Se eu tivesse que resumir “Nada”, da Janne Teller, eu diria que é um livro curto, simples de ler, mas que deixa uma sensação difícil de tirar da cabeça. Ele não é “difícil” pelo vocabulário ou pela estrutura. Ele é difícil porque a história pega uma ideia que parece abstrata — “nada importa” — e transforma isso num desastre bem concreto, bem humano e bem desconfortável.
A história começa quando o Pierre Anthon larga a escola, sobe numa árvore e decide que nada tem sentido. Ele não faz um discurso elaborado. Ele simplesmente repete isso como uma verdade óbvia. E é aí que o livro fica esperto: ele mostra como uma frase dessas, dita no lugar certo, para as pessoas certas, vira uma bomba. Porque não é um adulto falando. Não é um filósofo num texto. É um colega de sala. E, de repente, todo mundo precisa lidar com uma pergunta que ninguém estava preparado pra encarar.
A turma não reage tentando entender o Pierre, nem tentando acolher. Eles reagem com orgulho ferido, como se ele tivesse ofendido a vida deles. E aí vem a ideia central do livro: eles decidem provar que existe sentido. Só que eles não fazem isso com conversa, reflexão ou amadurecimento. Eles tentam ganhar uma discussão impossível criando um objeto físico: o tal “Monte de Significado”, onde cada um precisa colocar algo importante, algo que “prove” que a vida vale alguma coisa.
No começo, dá para achar até “bobo”, porque a proposta parece uma brincadeira séria demais. Só que o livro não demora a mostrar o que realmente está acontecendo: aquilo não é uma busca honesta por sentido. É uma forma de controle. E quando o grupo entende que os sacrifícios precisam ser mais fortes para “valer”, o monte vira uma escada que só desce. A lógica fica doentia rápido: se ainda existe dúvida, é porque o sacrifício não foi grande o bastante. Então precisa piorar.
A parte mais perturbadora é que o Pierre Anthon não precisa fazer nada além de existir e observar. Ele não manipula ativamente, não força ninguém a nada. Ele só está ali como um espelho. Enquanto isso, quem se destrói é a turma que supostamente está “defendendo valores”. Isso muda a sensação do livro inteiro, porque o “perigo” não está no menino que abandonou tudo, está no grupo que decide que a resposta para o vazio é fabricar sentido à força.
A narradora é essencial nisso. Porque ela não é uma pessoa de fora apontando o dedo. Ela participa. Ela hesita. Ela se justifica. Ela se deixa levar pelo medo de ser excluída, pelo impulso de não ser a única que “estraga” o objetivo do grupo. Isso torna a história ainda mais realista no que importa: o livro mostra como a violência nem sempre começa com uma intenção “maligna”. Muitas vezes começa com pequenos consentimentos, com o pensamento de que aquilo é “necessário”, com a sensação de que é “para um bem maior”.
E aí o livro vira praticamente um estudo do comportamento coletivo. Você vê a turma criando regras, punições, chantagens. Eles constroem uma espécie de moral própria, onde sofrimento vira moeda: “eu entreguei algo importante, então você tem que entregar também”. A vergonha vira arma. O pertencimento vira recompensa. Ninguém quer ser o fraco, o covarde, o “sem significado”. Isso é muito adolescente na superfície, mas muito adulto na estrutura. É uma miniatura de como grupos e sociedades justificam absurdos quando acreditam estar defendendo algo maior.
O Monte de Significado, como símbolo, funciona bem justamente por causa dessa ambiguidade. Por um lado, ele prova uma coisa óbvia: as pessoas têm coisas que valorizam, memórias, vínculos, medos. Só que ele não prova o que eles queriam provar. Porque valor não é a mesma coisa que sentido. Ter apego não resolve a pergunta do Pierre Anthon. Ter algo importante para perder não significa que a vida tem um propósito maior. O monte cresce, mas junto cresce também uma coisa que ninguém quer admitir: o monte vira um depósito de trauma, de humilhação, de feridas que não tinham por que existir.
O livro é frequentemente lido como uma história sobre niilismo, e é mesmo. Mas o ponto mais forte não é “a vida não tem sentido”. O livro cutuca outra coisa: o que a gente faz quando fica com medo do vazio. Tem gente que encara a incerteza e vai construindo uma vida com sentido humano, frágil, imperfeito, mas real. A turma escolhe outra rota: eles querem um sentido total, indiscutível, impossível de negar. E quando isso não aparece, eles insistem com mais violência, como se a brutalidade pudesse virar prova filosófica.
