DAQUI PRA BAIXO

17 de setembro de 2019
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3 min de leitura

Jason Reynolds começou a escrever aos 9 anos de idade, inspirado pelo Rap, e também por isso, durante 20 anos, se dedicou principalmente à poesia. Em 2014, ele lançou seu primeiro romance, e depois dele, não largou mais a ficção. Ele também escreveu um livro sobre Miles Morales, o Homem-Aranha do filme HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, não em formato de quadrinhos, mas em prosa mesmo.

DAQUI PRA BAIXO é seu mais recente trabalho publicado no Brasil e é baseado em uma experiência pessoal. Inicialmente, Reynolds escreveu a história em prosa, mas depois mudou de ideia e transformou toda a narrativa em versos não rimados, conseguindo dar à leitura uma velocidade que reflete o conteúdo, uma vez que toda a ação se passa inteiramente dentro de um elevador e pelo período de apenas 67 segundos.

Will é um garoto de 15 anos que mora com a família em um prédio de um bairro violento, onde todos precisam seguir regras de gangues e vivem em constante medo de conflitos. Nesse lugar, a morte é algo que chega mais cedo, e é isso que acontece com Shawn, o irmão mais velho de Will: ele é baleado quando voltava para casa. Revoltado, vendo a mãe chorar pelos cantos, querendo justiça, Will decide se vingar de quem assassinou Shawn. Armado, ele entra no elevador do prédio no oitavo andar, onde mora, e enquanto desce, sete pessoas, uma por andar, irão tentar fazê-lo mudar de ideia.

Senti vontade de chorar,
e parecia que
alguém tinha
entrado na minha cara
punhos minúsculos socando
o fundo dos olhos
pés chutando
minha garganta no ponto
em que você começa
a engolir.
Fica quieto, cochichei pra ele
Fica firme, cochichei pra mim.
Porque chorar
é quebrar
As
Regras.

Quando eu li a sinopse da obra de Reynolds, fiquei bastante interessado, uma vez que a história tinha uma mensagem racial e social bem forte, além de ser escrita de uma forma pouco convencional e por um espaço de tempo que desperta a curiosidade para descobrir como ela seria contada. Entretanto, assim que entra a primeira pessoa no elevador, no sétimo andar, eu fiquei completamente surpreso. Não, não são personagens conhecidos, são anônimos para o leitor, mas todos os sete possuem uma ligação com Will. Então qual é a surpresa? Claro que não posso contar, mas é algo que eleva a leitura a outro patamar e me obrigou a prosseguir sem pausas, até chegar à última página.

É fácil compreender a revolta de Will. O desejo de vingança, de fazer justiça por seu irmão, não é algo jogado como parte de sua personalidade, mas como consequência de sua educação e, principalmente, pelas influências de onde ele mora. No bairro, a violência impera, a lei do mais forte é que dita as regras, a polícia não interfere, e mesmo quando o faz, é de forma parcial ou apática. Os moradores não recebem apoio dos governantes, não se sentem seguros, não existe esperança de ajuda. Will tem conhecimento de tudo isso, ele tem consciência de que o assassino de Shawn não será preso. E como dita a lei do bairro, se vingue sempre que necessário.

As regras
Chorar: Não. Aconteça o que acontecer. Não.
Dedurar alguém: Não. Aconteça o que acontecer. Não.
Se vingar: Se alguém que você ama aparece morto, encontre a pessoa que matou e mate também.

Os sete personagens que entram no elevador vão tentar mostrar a Will que a vingança não é solução, que ele não pode ser acusador, juiz e carrasco, que esse tipo de atitude só leva à destruição. Não apenas pelo que ele quer fazer, mas também por não ter provas de que quem matou o irmão é quem ele pensa. No bairro não são necessárias provas para um julgamento, cada um faz o que acha que está certo. E é assim com Will.

Mas os sete não vão apenas conversar, eles vão demonstrar, através de suas próprias histórias, que decisões precipitadas não devem ser tomadas. Todos eles erraram, ou sofreram pelo erro de alguém; todos eles são vítimas de alguma injustiça, ou cometeram alguma injustiça; e esses exemplos demonstram de forma clara como vive toda uma sociedade à margem da lei, não porque desejam, mas porque quem governa não se importa com eles. E a preocupação deles é impedir que Will se transforme em estatística, seja mais um, e isso porque os sete amam o pequeno Will.

Só mais uma coisa sobre As Regras
As Regras nunca devem ser quebradas.
As Regras são feitas pra gente quebrada
seguir.

DAQUI PRA BAIXO é uma leitura surpreendente, e isso não se deve à forma como a narrativa é escrita, através de versos, pelo período de um minuto, mas, sim, pelo conteúdo da história, pelas conversas de Will com os sete personagens que entram no elevador e pelo fato de quem são esses personagens. Ah, e se você não gosta de poesias, apesar do livro ser em versos, eles não são rimados. Na verdade, eu considero que a narrativa é em prosa, só que o texto é curto, quebrado em várias linhas, com diálogos, sem diferença para qualquer outro livro. Então leia sem preconceito.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Jason REYNOLDS
TRADUÇÃO: Ana GUADALUPE
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇÃO: 2019
PÁGINAS: 320


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Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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