e caminhando em direção a uma nova fase de sua vida. É o mais breve dos cinco capítulos, mas não menos tocante. Sem pressa, acompanhamos seus primeiros passos fora do cárcere — o reencontro com a irmã, o retorno à casa, o resgate do cotidiano que agora carrega outro peso, outra intenção.
Mais do que a simples felicidade de estar livre, há em Haru uma serenidade construída ao longo de sua jornada. O silêncio que antes parecia punição agora se transforma em espaço para recomeçar. É um desfecho suave, coerente com tudo o que a obra propõe: não há grandes discursos nem promessas, apenas a presença de alguém que, com cuidado, reconstruiu a si mesma. E que agora, finalmente, pode caminhar com leveza para sua segunda vida.
“A prisão no céu” talvez não seja um mangá para quem busca ação, tensão ou um olhar mais duro sobre o sistema prisional. O mangá escolhe olhar para dentro — das personagens e do leitor. Fala sobre recomeços possíveis, mesmo quando o mundo diz o contrário. E faz isso com uma ternura que raramente se vê.
No fim, não é sobre cortar cabelo. É sobre reconstruir a si mesma, fio por fio.
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| AUTORES: Marco Kohinata e Mina Sakurai ARTE: Marco Kohinata TRADUÇÃO: Cristhielle Ogura EDITORA: JBC PUBLICAÇÃO: 2025 PÁGINAS: 176 COMPRE: Amazon |

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