3 de fevereiro de 2026

S.T. ABBY – VIDA, OBRA E A SOMBRA DA AUTORA DE MINDF*CK

No universo da literatura de romance, segundo os fãs, poucas autoras navegaram as águas turvas da psique humana com a mesma audácia e versatilidade de Christie Owens. Para milhões de leitores, ela era uma fonte prolífica de histórias que variavam do doce e cômico ao visceralmente sombrio. Sob o pseudônimo de “S.T. Abby”, ela mergulhou nas profundezas mais escuras do gênero, criando a série “Mindf*ck”, um fenômeno cult que redefiniu os limites do dark romance. No entanto, a escuridão que ela tão habilmente explorava na ficção encontrou um eco trágico em sua própria vida, culminando em uma morte violenta que deixou a comunidade literária em choque e com mais perguntas do que respostas.

Nascida em 8 de março de 1984, Christie Owens Cunningham era, em muitos aspectos, uma figura improvável para se tornar um ícone do dark romance. Descrita por um primo como uma “típica beldade sulista” do Alabama — quieta, educada e respeitosa — ela trocou um trabalho árduo de uma década em um armazém de distribuição de encanamentos por uma carreira literária que explodiu em sucesso. Aconselhada a participar de um seminário de escrita em 2013, ela absorveu o conhecimento sobre o mercado de autopublicação e, cinco meses depois, lançou seu primeiro livro sob o nome “C.M. Owens”.

O sucesso foi quase imediato. Em meados de 2014, ela já ganhava o dobro de seu salário anterior e se tornou escritora em tempo integral. Para gerenciar sua produção criativa diversificada, ela adotou uma estratégia de múltiplos pseudônimos, cada um com uma identidade de gênero distinta, uma prática que lhe permitiu construir bases de fãs leais e segmentadas.

C.M. Owens”: mais de 40 livros, abrangendo comédia romântica, new adult e suspense leve. Séries populares incluem “Sterling Shore” e “The Wild Ones”.
Kristy Cunning”: cerca de 10 livros com temas de fantasia paranormal, humor sombrio e múltiplos parceiros românticos. Séries completas como “All The Pretty Monsters”.
S.T. Abby”: a série “Mindf*ck”, caracterizada por violência, vingança e suspense psicológico. O nome “Stabby” (esfaqueador/a) é um jogo de palavras intencional.

Essa separação permitiu que Christie explorasse livremente os extremos do espectro romântico, desde histórias de amor doces e reconfortantes até narrativas que confrontam o leitor com a brutalidade e a ambiguidade moral.

Foi sob o nome de S.T. Abby que Christie Owens criou sua obra mais impactante e controversa. A série “Mindf*ck”, publicada em 2016, segundo os fãs, não é apenas um livro; é uma experiência visceral que desafia as convenções do romance e da moralidade. A história segue Lana Myers, uma mulher que, anos após sobreviver a um ataque brutal que destruiu sua vida, se torna uma serial killer vigilante, caçando e eliminando homens que cometeram crimes semelhantes. Em seu caminho está Logan Bennett, um brilhante agente do FBI que se apaixona por Lana, sem saber que ela é o próprio monstro que ele está caçando.

A série foi um sucesso estrondoso, acumulando mais de 1,6 milhão de avaliações no Goodreads e uma legião de fãs devotos. Os críticos e leitores elogiaram a narrativa por sua intensidade e profundidade psicológica. Vários críticos descrevem a série como “intensa, emocionante e descaradamente ousada”, elogiando sua capacidade de “mergulhar profundamente na complexidade do trauma, vingança, amor e obsessão”.

A genialidade da série reside na sua exploração da ambiguidade moral. Lana é, ao mesmo tempo, vítima e vilã. Suas ações, embora violentas, são enraizadas em uma busca por justiça em um sistema que falhou com ela. S.T. Abby força o leitor a confrontar questões desconfortáveis: a vingança pode ser justificada? Onde termina a justiça e começa a monstruosidade? A dualidade de Lana é encapsulada em uma de suas citações mais famosas:

Para derrotar um monstro, você tem que ser duas vezes mais monstruoso. Para amar um monstro, você tem que compartilhar sua alma.

O romance proibido entre Lana e Logan é o motor emocional da série, um jogo de gato e rato tenso e eletrizante. Os leitores são atraídos pela química inegável do casal, mesmo sabendo que sua relação é construída sobre segredos e enganos. No entanto, a série não é para todos. As resenhas frequentemente alertam sobre o conteúdo gráfico, os temas sombrios e os múltiplos gatilhos relacionados à violência sexual e tortura. É uma obra que exige estômago forte, mas que recompensa com uma profundidade raramente vista no gênero.

