3 de abril de 2026

O QUE ATACAM EM “QUINZE DIAS”

Quinze Dias” acompanha Felipe, um adolescente que planeja passar as férias em casa, em paz, até descobrir que vai dividir o quarto por duas semanas com Caio, o vizinho por quem já teve sentimentos. A partir dessa convivência, a história se organiza em torno de insegurança, desejo, vergonha, bullying, gordofobia e homofobia.

A adaptação para o cinema mantém esse núcleo e apresenta Felipe e Caio como centro de uma narrativa de amadurecimento afetivo e conflito com a própria imagem.

Com a divulgação do trailer e do pôster da adaptação, a recepção nas redes não ficou restrita à expectativa pelo filme. Os atores e a própria produção passaram a ser alvo de ataques, sobretudo no X (Twitter), com comentários voltados menos para a adaptação em si do que para a sexualidade do elenco, para o corpo do protagonista e para o incômodo com a presença de uma história de amor entre dois meninos no centro de um filme brasileiro. Esse contexto é importante porque explica por que a discussão em torno de “Quinze Dias” deixou de ser apenas sobre cinema e passou a envolver também reações marcadas por homofobia, gordofobia e policiamento da identidade dos atores.

É por isso que eu vejo uma parte do hate contra o filme como algo que sequer tenta discutir literatura ou cinema. Depois do teaser e do pôster, o que passou a circular com força não foi uma avaliação de direção, roteiro ou construção da adaptação, mas uma tentativa de deslocar a conversa para o corpo dos atores, para a sexualidade deles e para o incômodo com uma história de amor entre dois meninos no centro de um filme brasileiro. Quando a reação se organiza desse modo, o alvo deixa de ser a obra e passa a ser o que ela torna visível.

Eu não considero legítima a tentativa de invalidar a adaptação com base em suspeitas sobre a sexualidade dos atores. Isso aparece de forma ainda mais insustentável neste caso porque Miguel Lallo e Diego Lira já vieram a público afirmar que são gays. Houve inclusive uma manifestação pública deles em 2025 em resposta a esse tipo de comentário, deixando isso explícito. Portanto, insistir nesse ponto não corrige nenhum problema de representação; apenas prolonga uma vigilância sobre a vida privada que não produz leitura mais séria da obra.

Também não vejo seriedade nos ataques dirigidos ao corpo de Miguel Lallo ou ao fato de Felipe ser um adolescente gordo. O livro e o filme foram apresentados justamente como uma história que enfrenta insegurança, bullying, gordofobia e homofobia. Atacar o protagonista ou o ator com linguagem gordofóbica não revela uma falha da adaptação. Revela que a violência social que sustenta essa narrativa continua ativa fora dela. Para mim, esse ponto é central, porque mostra que a história não está tratando de um problema abstrato ou distante. A reação de parte do público confirma a permanência desse tipo de agressão.

Eu também rejeito a tentativa de tratar qualquer desconforto com a aparência do elenco como prova de que a adaptação deu errado. Até aqui, o que foi apresentado oficialmente é um teaser, um pôster, a premissa do longa, o elenco principal, a direção e a data de estreia. Isso permite falar de expectativa, de escolha de casting e de aproximação com o livro, mas não autoriza transformar preconceito em crítica artística. Para criticar um filme como filme, é preciso discutir o que ele constrói em cena. Grande parte do barulho que surgiu até agora não faz isso.

Eu defendo o livro e a adaptação porque existe um valor concreto em colocar essa história no cinema sem apagar o que a organiza. “Quinze Dias” não foi anunciado como uma história genérica de romance adolescente. O centro da obra está justamente na experiência de um menino gay, gordo, atravessado por vergonha, desejo e violência cotidiana, tentando entender a si mesmo na convivência com Caio. Quando uma narrativa assim chega às telas, ela amplia o espaço para experiências que durante muito tempo foram tratadas como secundárias ou desviadas para a margem. Para mim, defender essa adaptação é defender o direito de esse tipo de vivência existir no centro da narrativa, sem precisar ser reduzida a constrangimento público.

O que mais me chama atenção é que parte desse hate exige da adaptação uma espécie de autorização impossível. Há um incômodo com o fato de a história ser gay, há um incômodo com o corpo do protagonista e há uma insistência em patrulhar a identidade dos atores mesmo depois de eles já terem se manifestado publicamente. Nenhum desses movimentos melhora a discussão sobre representação. O que eles fazem, na prática, é deslocar o debate para longe da obra e transformá-lo em recusa ao que ela expõe. É por isso que eu considero importante defender “Quinze Dias” como livro e como adaptação: não porque a obra deva ficar acima de crítica, mas porque muito do que apareceu até agora não é crítica. É rejeição àquilo que a história torna visível.

No fim, o que esses ataques expõem não é um problema da história, mas o tipo de mentalidade que ainda tenta decidir quais corpos podem ser desejados, quais afetos podem ser levados a sério e quais vidas merecem ser vistas sem escárnio. Há preconceito nisso. Há gordofobia, homofobia e uma recusa evidente em admitir que o amor possa existir fora de um padrão físico estreito, hierarquizado e socialmente confortável. Quando alguém reage com deboche ou agressividade à ideia de afeto entre pessoas diferentes fisicamente, não está descrevendo a realidade; está revelando o limite da própria visão de mundo. E, nesse caso, os ataques soam menos como crítica e mais como a fala do mesmo tipo de gente que oprime personagens como Felipe na vida concreta.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

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