5 de abril de 2026

PÁSCOA OU COMÉRCIO?

A Páscoa sempre me pareceu uma data que, com o tempo, foi ficando mais conhecida pelos símbolos do que pelo seu sentido. Hoje, quando ela se aproxima, o que costuma ganhar espaço são os ovos de chocolate nas lojas, as campanhas publicitárias, os almoços em família e a imagem do coelho como figura principal da celebração.

Mas a origem da Páscoa é mais antiga e mais ampla do que essa versão comercial que acabou se tornando dominante.

No sentido cristão, a Páscoa marca a ressurreição de Jesus Cristo e representa renovação, esperança e vida nova depois da morte. É uma das datas centrais do calendário religioso. Antes disso, porém, a própria ideia de Páscoa já existia na tradição judaica. A palavra está ligada ao Pessach, celebração que recorda a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Desde suas origens, portanto, a data está associada à ideia de passagem, libertação e recomeço.

Com o passar dos anos, esse significado foi sendo deslocado, ao menos no cotidiano de muita gente. A celebração religiosa permaneceu importante para muitos grupos, mas a Páscoa também foi absorvida pela lógica do consumo. O que antes era marcado principalmente por ritos, memória e reflexão passou a dividir espaço com produtos sazonais, vitrines temáticas e um apelo cada vez mais voltado à compra. Em muitos casos, essa parte acabou se tornando a mais visível.

O coelho, por exemplo, não tem origem direta no relato cristão da Páscoa. Sua presença está ligada a tradições populares europeias e à associação antiga desse animal com fertilidade e renovação da vida. Aos poucos, ele foi incorporado à celebração pascal como um símbolo de abundância e renascimento. Mais tarde, essa imagem foi reforçada pelo comércio e se consolidou como parte da data, principalmente para as crianças. Os ovos seguem caminho parecido. Muito antes do chocolate, o ovo já aparecia em diferentes culturas como símbolo de nascimento e continuidade da vida. Com o tempo, essa tradição foi adaptada e os ovos de chocolate passaram a ocupar esse lugar de forma mais atraente para o mercado e para o público.

Em diferentes partes do mundo, a Páscoa é celebrada de maneiras bastante distintas, o que mostra como uma mesma data pode assumir sentidos diversos conforme a tradição religiosa, a história local e os costumes de cada sociedade. Na Grécia, a Páscoa ortodoxa tem enorme peso religioso, com liturgias extensas e o costume de tingir ovos de vermelho. Na Itália e na Espanha, a data segue fortemente ligada à Semana Santa, às procissões e às práticas públicas de fé que ainda ocupam espaço central em muitas cidades. Na Polônia, a celebração costuma girar em torno da família, da mesa pascal e da bênção de alimentos e ovos. Já na Suécia e na Alemanha, a Páscoa preserva elementos religiosos, mas também incorpora tradições populares ligadas à primavera, à decoração e à vida doméstica.

Em países menos lembrados quando se fala em Páscoa, a data também aparece de formas bem particulares. Nas Filipinas, a Semana Santa é uma das celebrações religiosas mais importantes do calendário, com práticas como a Visita Iglesia, o Pabasa ng Pasyon e o Salubong, ritual realizado no Domingo de Páscoa. Na Índia, a Páscoa é celebrada principalmente por comunidades cristãs, com presença mais visível em regiões como Goa, onde a herança católica deixou marcas profundas na vida religiosa local. No Japão, a situação é diferente: a Páscoa não é feriado nacional e não ocupa lugar relevante no calendário público do país, aparecendo mais como tema comercial em alguns espaços. Na China, a data não tem presença ampla na cultura majoritária, mas segue sendo celebrada por comunidades cristãs em igrejas e encontros religiosos. Na Austrália, a Páscoa tem um caráter mais público e familiar, com a Good Friday e a Easter Monday reconhecidas no calendário oficial. Na África do Sul, o feriado também mobiliza viagens, encontros familiares e celebrações religiosas.

Hoje, a Páscoa parece ser vivida de forma mais imediata. Ela chega envolta em promoções, lançamentos e uma estética fácil de reconhecer e consumir. No passado, ao menos em muitas famílias, a data costumava ser mais ligada a práticas religiosas, à reunião em casa e a uma noção mais clara de seu sentido espiritual. Isso não significa que antes tudo fosse mais verdadeiro, mas havia menos disputa entre o significado da data e os elementos criados em torno dela.

Talvez a grande mudança tenha sido justamente essa: a Páscoa deixou de ser entendida por muita gente a partir de sua origem e passou a ser reconhecida por seus símbolos mais populares. O problema não está no chocolate, no almoço em família ou no costume de presentear. Está no esvaziamento do sentido, quando os elementos secundários passam a ocupar quase todo o espaço e a origem da celebração se torna um detalhe.

Eu acho interessante perceber como isso acontece com muitas datas comemorativas, mas na Páscoa isso fica especialmente visível. Ainda existe um significado forte por trás dela, seja religioso, histórico ou simbólico. A ideia de passagem, renovação e recomeço continua ali. O que mudou foi a forma como ela circula socialmente e como ela é apresentada, principalmente fora dos espaços religiosos.

No fim, a Páscoa de hoje diz muito sobre o nosso tempo. Ela ainda preserva parte de sua origem, mas também revela como tradições antigas podem ser reformuladas, simplificadas e transformadas em produto. Entender de onde vêm seus símbolos e observar como a data é celebrada em diferentes culturas talvez seja uma forma de olhar para ela com mais clareza e menos automatismo.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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