Em “Lembre-se de Nós”, Alyson Derrick constrói uma das mais tocantes histórias de amor lésbico da ficção jovem adulta, e usa a amnésia não como artifício, mas como radiografia brutal de tudo que a sociedade faz para apagar quem somos.
Há livros que começam com uma cena e há livros que começam com uma ferida. “Lembre-se de Nós” pertence à segunda categoria. Antes mesmo que o leitor encontre seu ritmo, antes que decida o quanto vai se envolver com as personagens, o livro já o prendeu pelo tornozelo. A cena de abertura apresenta Stevie Green e Nora Martin, duas jovens apaixonadas, dias antes de uma virada que as duas esperaram dois anos para dar. E é justamente por isso que o que vem a seguir dói tanto.
Para entender “Lembre-se de Nós”, é preciso entender quem é Alyson Derrick. Nascida e criada em Greenville, uma pequena cidade da Pensilvânia onde, nas próprias palavras dela, “fogueiras substituem a reciclagem”, Derrick cresceu numa família católica praticante, em um ambiente rural predominantemente branco e, como ela mesma revelou em entrevistas à Publishers Weekly e a outros veículos, viveu boa parte da adolescência profundamente fechada no armário. “Eu era tão retraída que não sabia que era gay até a metade da faculdade”, contou. Ela é coreano-americana. Ela é queer. E esses dois eixos de identidade são exatamente os que definem Stevie Green, a protagonista do livro.
Antes de “Lembre-se de Nós”, Derrick havia co-escrito com a esposa, a autora Rachael Lippincott, o romance “Ela fica com a garota” (2022), que se tornou best-seller do New York Times. Mas foi no projeto solo que ela colocou, segundo sua própria descrição, muito mais de si. “Eu sentia que podia colocar muito do meu coração neste livro”, disse. “A experiência asiático-americana de Stevie estava bem próxima de como eu me sentia. E com o aspecto queer, como eu era tão fechada, foi mais sobre imaginar como teria sido, ou poderia ter sido, se eu tivesse me conhecido quando ainda crescia”. O resultado é uma obra que carrega a textura inconfundível das histórias contadas por quem as viveu ou, ao menos, por quem viveu algo suficientemente próximo para saber onde as palavras precisam ir.
A história se passa em Wyatt, cidade fictícia do interior da Pensilvânia, e começa pouco antes de seu ponto de ruptura. Stevie Green, dezoito anos, e Nora Martin namoram em segredo há dois anos. Dois anos de fotos Polaroid escondidas, ligações sussurradas na madrugada, encontros numa fazenda fora do alcance dos olhos da cidade. Dois anos que custaram a Stevie o afastamento gradual dos pais, das antigas amigas, de qualquer versão de si mesma que não coubesse ao lado de Nora. A recompensa estava próxima: após a formatura, as duas partiriam para a Califórnia, onde poderiam finalmente viver o relacionamento às claras.
Então Stevie sofre uma queda grave na floresta, entra em coma, e acorda sem os dois anos anteriores de memória. Não se lembra de Nora. Não se lembra de ter aceito sua sexualidade. Não se lembra do plano da Califórnia. Para ela, é como se tivesse quinze anos de novo e o mundo ao redor, em vez de ajudá-la a reencontrar quem ela se tornara, apressa-se em preencher o vazio com a versão “aprovada” de Stevie.
Essa é a premissa de “Lembre-se de Nós”, e Derrick a constrói com uma consciência narrativa que vai muito além do recurso clássico da amnésia. A autora teve a clareza de começar o livro antes do acidente, mostrando ao leitor quem Stevie era, o peso do que vai ser perdido. Quando Stevie acorda sem memórias, o leitor já lamenta por ela. A perda é dupla: a da personagem, que não sabe o que perdeu, e a do leitor, que sabe demais.
Stevie Green é biracial — coreana e branca — lésbica, e filha de uma família católica em uma cidade onde nenhum desses três atributos passa despercebido. Ela tem determinação, um senso de justiça aguçado, e uma incapacidade congênita de aceitar o que parece errado. São essas qualidades que fazem dela uma protagonista tão difícil de largar e também tão difícil de ver sofrendo.