Em 24 de julho de 2021, a ficção e a realidade colidiram da forma mais brutal. A polícia do Condado de Cherokee, Alabama, recebeu uma chamada de Daniel Seth Cunningham, marido de Christie, admitindo ter atirado nela. Ela foi encontrada morta no deck de sua casa com um ferimento de bala; ele tinha um ferimento de faca. Duas crianças estavam na residência no momento do incidente.

Nos meses que antecederam sua morte, Christie Owens deu sinais de turbulência pessoal. Ela anunciou um hiato na escrita e removeu temporariamente seus livros da Amazon, citando “problemas pessoais”. O que se desenrolava nos bastidores era um drama tão sombrio quanto qualquer um de seus enredos.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. A família pediu privacidade, e os detalhes oficiais eram escassos. O caso seria apresentado a um Grande Júri, mas como os registros do Grande Júri no Alabama não são públicos, nenhuma informação sobre acusações ou o resultado da investigação foi divulgada.

Essa falta de transparência, especialmente para uma autora best-seller do USA Today, alimentou uma intensa especulação online. Fãs e detetives amadores em fóruns como o “True Crime Society” juntaram fragmentos de informações, incluindo postagens deletadas de grupos de fãs, pintando um quadro perturbador de abuso e desespero que precedeu a tragédia. Embora não confirmada, a teoria predominante sugere que Christie havia sido vítima de agressão sexual por um parente do marido e que a falta de apoio dele culminou na confrontação final e fatal.

Após a morte de Christie, uma questão permaneceu: o que aconteceria com seu vasto catálogo literário? Seus livros, incluindo os publicados sob todos os seus pseudônimos, permanecem disponíveis para compra em plataformas como a Amazon. Seu site oficial continua ativo, servindo como um memorial para sua prolífica carreira.

No entanto, seu trabalho foi deixado inacabado. Séries populares como “Sterling Shore” e “The Wild Ones” nunca receberão seus capítulos finais, deixando os leitores em um estado de luto tanto pela autora quanto pelos personagens que amavam.

O interesse por sua obra, especialmente a série “Mindfck”, intensificou-se após sua morte. Novos leitores, atraídos pela história trágica da autora, descobriram a genialidade de sua escrita. A notícia de que a produtora de Sylvester Stallone adquiriu os direitos da série “Mindfck” para uma adaptação solidificou ainda mais seu legado, prometendo levar a história de Lana Myers a um público ainda maior. Para muitos, ler seus livros tornou-se uma forma de homenageá-la, mantendo viva a voz que foi silenciada cedo demais.

Christie Owens foi uma camaleoa literária, uma autora que ousou explorar todo o espectro da experiência humana, do amor mais puro à vingança mais sombria. Como S.T. Abby, ela não apenas escreveu um thriller de sucesso; ela dissecou a natureza do trauma e da moralidade, criando uma anti-heroína inesquecível que ressoa com uma geração de leitores que se sentem desprovidos de voz. A ironia cruel é que sua própria vida terminou em uma tragédia que espelha a escuridão de sua ficção mais famosa. Embora sua morte permaneça envolta em mistério e dor, seu legado é imortal. Seus livros continuam a ser lidos, discutidos e amados, uma prova de que, mesmo quando a autora se vai, a voz que ela deu aos seus personagens ecoa para sempre.

Mindf*ck” será publicado no Brasil em 2026 pela editora Paralela.

Carlos Barros

Sou o Carlos e tenho várias paixões, como livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

REDES SOCIAIS

Popular

4

A PACIENTE SILENCIOSA

21 de julho de 2021
Gabriel é um fotógrafo talentoso e conhecido, que faz trabalhos para revistas famosas. Alicia é uma pintora excepcional, seus quadros possuem características
5

DUPLO EU

27 de agosto de 2019
O índice de massa corporal (IMC) é uma medida internacional para verificar se uma pessoa está no seu peso ideal. Esse cálculo
Ir paraTopo

Don't Miss

NADA – A PROCURA DESESPERADA POR SIGNIFICADO

Se eu tivesse que resumir “Nada”, da Janne Teller, eu

MULHER EM QUEDA – TENTATIVA DE BLINDAGEM?

O livro funciona como um suspense psicológico que usa uma