7 de setembro de 2025

SE NÃO FOSSE VOCÊ – O MENOS TÓXICO DA AUTORA

Morgan teve Clara aos dezessete anos e construiu uma vida toda certinha com Chris, enquanto a irmã mais nova, Jenny, sempre esteve por perto, meio que orbitando a família. Mas tudo muda depois de um acidente — e, junto com o luto, vêm segredos antigos que bagunçam ainda mais o presente. A narrativa alterna entre mãe e filha, e a gente acompanha esse processo de reconstrução pelas duas: Clara, se apaixonando pela primeira vez por Miller, e Morgan tentando descobrir quem ela é além de mãe — e o que de fato sente por Jonah, o velho amigo que também tem feridas abertas. No fundo, é uma história sobre traições, silêncios e, principalmente, sobre como seguir em frente quando o chão desaparece.

A alternância entre as duas vozes funciona. Ver a mesma situação pelos olhos de uma adolescente de 16 e de uma mãe de 34 traz profundidade e ajuda a entender por que as duas vivem se chocando. Além disso, o livro apresenta dois romances em ritmos e tons bem diferentes, o que dá uma certa dinâmica à leitura.

O prólogo, ambientado no passado, prepara o terreno: a gente entende que Morgan virou adulta cedo, assumiu responsabilidades que não eram dela e colocou os próprios sonhos em pausa. Esse traço de “segurar o mundo nas costas” explica muita coisa que ela faz no presente — especialmente o impulso de proteger Clara a qualquer custo, mesmo quando isso acaba sendo um tiro no pé.

No presente, Morgan está presa a uma rotina previsível e sente que perdeu o brilho. E é justamente essa sensação que a autora usa como ponto de partida para a jornada dela: depois de tantos anos sendo só mãe, ela precisa se redescobrir como pessoa. O contraste com Clara, que transborda vontade e intensidade, é proposital e rende bons atritos.

O acidente que desencadeia a trama não chega a ser impactante. E que alguns desdobramentos são um pouco previsíveis. A partir daí, a autora mergulha de cabeça em temas como luto, raiva e culpa — de um jeito bem dramático, às vezes até demais — mas que segura a atenção.

A relação entre mãe e filha é o centro do livro e, ao mesmo tempo, o que mais irrita. Algumas atitudes da Clara são bem impulsivas, quase cruéis, e Morgan toma decisões que beiram o absurdo, tamanha a quantidade de segredos e silêncios. Mas ainda assim, as duas soam reais. Dá pra enxergar pessoas machucadas, tentando acertar, se interpretando mal, perdidas em meio à dor, no pior momento possível.

Miller representa aquele típico romance adolescente com doses de leveza, humor e doçura — mas sem sair muito do lugar-comum. A autora até tenta criar momentos que remetam ao encantamento do primeiro amor, mas tudo soa um pouco superficial, como se faltasse profundidade ou verdade emocional. Em vários trechos, dá a impressão de que ela quis levar a relação para um tom mais sexual, mas recuou no último segundo, deixando as cenas num limbo estranho. O resultado é que, às vezes, os dois soam como adolescentes vivendo a descoberta, e em outras, como adultos frustrados, contidos por um roteiro que evita o assunto. Fica difícil acreditar neles por completo.

No lado adulto da história, Morgan e Jonah vivem aquele romance contido por anos — o clássico “quase desde sempre”. Tem o cuidado excessivo, a hesitação constante, o medo de ultrapassar limites… até que, claro, vem o reencontro. A ideia é construir uma segunda chance cheia de emoção, mas o resultado é previsível demais. Tudo segue um caminho esperado, sem surpresas, e falta à relação um momento realmente marcante, algo que faça o leitor se importar de verdade com os dois.

Algumas decisões da autora soam forçadas. A principal é o que Morgan faz com certas cartas. Muita gente vai sentir falta de ver essas respostas acontecerem de fato, na página. Além disso, há partes que claramente pediam um corte, principalmente nos conflitos da Clara, que se alongam mais do que precisam. Morgan também guarda segredos por tempo demais, e não de um jeito crível. Parece menos uma escolha da personagem e mais uma manobra da autora para manter a trama andando, já que esse mistério é o único elemento que realmente sustenta o suspense. Essa insistência torna a leitura um pouco arrastada, com repetições desnecessárias e cenas que poderiam ser mais bem resolvidas.

No fundo, o livro tenta explorar os laços de família e o que fazemos com a dor ao descobrir quem as pessoas realmente são. Em alguns momentos, consegue; em outros, estica uma trama que não tem fôlego suficiente para tanto. É, de longe, o livro mais contido que já li da autora — e dá pra perceber o esforço dela em não repetir fórmulas de histórias anteriores. Esse cuidado é visível, ainda que nem sempre funcione como poderia.

No fim das contas, “Se Não Fosse Você” é uma leitura que deve agradar quem curte dinâmicas entre mãe e filha, segredos de família e romances que se desenrolam em tempos diferentes. Pode funcionar bem como uma leitura leve, até para sair de uma ressaca literária — a escrita é simples, quase sem descrições, e bastante focada nos diálogos, o que dá ritmo.

Minha impressão final? Uma história com altos e baixos. Tem seus atalhos fáceis e algumas omissões que incomodam, mas consegue entreter. E, ao menos aqui, a autora deixa de lado muitos dos traços mais tóxicos que costuma inserir em outras tramas — o que já é um avanço.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Colleen Hoover
TRADUÇÃO: Carolina Simmer
EDITORA: Galera
PUBLICAÇÃO: 2020
PÁGINAS: 400
COMPRE: Amazon

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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