É impossível não ver ali algumas leituras maiores. Dá para ler como alegoria religiosa (o monte como altar, o sacrifício como ritual, Pierre como herege). Dá para ler como crítica a uma sociedade onde tudo precisa justificar sua existência como se fosse performance — sucesso, produtividade, utilidade, como se viver precisasse ser “provado”. Dá até para ver um comentário sobre arte e espetáculo, sobre transformar sofrimento em objeto “significativo”, algo que pode ser exibido, vendido, validado por quem olha de fora.
Agora, mesmo achando o livro muito potente, eu entendo quem tem críticas. A escalada pode parecer exagerada demais para alguns leitores. Eu acho que isso faz parte do formato: ele funciona quase como fábula sombria, não como realismo puro. Outra crítica comum é que ele pode soar frio e clínico, sem acolhimento emocional. Mas eu também acho que isso serve ao que ele quer mostrar: a frieza é justamente o ambiente onde o horror moral consegue continuar sem travar.
No fim, o que eu mais gosto (e ao mesmo tempo detesto) em “Nada” é que ele não deixa o leitor confortável. Ele não entrega uma lição bonita, não tem um discurso final que ajeita tudo. Ele te deixa encarando a pergunta que abriu a história e, pior, te deixa encarando a resposta que as pessoas deram quando não aguentaram essa pergunta.
A partir daqui tem spoilers.
O trecho que torna “Nada” tão divisivo é quando o experimento do monte deixa de ser simbólico e passa a ser irreparável. O grupo não está mais abrindo mão de objetos. Eles passam a exigir coisas que atingem identidade, intimidade, dignidade, corpo, memória. E o monte vira quase uma prova material de que, quando você tenta “fabricar sentido” através de sacrifício forçado, você não encontra sentido nenhum, você só produz destruição.
O Pierre Anthon continua sendo a pedra no sapato porque ele não valida o resultado. O grupo queria um “checkmate”: uma cena em que ele finalmente teria que admitir que estava errado. Só que o livro não dá essa satisfação. E isso é uma escolha muito importante, porque reforça o que a história está dizendo: não existe sacrifício grande o suficiente que transforme uma crença em verdade absoluta.
Outro ponto que pesa no final é o que acontece quando o monte sai do grupo e encontra o mundo. O “significado” vira algo disputado, avaliado, colocado em circulação. E aí aparece uma camada ainda mais amarga: não é só que os adolescentes fizeram um ritual violento. É que existe um tipo de mundo que olha para aquilo e enxerga valor (curiosidade, prestígio, interesse, poder), mesmo quando aquilo nasceu do pior lugar possível. Isso faz o livro parar de ser “sobre crianças” e virar “sobre como a sociedade transforma coisas em símbolos sem querer saber o custo humano”.
E tem ainda a implicação mais incômoda: no fim, não dá para dizer “a culpa foi do Pierre”. Ele foi o gatilho, mas ele não foi o autor da violência. Quem fez acontecer foi a turma, pessoas comuns, com medos comuns, com necessidades comuns de aceitação. Isso divide leitores porque muita gente quer uma explicação mais simples: um vilão claro, um motivo bem definido, um aprendizado final. O livro não entrega isso. Ele diz, na prática: o perigo está na normalidade quando ela encontra uma ideia que a desestabiliza.
Eu acho que “Nada” é divisivo porque ele recusa o conforto de duas coisas que muita gente busca em livros assim: uma resposta definitiva para o “nada importa”; uma moral limpa, onde a gente sabe exatamente quem está certo.
O Pierre parece “o errado” por ser frio e provocador, mas o grupo parece “o certo” por estar defendendo o sentido, até você perceber que eles usam essa defesa para esmagar pessoas. E aí o leitor fica sem chão, porque o livro obriga você a aceitar uma conclusão desconfortável: nem toda luta por “significado” é boa, e nem todo discurso do vazio é o verdadeiro vilão.
No fundo, o final implica que a pergunta do Pierre Anthon continua viva e que o que aconteceu na turma não prova que ele estava errado. Só prova que o medo de estar vazio pode transformar gente comum em algo horrível. E é por isso que o livro bate tão forte: ele não te assusta com monstros. Ele te assusta com uma lógica que, em escala menor ou maior, existe por aí.

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