CONTO DE AREIA

26 de junho de 2020
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3 min de leitura

Se você não sabe quem foi Jim Henson, vou resumir: ele foi um dos caras mais criativos e importantes da indústria do cinema e televisão. Ele criou os MUPPETS, deu vida ao Yoda de STAR WARS, às criaturas do clássico de fantasia LABIRINTO, entre muitos e muitos outros personagens de pano, corda e varetas. Mas antes de tudo isso, no início de sua carreira, lá pelos anos de 1968, Henson e seu amigo, Jerry Juhl, escreveram o roteiro de um filme que acabou nunca sendo feito, não apenas pelo tom surrealista da história, mas porque Henson começou sua subida ao estrelato com a estreia de SESAME STREET, que você deve conhecer, aqui no Brasil, como VILA SÉSAMO.

Bem, o roteiro acabou esquecido nos arquivos da empresa, até que em 2012, Ramón Pérez, um dos mais talentosos desenhistas da atualidade, com trabalhos incríveis nas HQs de WOLVERINE, X-MEN e GAVIÃO ARQUEIRO, adaptou o único filme nunca produzido por Henson para a nona arte. Resultado? CONTO DE AREIA ganhou três prêmios EISNER (o Oscar dos quadrinhos): Melhor Álbum Gráfico, Melhor Desenhista e Melhor Design de Publicação, além de outros prêmios pelo mundo afora.

Em CONTO DE AREIA, acompanhamos Mac, o personagem principal, chegando em uma cidade do Oeste americano, sendo recebido como herói e recebendo do Xerife um mapa para ele poder chegar no alto de uma montanha, sendo que o mapa pode estar errado, e não existe um motivo para ele chegar no alto da montanha. O certo é que ele precisa chegar lá, antes que algumas pessoas consigam alcançá-lo com o objetivo de matá-lo. A partir de então, ele começa uma sequência de eventos sem qualquer lógica sequencial, passando por locais impossíveis de existir e conhecendo pessoas que sempre sabem mais do que ele e parecem confabular para algo que ele não compreende.

Como em toda história surrealista, não há como identificar apenas uma mensagem. Tudo depende da sensibilidade e da interpretação do leitor de cada situação. E cada situação pode funcionar de forma independente, com uma mensagem única. Existem teorias pela Internet sobre o que Henson queria transmitir, como a luta contra o cigarro, uma vez que Mac sempre tenta acender um e nunca consegue; ou uma metáfora sobre a vida, com suas fases difíceis de se passar; ou até mesmo sobre a fim da vida, quando a pessoa se encontra em seus últimos minutos e faz um retrospecto do que viveu.

Na minha visão particular, e você, se ler a HQ, terá a sua própria, não é nada disso. Henson tinha uma mente criativa prodigiosa. Em CONTO DE AREIA, eu acho que ele apresentou a forma com sua mente funcionava, onde um personagem poderia viver mil aventuras, em mil universos diferentes; onde não existia limite para o possível e nem leis para uma ordem certa; onde, ao fim de uma ideia, ele sempre poderia voltar ao início e criar algo igual, mas, ao mesmo tempo, diferente. Mac, na minha percepção, é a criatividade de Henson, sempre perseguida pela cobrança de algo novo, sempre numa corrida para chegar no topo da montanha, sempre encontrando saídas em pequenas chances, por mais absurdas e impossíveis elas pareçam.

Uma história desse nível de subjetividade, poderia se perder nas mãos de um artista pouco talentoso. Isso, felizmente, não aconteceu. Pérez fez um trabalho único, uma obra de arte digna de todos os prêmios que recebeu. A composição de seus quadros, em conjunto com os cenários e com a transposição dos personagens de um ponto a outro, é algo de impressiona e assombra. Ele conseguiu transpor para os quadrinhos todo o roteiro com uma maestria que duvido que pudesse se equiparar em um filme. Mas não só isso: ele conseguiu combinar as cores alegres, contidas, pasteis, de uma forma que trabalham em conjunto com todo o resto como, e na verdade é, uma única coisa. Confesso que ao terminar a leitura, eu voltei as páginas várias vezes e fiquei apenas admirando a arte, cada detalhe, cada combinação. É algo que, sem qualquer exagero, é digno de ficar exposto em uma galeria.

A produção da edição nacional de CONTO DE AREIA ficou maravilhosa, um primor que está presente em todas as páginas e na capa. Uma grande obra de arte que você terá orgulho de mostrar na sua estante. E por um preço que fica muito abaixo do que a obra vale. Então, por favor, não deixe de ler e se deslumbrar com a criatividade infinita de Henson, com a arte de Pérez e com um trabalho editorial de primeira.