Após o acidente, Stevie acorda numa vida que não reconhece e que ninguém ao redor parece disposto a explicar com honestidade. A mãe, que ela considerava sua melhor amiga, está distante por razões que Stevie não consegue decifrar — o distanciamento que existia antes do acidente era real, causado pelo segredo que Stevie guardava, mas sem a memória dos dois anos, essa frieza parece inexplicável e injusta.
O pai tornou-se um homem que repete discursos intolerantes, absorto em programas de TV que Stevie sente instintivamente que a oprimem, sem saber por quê. As antigas amigas, Savannah e Rory, reaparecem como aliadas solícitas, mas revelam seus verdadeiros rostos nas pequenas crueldades: os comentários anti-asiáticos que fazem e esperam que Stevie ria junto, a insistência em empurrá-la de volta a uma versão de si mesma que ela havia, silenciosamente, deixado para trás.
E há Ryan, um garoto coreano-americano que as amigas dizem que Stevie gostava romanticamente antes do acidente. Stevie tenta. Genuinamente tenta sentir algo por ele, porque lhe disseram que deveria. Derrick retrata esse processo com uma precisão dolorosa: é exatamente assim que a heterossexualidade compulsória funciona em ambientes conservadores. O leitor, que conheceu a Stevie apaixonada por Nora, assiste a esse esforço com a frustração de quem sabe a resposta de uma equação que a personagem ainda não aprendeu a formular. Curiosamente, o que emerge daí não é um triângulo amoroso barato, mas uma amizade genuína — Ryan é um dos personagens mais queridos do livro, e a conexão que ele e Stevie constroem como os únicos asiático-americanos de Wyatt é um dos fios mais ternos da narrativa.
Vale notar que a palavra “lésbica” nunca aparece explicitamente no texto. Stevie mal consegue dizer que é gay. Derrick fez essa escolha de forma deliberada: em comunidades como Wyatt, o próprio vocabulário da identidade ainda é proibido, e a ausência do termo no texto é, em si mesma, uma forma de retratar o armário.
Se Stevie é a personagem que o leitor acompanha de dentro, Nora é a que ele acompanha de longe, e a distância torna tudo mais difícil. Criada em uma fazenda de gado às margens de Wyatt, Nora cresceu fazendo o trabalho pesado que a vida rural exige: reparando cercas, carregando sacos de ração e vendendo carne na loja da família. Foi ela quem carregou Stevie inconsciente das profundezas de um barranco na floresta e foi buscar ajuda, salvando a vida da namorada. Mas o preço que Nora paga por existir em Wyatt é alto.
A mãe de Nora é o personagem mais sombrio do livro. Verbal e fisicamente abusiva, ela representa, de forma concentrada, tudo que torna Wyatt intransitável para as duas jovens. Não há pai presente. Não há rede de proteção. Há uma cena de abuso físico que acontece diretamente na narrativa — Derrick não desvia o olhar, não suaviza —, e é suficiente para que o leitor entenda, com total clareza, por que a Califórnia não era apenas um sonho romântico para Nora. Era sobrevivência.
A grande escolha narrativa do livro em relação a Nora é a das cartas. Intercaladas aos capítulos narrados por Stevie, aparecem textos que Nora escreve para a namorada, mas nunca envia. São documentos de uma dor que não tem para onde ir: Nora não pode dizer a Stevie que foi sua namorada, porque Stevie não se lembra e porque assumir isso publicamente em Wyatt teria consequências. Então ela escreve. As cartas funcionam como um diário emocional que é, ao mesmo tempo, íntimo e público. O leitor lê o que Stevie não lê, e essa assimetria é um dos dispositivos mais eficientes do livro. Nora nelas é quem ela é em sua totalidade: sensível, bem-humorada, resiliente, amorosa, desesperada. São os momentos de escrita mais bela do livro.
O que torna Nora extraordinária como personagem de amor não é a intensidade de seu afeto, mas a qualidade de sua paciência. Ela não pode simplesmente dizer “eu sou sua namorada” e esperar que isso resolva tudo. Stevie está vivendo uma realidade diferente, construída por pessoas que têm interesses em moldá-la de determinada forma. Nora precisa confiar que o amor que existiu uma vez vai rebrotar, e precisa fazer isso sem pressa, sem pressão, sem tornar-se mais um peso. É uma forma de amor que exige maturidade rara, especialmente numa adolescente que está, ela mesma, tentando sobreviver a uma mãe abusiva e a uma cidade que não a quer.