AUTOR: Jim HENSON e Jerry JUHL
ILUSTRADOR: Ramón PÉREZ
TRADUÇÃO: Marília TOLEDO
EDITORA: Pipoca e Nanquim
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 164


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

11 Comments Deixe um comentário

  1. Oi ♡
    Quanto gente f#da em um post só! Nem imaginava que o Henson estava por trás de tanta coisa que fez parte da minha infância.
    Eu amo surrealismo, torna tudo mais divertido, e realmente o preço está bem baixo comparado com o nível das artes.

  2. Ao ler a resenha, deixei meio que minha imaginação sair do corpo. Acredito que essa tenha sido a intenção do autor, permitir que nossa imaginação flua sem pudor, sem porteiras.
    E quanto mais criativa uma imaginação é, mais alucinógena essa visão se concretiza.
    As ilustrações estão perfeitas, cores, traços, tudo meio fora do real e adorei isso!!!
    Beijo

  3. Achei sensacional esse tipo de narração,sendo que o autor escrevia como se fosse sua mente vivendo tudo o que é possível, e sonhamos com isso, então parece ser uma HQ incrível. E quantas obras incríveis esse homem criou, não me admira ter recebido prêmios por isso. As ilustrações são muito bem detalhadas e a trama me prendeu muito, sendo que o protagonista precisa chegar ao topo da montanha para não ser morto. Já quero ler

  4. Pipoca e Nanquim mais uma vez arrasando!
    Bem isso Carl, como é surrealista cada um vai encontrar uma mensagem, um ponto que chama atenção.
    Adorei que é bem colorido.
    Adoro o filme Labirinto

  5. Amei as ilustrações e a combinação de cores que tornam essa HQ unica. A história, vinda de uma mente tão brilhante deve ser tão incrível quanto. Mal posso esperar pra por a mão em meu exemplar!

  6. Carl!
    O cara sempre foi um gênio, seja lá em que área ele atuar.
    Adorei as ilustração, como gosto, com traços firmes e cores lindas, já gostei daí e quando o enredo se encaixa de uma forma diferente para cada leitor, tirando suas próprias conclusões de acordo com suas experiências pessoais, é uma ideia genial.
    EE o melhor é que me parece simplesmente uma aventura que talvez, alguns de nós gostaríamos de viver…
    cheirinhos
    Rudy

  7. Uau! O traço do quadrinista em Conto de areia me encantou muito. Gostei também da subjetividade que a história propõe, consequentemente trazendo várias interpretações para quem lê. A história não foi muito chamativa pra mim, mas confesso que o traço me conquistou.

  8. Uau!!! Eu pego tantas indicações maravilhosas aqui, que minha lista parece que dobrou de tamanho, rs. A Pipoca & Nanquim tem trazido obras maravilhosas e lindas para o Brasil, eu fico babando nas edições deles.
    Eu estou encantada com esta HQ, eu desconhecia este trabalho do Henson e fico feliz por ter conhecido por aqui, pois você o descreveu de forma tão maravilhosa que tenho certeza que a maioria das pessoas que lerem, agora querem, além de ler a HQ, também vão querer conhecer mais sobre ele e sobre o artista que ilustrou também, estou encantada com cada traço que vi acima e com suas cores.. A vantagem do surrealismo, é que cada um pode ter sua ótica da história e compreender uma lição diferente ou apenas admirar a obra, que conseguiu reunir pessoas muito talentosas em lugar só.

  9. Olá! A história por traz do livro já é para lá de interessante e deixa o livro ainda mais especial, os desenhos e cores estão lindos e eles por si só já super vale a aquisição, quanto a história, confesso que fiquei um tanto quanto confusa, mas espero me achar durante a leitura.

  10. Oi, Carl
    Foi uma pena o roteiro não virar filme, mas foi bem recompensado ao virar HQ lindíssima e premiada.
    As ilustrações são perfeitas, as cores combinam entre si, durante a resenha fiquei voltando as fotos para ver os detalhes. Gostei de tudo mas a penúltima foto fiquei impressionada com o cinza todo na cena e o tom iluminado aparecendo ao fundo.
    Vai para a lista de desejos, estou curiosa quem está atrás do personagem para mata-lo e ele tendo essa aventura tida em fugir com um mapa que nem sabe se está correto.
    Beijos

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