Há um momento no livro em que Stevie começa a ser inexplicavelmente atraída por Nora sem saber por quê. Não é uma recordação. É algo mais primitivo: o corpo que lembra o que a mente apagou. Derrick trabalha essa ideia com delicadeza, sem transformá-la em misticismo ou em melodrama. É simplesmente o conforto inesperado de uma presença, o desconforto suave de um sorriso familiar demais, a sensação inexplicável de “lar” numa estranha.
Esses momentos são o coração do livro. Derrick poderia ter construído a reconstituição do amor como uma sequência de revelações dramáticas, memórias voltando em flashes, reencontros catárticos, declarações em voz alta. Em vez disso, ela opta pelo lento. Pelo acúmulo de pequenas coisas. Stevie e Nora se reencontram como duas pessoas que não se conhecem, e o leitor que sabe tudo sobre elas precisa assistir a esse reaprendizado sabendo que cada pequeno passo custou dois anos de vida e um acidente quase fatal.
Derrick escreve em primeira pessoa pelo ponto de vista de Stevie, e essa escolha cria uma imersão imediata na confusão da protagonista. O leitor habita a cabeça de uma garota que tenta reconstituir dois anos de história a partir dos fragmentos que os outros lhe oferecem e que desconfia, cada vez mais, de que esses fragmentos foram selecionados com cuidado. A tensão narrativa nasce menos da dúvida sobre o que aconteceu e mais da pergunta sobre quando Stevie vai parar de acreditar nas versões que lhe são servidas.
Derrick não escreve um amor que supera tudo sozinho. Ela escreve um amor que existe dentro de estruturas — familiares, sociais, religiosas, raciais — e que precisa encontrar seu caminho através delas, não apesar delas.
O que eleva “Lembre-se de Nós” acima da média da ficção jovem adulta — mesmo da boa ficção jovem adulta — é a consciência com que Derrick usa seus elementos narrativos. A amnésia, recurso que nas mãos erradas se tornaria um truque, aqui é uma metáfora de precisão cirúrgica. O que Stevie perde quando perde dois anos de memória não é apenas o relacionamento com Nora: é a versão de si mesma que havia sido honesta. E o que o ambiente faz imediatamente após é tentar preencher esse vazio com a versão “correta” de Stevie — a que vai à missa, a que tem o namorado certo, a que não envergonha a família.
Essa dinâmica espelha, de forma quase literal, o que muitas pessoas LGBTQIA+ vivenciam quando precisam se re-assumir para famílias ou comunidades que não aceitaram sua orientação. O apagamento que Stevie sofre por um acidente é o mesmo apagamento que a sociedade tenta impor deliberadamente a pessoas queer. Derrick não precisa fazer essa analogia explícita, ela está na estrutura do livro, em cada cena em que alguém tenta convencer Stevie de quem ela deveria ser.
A dimensão racial é igualmente central. Stevie e Ryan são os únicos asiático-americanos de Wyatt, e o livro não é gentil com o cotidiano que isso implica: micro agressões que os amigos brancos não percebem ou ignoram, a solidão de ser “a diferente” num eixo que não tem nada a ver com sexualidade mas que amplifica o peso de ser diferente em todos os outros. Derrick revelou em entrevista que hesitou em escrever personagens asiático-americanas porque nunca se sentiu “asiática o suficiente” para tal. Foi a esposa quem a convenceu de que essa experiência específica — a de uma pessoa de herança asiática que cresceu invisibilizada num contexto rural branco — era exatamente a história que precisava ser contada.
Há livros que contam histórias de amor e há livros que explicam por que amar é, em determinados contextos, um ato de resistência. “Lembre-se de Nós” é os dois ao mesmo tempo, sem que um comprometa o outro. Stevie e Nora não são personagens que existem para provar um ponto, elas existem com a complexidade e a contradição de gente de verdade, tomando decisões imperfeitas em circunstâncias que exigem mais delas do que seria justo. E é exatamente por isso que sua história funciona.
O livro chega como uma das narrativas LGBTQIA+ mais completas e bem escritas da ficção jovem adulta dos últimos anos. Para qualquer leitor — independente de identidade, de idade, de experiência — ele chega como um lembrete de algo que talvez seja a coisa mais difícil de aprender: que quem somos resiste, mesmo quando tudo ao redor conspira para que esqueçamos.

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